Eu decidi ser feliz

Eu decidi mudar de vida. Ok, não foi uma decisão assim, assim… Foi meio que consequência de uma furacão que passou na minha vida profissional e em menos de uma mês me deixou desempregada e com uma mão na frente e outra atrás, cheia de contas para pagar e sem um puto no bolso. Mas não é da falta de grana que eu quero falar. E sim da minha decisão de mudar de vida. Já fazia algum tempo que eu me sentia cansada. Me sentia sempre irritada e na maioria das vezes, apesar de manter o sorriso amarelo de canto de boca, eu estava triste. Cansada. Destruída por dentro e exausta de remar, remar e remar e cada vez afundar mais. Eu queria um tempo. Mas não existia esse tempo. Até que por uma vontade do destino ou da crise, como quiseres, esse tempo veio de forma abrupta e devastadora.
Em outras épocas, eu estaria chorando. Pensando que meu mundo havia acabado. Que me jogar da janela seria a única alternativa. Talvez estivesse em total depressão. Mas dessa vez não. Talvez seja a maturidade, ou talvez seja todo o estresse e responsabilidade da vida profissional dos últimos tempo, não sei. Mas o fato é que estou, de certa forma, feliz. E muito. E, as vezes, consigo por alguns segundos até rir de estar desempregada. Ironias da vida.
Nas últimas férias em família que tiramos, dos 20 dias, 18 deles eu passei trabalhando. A distância. Grudada no celular, utilizando o bloco de notas pra redigir matérias, textos, respostas a imprensa. Resolvendo todos os problemas da humanidade, que insistiram em acontecer nos únicos 20 dias que me permite viajar.  Em um dos dias, a gente na praia. Meu marido tomando uma caipirinha, Pedro brincando com baldinhos e areia enquanto comia um pastel de queijo e eu? Eu grudada ao celular. Respondendo demandas por whatsapp. Naquele dia eu me dei conta que não queria viver assim pra sempre. Eu tinha sonhos? Onde eles pararam? Eu tinha vontades, eu vivia, eu era feliz. Onde estava esse meu eu? Com certeza, ali na praia, naquele momento, que ele deveria estar mais presente que o meu eu profissional, ele não estava. Aquilo não era vida.
Eu sobrevivia na selva de pedras do asfalto, sendo inundada por todas as coisas que eu queria ter e esquecia quem eu queria ser. Eu não conseguia enxergar o céu. Não conseguia respirar. Estava sufocada em trabalho. Claro, ele me dava dinheiro. E não é isso que gente adulta faz? Ganha dinheiro? Pra gastar dinheiro. Foi nesse dia na praia que eu descobri que eu não queria mais dinheiro. Eu queria ser, queria realizar. Queria me encontrar. Então acredito, que esse dia na praia, tenha sido fundamental para, hoje, eu não estar descabelada, deprimida e desesperada pelo desemprego que bateu a porta. Pois foi nesse dia que eu decidi que eu iria mudar de vida. Só estava esperando o momento para fazer isso. Só que nem sempre a gente consegue planejar, exatamente como será e ai o cosmos conspira ao seu favor (ou não) e da aquele empurrãozinho que você precisa.
Sabe aquela história de quando se fecha uma porta, sempre se abre uma janela? Pois é. Se a janela não abrir por vontade própria a gente arromba. Mete a cara pra fora e começa uma nova história.  E tem que ser desse jeito pra depois a gente não se arrepender do que realmente queria ser. Então eu decidi mudar de vida. Aquele dia na praia. E agora estou sendo o que eu quero ser. E fazendo o que eu quero fazer. Cuidando de mim. Me permitindo viver. Criando uma nova rotina, como novos hábitos. Mais saudáveis. Mais felizes.
Pode parecer babaca, mas agora eu medito. Treino todos os dias.  Faço refeições na hora certa. Eu almoço todos os dias. No último ano eu conto nos dedos as vezes que eu almocei, na hora certa e comi comida de verdade. Eu almoço, gente! E to achando isso o máximo. Resolvi cuidar de mim. Da mente ao corpo. Eu tenho rezado mais também. Agradecido mais que pedido. Claro, que a gente sempre pede algo. Mas tenho agradecido bastante. Eu tenho tempo de brincar com meu filho. E ele está mais calmo. Dorme melhor. Está até mais carinhoso e atencioso. Na minha nova rotina, ele me acompanha. Brinca comigo, ajuda a arrumar as coisas e da aquele tom colorido ao dia-a-dia. Eu voltei a escrever. A transformar sentimentos em palavras, a colocar para fora o que está aqui dentro. A colocar em prática meus projetos.  E vou parar de fumar. Estou me tornando uma pessoa melhor. Estou sendo ao invés de estar tendo.
Sei que vou ralar muito, correr atrás do que realmente quero. Tentar achar um lugar ao sol. Buscar novos horizontes. Sei que vou precisar de tempo e de espaço e que vai ter momentos em que vou me desesperar porque as coisas não andam como eu gostaria ou com a velocidade que eu necessito. Mas lembra? Se a janela não abrir a gente arromba? Então vou arrombar as janelas se for preciso e vou gritar aos quatro cantos, para que se espalhe com o vento que eu quero ser feliz!

