Entenda

Entenda. Eu não faço por mal. É que essa angústia que embarga a minha voz, esses pensamentos que imundam meus olhos, essas dúvidas que apertam o meu peito e esse medo que sufoca a minha alma, precisam sair. E eles saem em forma de verso, formatados no choro e configurados na dor.

Não é sempre que eles transbordam. Mas quando acontece é preciso uma porção de paciência, uma pitada de carinho, um quê de respeito e uma enxurrada de amor. Só desse jeito a vazante da alma amança e no teu peito se transforma em calma. 
Entenda. Eu sou assim. Tenho essa necessidade exagerada de falar. De abrir as feridas ainda não cicatrizadas, de remoer velhas histórias, ouvir infinitas vezes a mesma melodia cansada que na minha voz soam mais desafinadas.
E quando a melodia se transforma em lamúria, eu não faço por mal. É só a tua voz dar o contraponto que tudo se transforma em poesia. E a canção se torna em serenata.
Eu só preciso de um tempo. Pra entender, pra aceitar e me resignar de que a vida da voltas e a nuvem pesada de dor e decepção de hoje se dissipará amanhã e é no teu peito que o sol aparecerá 

Perfeito

Pra ser perfeito

Tinha que ser imperfeito
Daquele outro jeito 
Que só você sabe fazer
Pra ser perfeito
Precisava de um quê de maldade
Um tempero de saudade
Uma verdade que só você tem
Pra ser perfeito
Não tinha outro jeito
Se não com o molejo
Que só você sabe ter
Pra ser perfeito 
Era preciso respeito
Um singelo defeito
Que só você tem
Pra ser perfeito 
Era preciso de novo
Deitar no teu corpo 
E ser perfeito outra vez…

Eu ando com saudades de casa

Eu ando com saudades de casa. Saudades da minha mãe e até da minha sogra. Ando com uma vontade doida de sentir o cheiro do Sul. Das lareiras acessas, do vinho tinto e de um bom churrasco.

Nunca pensei que diria isso mas até do frio e de botas de cano longo  eu sinto falta.

Eu sinto falta dos amigos. E me perdoem os novos amigos, mas aqueles de lá tem uma longa história comigo. 
Talvez seja apenas uma melancolia passageira. Ou poderia ser uma repentina falta de colo. Quem sabe não é só uma virose do tipo lenta. Mas eu sinto saudades de casa. 
Sinto falta da cidade baixa, do sotaque carregado e de poder pedir cacetinho, ceva e pagar tudo com pilas. Sinto falta do amigo punk, do sol do inverno e até dos dias cinzas. Sinto falta da vida do interior. E quem diria que um dia eu diria isso? 
Sinto falta de casa. Mesmo estando na minha casa. E não é engraçado esse paralelo complexo sentimento de dualidade? Conquistamos tanto fora de casa, na nossa nova casa, e ao mesmo tempo trocaríamos tudo para estar de volta naquela casa, que sempre será a nossa casa.
Eu ando com saudades de casa. E de tudo que guardo na lembrança como referência ao que sou e de minhas raízes. Eu ando com saudades de casa. Da minha mãe e até da minha sogra. Eu ando com saudades de mim e de tudo que faz parte da minha historia.

Sou mãe, mas…

Sou mãe, mas sou uma pessoa também. Sou mãe, mas sou uma mulher também. Sou mãe, mas tenho uma profissão também. Sou mãe, mas sou amiga também. Sou mãe, mas sou vaidosa também. Sou mãe, mas tenho TPM também. Sou mãe, mas não sou perfeita. Sou mãe, mas também erro. Sou mãe, mas…

A vida é cheia de mas… E a maternidade não seria diferente. Quem nunca ficou tão cansada que não teve vontade de fazer absolutamente nada? Quem nunca fingiu uma dor de barriga para ficar apenas 5 minutos trancada no banheiro olhando o teto.? Quem nunca ficou irritada com uma bobagem ou arte do filho e deu um grito? Quem nunca teve um acesso de choro repentino e sem motivo, só porque o bebê acordou de novo?