Não abandone seus sonhos – Carta para mim

A carta que eu queria enviar para mim mesma quando eu fiz 15 anos

Hey novinha,

Não se afobe. Você tem a vida toda pela frente. Sabe esse seu namorado atual? Você irá terminar com ele. Seu mundo vai desabar e você achará que irá morrer de tanta dor e de tanto chorar. Você vai passar algum tempo remoendo todas as cenas de amor e as brigas e se perguntando porque sua vida é tão horrível, porque você é tão infeliz e o que você fez para merecer viver sem ele. Então um dia, isso passará. E uns dez anos depois você ainda irá lembrar dele. E não vai mais doer. Não vai mais pensar nas coisas ruins,  as lembranças serão divertidas e dos momentos bons. E só.
Então você terá outro namorado. E outro. E mais outro. E mais várias paixonites. Vários amores platônicos. Vários amores não correspondidos e alguns casos de uma noite (ou um dia) que serão os melhores da sua vida. Até que você vai conhecer ele. E não vai ser assim, aquelas coisas de filme. Vai ser normal. Vai ser tranquilo. Vocês vão brigar, se acertar e brigar de novo. Você vai chorar algumas vezes de raiva, outras de tristeza e mais algumas vezes por achar que ele não te entende. Você vai pensar em terminar.
Mas um dia simplesmente você vai descobrir que a única coisa que lhe acalma é deitar no peito dele. O único lugar seguro é entre os braços dele e tudo aquilo que um dia lhe falaram sobre amor não fará o menor sentido e ao mesmo tempo terá todo nexo. Um dia vocês vão casar, ou morar junto, ou simplesmente seguir namorando pelo resto da vida. Não importa a forma que vocês escolham. Mas será você e ele para sempre. E um dia o para sempre pode acabar, ou não. Tanto faz, porque você já aprendeu que a vida é assim e que sempre existe a possibilidade de novos amores.
Enquanto isso ocorre na sua vida amorosa, muitas outras coisas acontecem no seu mundo. Que podem não parecer importantes agora, mas que daqui há 20 anos você pensará e se arrependerá de não ter dado prioridade. Por que? Porque a vida de gente grande não é conto de fadas, não se vive só de amor e todo mês a gente tem que ralar pra pagar as contas. Porque depois que você encontrou ele, você teve filhos. E filho da gasto. Da alegria e muitas. Mas da gasto também.
O seu cabelo que está comprido, liso e virgem hoje? Você surtará algumas vezes na vida e vai pegar uma tesoura sozinha e corta-lo. Bem curto. Igual de joãozinho.  Eles vão crescer novamente. Você irá pintar de tantas cores diferentes, que talvez nem se lembre a cor dele de verdade. E não tem problema, é só cabelo. E não é só o cabelo. É o corpo, o tipo de roupa que você usa, as manias que tem. A gente só vai aprender a se maquiar depois dos 35 e nunca, mas nunca, vai aprender a andar de salto. Mas não te preocupa. Isso não fará diferença. Não pra gente hoje. Concentra no que importa.
Então lembra daquele sonho? Lembra aquilo que você queria muito ser, fazer? Não desista dele. Mesmo que todas as pessoas te digam ao contrário, corre atrás dele. Vai viver, vai descobrir como conquistar. Porque pode certeza, que se você fizer isso ai no passado, quando você chegar aqui no presente, você estará realizada e sua vida terá tomado outros rumos. Não vai ser fácil, eu sei. Com todo mundo te dizendo o contrário. As pessoas dizendo que isso não da dinheiro, que você precisa ser médica ou advogada, que isso sim que da grana. Mas o seu sonho é mais importante. O seu sonho vai te dar grana e vai te dar prazer, tesão em fazer algo que realmente te faz bem.
Sabe o que é mais engraçado? Depois de deixar seu sonho de lado e correr atrás de ter carro, casa e coisas, com os empregos que dão grana, você vai descobrir que nada disso te fez feliz e que a maior riqueza que a gente pode ter é ter paz de espírito. É viver do nosso jeito, fazendo o que a gente realmente quer fazer.  Mas aí… Aí já se passaram 20 anos e tantas oportunidades foram deixadas pra trás. Ainda da tempo, eu sei. Mas o tempo já não é mais o mesmo. O seu pique é diferente e ralar agora da muito mais trabalho do que dava quando você deveria ter escutado só o seu coração.
A gente leva tanto tempo para amadurecer e descobrir que no final das contas ser gente grande é só ser gente grande. Que ser adulta não tem graça e nem é de graça. Que a vida não passa de uma mesma rotina que todos os dias se repete e que se a gente não fizer algo por nós mesmos ninguém vai fazer. Então vai menina! Aproveita que você é novinha e vive tudo intensamente e comece agora. Aproveita que estou te mandando esse recado e absorve ele com sabedoria. Porque quando se passarem esses 20 anos que nos separam eu quero estar vivendo essa vida que você sonha ai no passado e quero ser essa pessoa que você queria ser.

No final do arco-íris

Hoje quando acordei estava chovendo mas havia sol. Ao fundo dois arco-íris apontavam para o norte. Eles apontavam o caminho. Tão cedo pela manhã, aqueles dois arco-íris me diziam que havia uma escolha a ser feita. Eu escolhi. Eu escolho ser feliz. Não importa o que esteja acontecendo, não interessa se o mundo desmorona na sua cabeça. Não importa quantas trovoadas  te ensurdecem. Sempre temos uma escolha.  
Na mitologia grega, o arco-íris era considerado um caminho criado pela mensageira Íris ligando a terra ao céu.  Na mitologia chinesa, o arco-íris era um ‘trincado’ no céu selado pela deusa Nûwa usando pedras de diferentes cores. Na mitologia indú, o arco-íris era chamado Indradhanush, significando o arco de Indra, o deus do relâmpago e do trovão. Na mitologia escandinava, o arco-íris era chamado de ponte de Bigröst e liga os reinos de Ásgard (lar dos deuses) e Midgard (terra dos homens). Para os cristãos e judeus o arco-íris é um símbolo da aliança de Deus com os homens na promessa feita a Noé que nunca mais Deus inundaria a terra toda.  E para os irlandeses os leprechaus (ou gnomos) escondem seu pote de outro em lugar secreto no fim do arco-íris (que é impossível alcançar). Por isso dizemos que no final do arco-íris existe um pote de ouro. E quantas vezes em crianças, não tentamos, de alguma forma, descobrir se o pote de ouro realmente estava lá?
Não importa no que você acredita, em qual das crenças e teorias você melhor se enquadra, a questão é que o arco-íris é um caminho, uma ponte, uma ligação que te leva pra felicidade, te leva para a riqueza. Não material mas espiritual. Naqueles dias cinzas, chuvosos, onde timidamente o sol começa a surgir, é o arco-íris que te arranca um sorriso. 
A gente pode até estar num dia cinza, chuvoso e melancólico da nossa vida. Pode parecer que nunca mais o sol vai surgir. Que tudo se perdeu, se acabou. Que a escuridão vai tomar conta para sempre e a vida não terá mais cor.  Mas ai, aí surge uma pontinha de sol, tímido, entre as nuvens mais escuras, e esse raio de luz, se mistura com aquelas tantas lágrimas de chuva e lá está: por alguns poucos segundos o seu arco-íris. Ele está lá para te mostrar um caminho, para que faças uma escolha. Ou a gente olha pra ele e sorri, deixando assim o sol entrar novamente ou a gente finge que não vê. E se fecha no tom cinza do momento. 
Escolha. Escolha ser feliz por aqueles poucos segundos das múltiplas cores. Felicidade não é algo que se encontra e nunca mais se perde. Felicidade é estado de espírito. É momento. É viver aquela situação feliz e depois guardar na memória para relembrar e ser feliz inúmeras outras vezes.  Somos feitos de momentos felizes, de arco-íris passageiros. E quanto mais a gente escolhe o arco-íris, mais a gente vive feliz. 