Queria entender da onde tiraram a teoria que mães são seres com super poderes e sem vida própria. Sem vontades ou desvontades. Queria saber quem foi o idiota que idolatrou tanto a mãe a ponto de nos deixar com um peso extra nas costas. Sim, porque além do peso da barriga durante os 9 meses e o peso de criar e educar uma pessoa pelo resto da vida nos ombro, ainda deu-nos o peso da perfeição.

Mães são perfeitas sim. Aos olhos dos filhos. Mas são seres cheios de pequenas e deliciosas imperfeições que a fazem única e singular. Mãe não é tudo igual. Mãe difere em um monte de coisas e cada diferença deve ser respeitada. Por isso o que serve para mim, pode não servir para você. E vice versa. E não tem como julgar quem está certa ou errada.

Mãe de comercial de margarina não tem graça nenhuma. Agora aquela mãe da vida real, essa sim, nunca será esquecida. E eu clamo por um mundo onde a mãe possa ser pessoa de carne e osso, sendo ela mesma e vivendo do jeito que quer, fazendo suas escolhas e permitindo-se ser feliz apesar de ser mãe!

Cansaço

Tem dias que bate um cansaço que não tem limites. Não é só cansaço físico, é cansaço mental. Um cansaço materno, um cansaço profissional, um cansaço matrimonial, um cansaço doméstico. Quem trabalha em home office, sabe que além de cuidar da casa, do marido e dos filhos ainda se tem que cumprir as funções profissionais e cuidar de si mesma. E normalmente o cuidar da gente é que fica de lado.

Sabe aquele sonho de ver aquele filminho?! Ou então ter tempo para arrumar as unhas, para dar um trato no cabelo ou até mesmo ir naquele médico que tem que olhar os exames que tu fez no ano passado?! Fica sempre em segundo plano. A primeira atenção sempre é dos filhos, atender as necessidades dele. a segunda prioridade sempre é o marido (porque mulher é um bicho burro) e obviamente a terceira prioridade é a sua vida profissional (afinal alguém tem que pagar as contas). Mas a gente também te que dar conta da casa, da louça, da vassoura, da roupa, do banheiro. de arrumar tudo (que os outros tiraram) no lugar.

E a gente?! A gente é quando der tempo. Dormir?! Só o mínimo necessário. Comer, quando da tempo e de preferência algo rápido que não suje a louça (se não você tem trabalho dobrado). E parece, que a vida vai passando, todo se dando bem e você ali, acabada, esgotada e sem ninguém te dar o valor devido.

E a coisa pode agravar se: você tem mania de limpeza e organização, se você já cansou de pedir ajuda e nem fala mais porque até isso cansa, se você está tão cansada que nem sabe se quer continuar no mesmo caminho.

Não são os filhos, não é o marido, não é a casa ou seu trabalho. A questão é você! Você saber lidar com as frustrações do dia. Saber que nem tudo que vou planejado da certo ou da tempo de fazer naquele dia. Saber que nem todo mundo valoriza acordos e combinações (principalmente o marido e os filhos) como você. Saber que você precisa sim de um tempo para fazer o que quer ou simplesmente não fazer nada. E saber se organizar para isso! 

A gente precisa sim de um tempo só nosso! Para fazer o que quiser e principalmente se cuidar. Cuidar do corpo, da alma e da saúde! Esquecer de todas as obrigações e relaxar. Ninguém aguenta o tranco 24 horas por dia e esse cansaço todo só se acumula e uma hora se volta contra a gente.

E eu vejo por ai mães toda hora reclamando desse cansaço. Vejo também que não tem jeito, ninguém tem uma fórmula mágica e cada uma tem que lidar com seus cansaços da forma como pode e da. E o que me consola é que não sou eu. Não estou sozinha. Estou no mesmo barco de milhares de mães, esposas, profissionais e donas de casa. Então se você também está nesse barco, saiba você não está sozinha.