Só mais uma de amor…

Eu paro, penso, olho e me desespero tentando encontrar uma forma de apagar meus erros e meus deslizes. Não tem como apagar. Não tem como mudar. Apenas mudar. Promessas de nada adiantam se as palavras forem jogadas ao vento. Não quero prometer. Quero fazer. Quero ser. Quero estar. Gosto das frases feitas de efeitos. Mas gosto mais dos gestos de amor. Sutis, talvez imperceptíveis para os de fora, mas grandiosos para os amantes.

Eu tenho tantas coisas para falar que nem sei bem por onde começar. Eu errei feio, eu sei. Tenho esse gênio horroroso e essa teimosia incorrigível de não aceitar mudanças em mim mesma. Muitas vezes você tem tanta razão que fico brava por isso procurando motivos para brigar simplesmente porque quero tua atenção! Juro que não faço por mal e demorei muito a me dar conta disso. Espero que não tenha demorado a ponto de perder o trem para sempre. 
A verdade é que a vida não é um conto de fadas. E as coisas não saem bem como pensamos e muitas vezes paramos de olhar as coisas boas só prestando atenção nas ruins. Mas isso porque temos essa tendência desprezível do ser humano de sermos pessimistas. Porque a verdade é que somos felizes com as pequenas coisas. Nos amamos e só precisamos nos encontrar de novo. Todo mundo passa por fazes e adaptações e nos não somos diferentes. Nem eu nem você. Precisamos nos preparar e aceitar as diferenças. As coisas que saíram fora do contexto e enxergar as coisas boas que apareceram no caminho. Não foram só pedras. Existiram muitas flores e é para elas que devemos olhar e sempre lembrarmos para cultivar em nosso jardim.
Lembra? Certeza de que será com você e sempre será com você. Não importa quantas brigas, quantas mudanças, enchentes ou tempestades! Será sempre e para sempre você. Nossos planos são em conjunto. Nossa vida é uma só. Nossas conquistas são em dupla. Causa inveja a quem não tem e não consegue. Ciúmes em quem é só. E raiva em quem não sabe amar. 
Mas no fundo todo mundo quer um chinelo velho para seu pé torto. Nos encontramos o nosso e não é qualquer unha encravada que vai fazer a gente por o chinelo no lixo. Principalmente porque aquele é o sapato que melhor encaixa. O calçado que menos aperta e que nos faz sentir de pés descalços. 
Eu não desisti de nada e muitas vezes me perco tentando recomeçar. Preciso da tua ajuda. Preciso do teu norte. Preciso do teu peito para me aconchegar. Dos teus beijos para me manter viva. Do teu corpo para me esquentar e do teu amor para me sentir mulher. Eu preciso porque quero e sei que tu também queres. Não existe amor que acabe do dia para a noite. Ele até pode esfriar, mas basta o reencontro. No momento em que os olhos se cruzarem, as bocas se encostarem, as mãos se encontrarem e os corpos se unirem o fogo se acende. Nada fica igual, E nada fica diferente. Tudo vira uma coisa só. Cicatrizes se transformam. E na orquestra magnífica da vida a harmonia surge nos mostrando que o amanha sempre será melhor.

Escolho o amor

Repasso em minha memória minha trajetória. Penso em todos os momentos vividos e busco entender onde me encontro. Qual foi a parte da história que adormeci e não vi acontecer? Onde deixei de ser a personagem principal para virar coadjuvante? Não me lembro, não me recordo. Em algum momento entrei no piloto automático e esqueci de viver. De reagir. De lutar. Puxo pelas velhas lembranças e nada me vem a mente. Parece que vive em transe nos últimos tempos. No lugar das memórias existe um vazio gigante. No lugar das boas recordações um borrão em preto e branco que deturpa o seus significados. 

Não sei o que me despertou deste estado de coma induzido lúcido. Talvez as lágrimas sem significado ou os tapas recebidos. Talvez até tenha sido, aquele sonho não realizado.  Talvez apenas fosse o momento. Uma vez, alguém me falou que apenas 10% do que acontece com a gente é responsabilidade de outra pessoa. Os outros 90% é como nós reagimos a esse 10%. Eu não reagi da melhor forma. Me deixei levar, me deixei abater, nunca divide as culpas, os erros. Só as glórias. Me vi sozinha. Estava sozinha. Sozinha e rodeada de uma multidão vazia. E hoje? Hoje tento reagir. Me reerguer, mentalizar coisas boas e afastar os maus pensamentos. Hoje. 
Em meu novo universo não existe erro que não possa ser perdoado. Não existe lugar pra mágoa, pro rancor, pra vingança. Existe apenas o espaço para acreditar que o mundo da voltas, e um dia, outros estarão em meu lugar. E não porque desejo isso, mas porque a história é cíclica. Porque por mais que a gente se sinta derrotado “não existe mal que sempre dure e nem bem que nunca acabe”. Lembre-se 90% é como você reage. Se eu reagir com amor, o universo me devolverá amor. Se eu reagir com rancor o universo me devolverá rancor. Se eu reagir com inércia o universo me devolverá inércia. Então eu escolho reagir. Escolho reagir com amor, com alegria e com paz, porque a inércia eu já abandonei. E a mágoa e o rancor não fazem parte da minha história. 
Das pedras do caminho eu faço a escada. Das lágrimas que rolam eu limpo a alma. Dos sorrisos que eu encontro eu me alimento. Das palavras de consolo faço minha oração e vou vivendo. Pedindo sabedoria e humildade para seguir o meu caminho, cumprir as minhas missões e lutar as minhas guerras. Implorando por um lampejo de esperança e agradecendo pela dádiva de ter acordado pro mundo. 

Quanto estão lhe pagando para desistir dos seus sonhos?

Quanto estão lhe pagando para você desistir dos seus sonhos? A pergunta do filme Amor sem Escalas tem rodando minha mente nos últimos dias. No filme, George Clooney ganha a vida demitindo pessoas e em um determinado momento, quando está demitindo um funcionário ele questiona “quanto estão lhe pagando para você desistir dos seus sonhos?”

E eu me pergunto: quanto estão me pagando para eu desistir dos meus? Eu queria ser escritora, queria viver produzindo colunas, livros, novelas. Sonhava em ver uma história minha virar filme. Eu queria dar aulas na universidade, conviver com jovens, poder trocar experiências sobre o jornalismo e mudar o mundo. Quanto estão me pagando para eu desistir dos meus sonhos?
Me pagam bem. Eu diria que melhor do que eu imaginava. Mas não o proporcional as horas mal dormidas, ao stress, a falta de descanso ou a falta de paz. Viramos escravos do trabalho com a desculpa de que ganhamos bem e fazemos o que gostamos. Fazemos realmente o que gostamos? Porque o lugar que ocupo hoje, profissionalmente, nada tem a ver com os sonhos que eu abandonei.
Na relação entre o que você quer ser quando crescer e você cresceu e tem que pagar o aluguel, o aluguel sempre vence. E sem nos darmos conta, antes do sonho, pagamos o aluguel, a prestação do carro, a faculdade, a conta de água, luz, telefone, internet e o sonho vai ficando cada mais longe, distante, se perdendo em um abismo gigante chamado realidade. E quanto mais pagamos, mais queremos, mais consumimos, mais trabalhamos, mais longe ficamos daquilo que realmente a gente queria. Passamos a galopar na velocidade da luz em busca de mais e esquecemos porque estamos galopando. 
Eu queria voltar a escrever. Penso nisso todos os dias da minha vida. Na hora de dormir ideias borbulham na minha cabeça, mas me lembro que no dia seguinte tem alguma reunião, algum problema esperando e as ideias se desmancham. E a vontade de fazer o que eu realmente queria da lugar a necessidade de pagar a prestação da casa no final do mês. Mas meu sonho, segue ali, esperando a sua vez de ter asas esperando sua chance de aparecer na minha rotina, de se tornar parte de mim. E eu vou dormir pensando nele e nas contas no final do mês.

Das perdas que a gente tem na vida…

A primeira vez que me lembro de perder alguém foi com sete anos. Era pequena e não entendia ao certo o que havia acontecido. Estava tudo bem, eu brincava em casa. Minha mãe conversava com uma amiga na sala.  Tocou o telefone eu fingi que era secretária eletrônica e do outro lado da linha minha tia falou “chama a tua mãe”. Sem rir da minha brincadeira ou falar comigo. Percebi que era sério ao ouvir as reações da minha mãe. Alguma coisa tinha acontecido com meu padrinho. Algo sério mas ela não me falava o que. 

Em seguida chegou o meu pai de carro. Sai com ele para irmos ao aeroporto tentar encontrar minha tia que vinha com meu padrinho da praia. Era algo sério demais, pra vir de avião da praia… Mas ninguém me falava nada. Voltamos pra casa da minha mãe. Chegou minha tia, meu tio e minha prima do interior. Minha prima ficou comigo e com a minha mãe em casa. E meus tios saíram pro hospital pra ver meu padrinho. Minha prima chorava demais. Não estava acostumada a ficar sem os pais. Meu tio voltou e dormiu com ela. E eu dormi com minha mãe. 
No meio da noite eu acordei pra fazer xixi e meu padrinho estava no corredor. Ele me disse que estava bem e eu voltei a dormir. No outro dia pela manhã, quando acordei falei pra minha mãe que ele estava bem. Contei do nosso encontro no corredor. E ela me contou que ele havia morrido. Mas eu não fui ao velório. Eu fui passear com meu tio e minha prima e nos entupimos de doces e brinquedos. O dia foi muito divertido. Mas eu nunca dei adeus ao Dado. E última foto que eu tirei com ele foi no meu aniversário. E eu estava emburrada porque eu estava brincando e a minha mãe me fez parar pra tirar aquela foto. E ele estava lá com o maior sorriso do mundo. Sendo o melhor padrinho que eu podia ter. E eu nunca dei adeus a ele. 
Depois eu perdi outras pessoas. Um tio, a  única avó que eu conheci, outro tio. Até que chegou o dia de dizer adeus pro meu pai. Eu já tinha 24 anos. Já entendia melhor o significado da morte. Eu pude me despedir. Mas mesmo assim doeu. Mesmo tendo passado os dez anos anteriores me preparando para o dia em que ele morreria. Mesmo ele tendo contrariado todas as expectativas médicas. Eu não estava preparada. Apesar de sabermos que esse dia um dia chegaria, eu não pensava e nem podia imaginar que ele iria nos deixar. Mas esse dia chegou. E ele partiu, tranquilamente, deitado em sua cama, talvez do jeito que ele quiz, podendo ter fumado um cigarro antes de ir se encontrar com os seus lá em cima. 
Agora eu perdi de novo. Perdi um segundo pai. O meu pai preto, pai de criação, o meu nenei ou o Neiiiii, como todo mundo ouvia eu chamar. Eu não conheço a minha história sem ele. Desde que me lembro de mim como gente, das minhas primeiras e mais remotas lembranças de infância ele estava lá. Fazendo as minhas vontades. Batata frita quando eu me recusava a comer outra coisa. Raviollis de queijo para comemorar os meus aniversários. Me cuidado na piscina, me levando pra natação. Me levando em festas. Me buscando em festas. Me levando pra almoçar na minha vó. Recebendo os meus amigos. Dando palpite na minha vida, nos meus namorados. Me dando bronca por eu ser bagunceira. Arrumando meu quarto e escondendo todas as minhas coisas. Brigando comigo por eu andar pelada dentro de casa. Me mimando. E depois mimando a Eduarda e o Pedro Henrique. 
A gente brigou tantas vezes. A gente riu tantas vezes. A gente chorou um bocado juntos. Desde que deixei de morar em Porto Alegre cada vez que chegávamos era uma festa. Os olhos dele brilhavam. E quando eu  inventava de fazer surpresas ele era o meu cúmplice. Ele sempre foi. Até uma vez quando resolvi colocar uma barata dentro do ovo de chocolate de uma vizinha que eu não gostava ele foi meu cúmplice. Ele não tinha maldade. Era uma criança grande que ficava brincando de me dar sustinhos. Mesmo quando eu já tinha crescido e não achava mais graça. 
E na hora de levar a bronca da minha mãe ele me defendia. Me protegia. Ele me defendia de tudo e de todos. Eu sempre era a certa. Eu sempre era a melhor. Eu sempre era a mais bonita. E ele sempre foi o meu herói. 
Ele virou meu parceiro. Ia pras festas junto. Comprava vinho doce só porque eu gostava. Se tinha algo que deixava ele feliz era fazer a gente feliz. Mesmo quando ele estava ranzinza, reclamando da vida. Ainda assim ele fazia a gente feliz com uma nova invenção na hora do lanche ou com um almoço que a gente nunca esquecia e ele nunca mais fazia igual e fingia não lembrar da comida que a gente falava. 
Ele passou a vida dele conosco. Nos dedicou seus melhores anos. Nos amou. Nos aconselhou. Nos protegeu e principalmente fez a gente mais feliz. Ele era leal. Com quem eu vou ficar conversando na cozinha da minha mãe agora? Fumando um cigarro e perguntando o que eu devo fazer? Quem vai me dizer que os sapatos não combinam? Quem vai mandar eu trocar de roupa? Quem vai fazer o meu prato favorito? Quem vai me dizer como assa um peru ou como faz tal prato? Vai ser difícil, Nei. Vai ser difícil voltar pra casa e não te encontrar lá. Vai doer não dividir contigo tantas coisas que ainda vão acontecer nas nossas vidas. Mas eu entendo que era a tua hora e depois de tantos anos de amor, lealdade e gratidão seria injusto da minha parte não pensar que tu merece esse descanso. 
Fica bem que eu também vou ficar. Mas por enquanto ta foda. 

Parar e Respirar

Tem momentos na vida que só o que a gente precisa é parar e respirar. Respirar um ar puro, encher os pulmões de fôlego e a mente de cheiro de terra molhada. Ficar sem fazer absolutamente nada, deitada em um confortável sofá, com a luz desligada, ouvindo apenas o barulho da chuva. Sem pensar, sem dormir, sem sorrir ou se mexer. Apenas você e o nada.

Às vezes tenho a sensação, quando o dia acaba, que eu não fiz nada. Mesmo fazendo um milhão de coisas. Porque no fundo eu não fiz nada que me desse um momento de prazer. Tudo foi tão mecânico e orquestrado pela rotina que eu não sorri, pensei ou refleti. Apenas agi no modo automático. Não respirei um segundo se quer. Não ouvi a chuva, o vento ou os passarinhos. E mais um dia se passou e nada eu fiz. 
Eu só preciso parar e respirar. Colocar a bagunça em ordem e redescobrir o que me dá prazer nos pequenos segundos que temos pra sorrir. Eu só preciso ouvir a chuva, aspirar seu sentimentos e encontrar o tesão necessário pra continuar. Ou pra começar. Pra me reinventar…  mais um vez. 

Sobre copinhos e a modernidade primitiva

Um dia, se tiver netas, conversarei com elas sobre menstruação.  Teremos longos papos sobre TPM, sanguinhos, cólicas e choros. Contarei a elas sobre a ansiedade de esperar para “virar mocinha” e a tristeza de descobrir que aquilo aconteceria na minha vida milhares de vezes, uma vez por mês.

Provavelmente conversaremos sobre o assunto mais de uma vez. Em idades diferentes, com amadurecimentos, perspectivas e entendimentos diferentes. Algumas vezes deverei lhes contas casos engraçados, vergonhas e constrangimentos passados durante “aqueles dias”. Lhes falarei da minha primeira vez e de como minha mãe informou a toda família, nas escadaria de uma igreja, depois da missa de sétimo dia de uma tia do meu pai.  (É mãe, isso não foi legal!)
Vou contar para elas sobre os absorventes, que nem eram absorventes na minha primeira menstruação e sim “modess” que nem aba tinham. Contarei de como eles incomodavam e como sentíamos o mundo inteiro nos olhando por usa-los. Falarei da evolução. De como eles ficaram mais finos, cheirosos, menos agressivos e ganharam abas aderentes as calcinhas. Talvez lhes conte também sobre absorventes internos e sobre todas as minhas amigas que esqueceram de puxar a tal cordinha e depois entravam em desespero para tirar. Possivelmente, minhas netas ficarão imaginando como eram esses métodos estranhos, assim como eu imaginava as “toalhinhas” usadas pelas minhas avós.
Elas serão da geração do copinho. Ou do coletor menstrual, se preferir. Uma geração que achará bizarra a ideia de absorventes. Que terá um certo nojinho de usar algo que causa alergia, mal cheiro, faz sujeira, corre o risco de vazar e ainda agride a natureza. Tanto a feminina como o meio ambiente.  Não entenderão as nossas escolhas e vão se perguntar porque não aderimos o coletor menstrual antes.
Desde que aderi o copinho me pergunto isso todas as vezes que utilizo. Porque uma ideia tão simples, perfeita e primitiva levou tanto tempo para nos ser apresentada. Passamos anos sofrendo com alergias, vazamentos e desconfortos. Utilizando quilos de algodão, causando infecções em nossos próprios corpos, quando já haviam pensado na solução. Somos a geração dos descartáveis. Daqueles que pensam que nunca nada no mundo acabará. Que podemos consumir sem pensar. Absorventes são um exemplo disso. 
Sofremos pela nossa modernidade liquida, volúvel e descartável. Sofremos por acharmos que o mundo era assim mesmo e produzir lixo é nossa única saída (uma mulher de 35 anos que menstruou aos 12 e tem um ciclo de 4 dias, gastou, em média, 5500 absorventes na vida ou mais…). Ou consumíamos absorventes ou passaríamos manchadas e virando motivo de piadas (afinal, uma coisa biológica e natural ainda é motivo de vergonha e de piadas).

Até que um dia, em meio a tantas tecnologias, pílulas e absorventes de tamanhos, espessuras e cheiros diferentes, surge o coletor menstrual, se espalhando pelo mundo. Uma ideia tão simples que chega a ser primitiva e nos faz refletir sobre como nos falta simplicidade  na vida.

Uma angústia dentro de mim

Tem um angústia apertando meu peito. Não sei definir o que é. Mas sinto ela lá. Uma vontade de deixa-la transbordar pelos olhos, de mergulhar em sua dor e de deixar me sufocar. Ando passando noites em claro, tendo entender de onde ela vem e pra onde irá me levar. Um aperto no peito, uma dor na boca do estômago, um não sei o que. Um desanimo passageiro ou um eterno silêncio.
Outro dia uma mulher se matou. As pessoas que a conheceram ficaram chocadas. Comentavam que ela era uma pessoa forte, daquelas que lutava, tomava a iniciativa, colocava a cara a tapa. Colocou um bandido que invadiu a sua casa com uma faca pra correr e no outro dia foi trabalhar toda retalhada. E eu com meus botões fiquei pensando: Ela usava uma armadura. Todas as pessoas extremamente fortes que conheci na vida são assim. Poucos acabam realmente as conhecendo bem e descobrindo que por traz de tanta bravura existe um bichinho acuado demais e muito sensível que só é forte pra se proteger.
Eu não sou diferente de nenhuma dessas pessoas. Posso estar sempre com um sorriso no rosto, pronta pra dar a cara a tapa, levantando o astral dos outros, matando um leão por dia. Mas no fundo eu estou acuada. Estou assustada. Preciso vestir a minha armadura pra enfrentar o dia-a-dia. O sorriso, é a minha arma pra que ninguém saiba o que eu realmente sinto.
Quantas vezes você já parou pra se olhar no espelho? Não olhar o look, penteado ou alguma espinha que insistiu em aparecer bem no meio do seu rosto. Olhar e ver no espelho o que os outros enxergam quando olham para você? Pare e veja a imagem que você reflete. Depois, escute o que o seu coração fala. Se você achar que ambos não combinam, bem vindo ao meu mundo. 
A gente vive nesse mundo com tanto medo dos outros e de si. Dos julgamentos e comentários que se esquece que o único comentário que importa é o seu. O único julgamento que tem sentido é o da sua alma. Porque de resto, são apenas pessoas, acuadas como você tentando dar algum sentindo pra sua vida. 
Tem uma angústia apertando meu peito. Ela transborda pelos meus olhos e encontra eco em meus soluços. Ela me trava, me tira o sono e me faz dormir profundamente. Essa angústia não tem nome, não tem cheiro, cor ou melodia. Apenas aperta o peito e transborda nos olhos.