O Pai



Um dia eu conheci um guri, um piá, para ser mais sincera. Daqueles que jamais passariam da sala de estar, se é que me entendem. Para mim, pai e qualquer pensamento ou reflexão ligada ao assunto paternidade abria na minha caixinha de memórias um arquivo chamado Bimbo Aranha (meu pai).
Nunca pensei naquele piá como pai. Nem pensava que ele passaria da sala de estar. Mas de alguma forma ele burlou a segurança e avançou em direção a sala íntima. Nessa sala, ele conheceu uma garotinha, em pleno gozo de seus oito anos, mimada e cheia de ciúmes da mãe (essa que vos fala).
O piá e a garotinha começaram a criar um sólido relacionamento, baseado em desenhos japoneses que viam e compartilhavam até altas horas da madrugada. A mãe, achava o piá mais piá ainda e não percebia o quão homem e pai ele se tornava a cada dia da garotinha.
Ele ganhou respeito e um espaço maior. Passou de piá a guri. Podia circular em outro cômodos daquela vida, mas não tinha direito ainda ao quarto. E a garotinha, mesmo se esforçando para manter a fama de má, a cada dia deixava ser um pouco mais conquistada.
O guri tinha que tomar decisões e atitudes que podiam ou não mudar o rumo daquela história e o levariam ou ao quarto ou para fora da casa. Ele cresceu, se tornou homem. Conquistou suas terras, armou-se para uma batalha, foi a guerra e venceu. Conquistou o tão sonhado quarto. E mesmo sem nunca ter sido chamado de pai, agia, como um zeloso, daqueles capazes de matar um leão para defender o seu cordeiro.
E como ele defende… Por mais que as brigas, farpas e fagulhas sejam constantes, nunca, jamais fale mal da sua garotinha. Se ser pai não é isso, então eu não sei o que é. Talvez, seja difícil compreender o que é se tornar pai de repente. Sem a espera, sem os 9 meses necessários para a gestação e o amadurecimento. Ok, foram madrugadas e madrugadas de desenhos. Lições de matemática, brincadeiras e brigas. Tudo para torna-lo o melhor pai que uma garotinha poderia ter.
Tive o privilégio de ver o piá se tornar pai. Tive o privilégio de ver ele se tornar homem, marido, companheiro e amigo.
Aprendemos muitas coisas juntos e também brigamos muito. Tivemos altos e baixos, pensamos em nos separar algumas vezes, nos decepcionamos um com o outro. Mas nunca perdemos a admiração pelo outro.
E de repente, quando a gente não esperava o pai, virou pai ao quadrado. Com direito a acompanhar a descoberta da gravidez, do sexo, o primeiro chute, o primeiro soluço e o nascimento. Vi seus olhos se encherem de lágrimas ao pegar seu filho nos braços. Um amor tão sublime e incondicional para aquele que ele esperou 9 meses para conhecer que não permitia que ele soltasse o bebê no berço.
Foram noites insones. Dias longos distantes, telefonemas com a voz embargada por estar longe. O primeiro sorriso, o orgulho daquele ser tão pequeno ser tão perfeito. A primeira risada, as primeiras engatinhadas. Tanta coisa em 10 meses de uma alegria tão profunda.
Esse não é o primeiro dia dos pais que comemoramos juntos. São 8 anos de dia dos pais que sempre lhe presenteamos, homenageamos e fazemos suas vontades. Mas é o primeiro dia dos pais do Pedro Henrique. E se ele já era o melhor pai do mundo antes agora ele é o melhor pai de todas as galáxias. Desculpem os outros pais, mas quando me falam sobre paternidade a minha caixinha de memórias se abre em um arquivo chamado Paulo Rodrigues.

A descoberta do pinto



Muito antes de pensar em ter um blog sobre maternidade, um dia pesquisando na internet sobre o que fazer com o pinto do meu filho (não me entendam mal, queria saber sobre limpar, a tal massagem pra soltar a pele e tal) acabei caindo num texto fantástico que me arrancou muitas risadas que dizia “ter pinto é muito legal, é como ter um animal de estimação no corpo pelo resto da vida” entre outras frases e micos interessantes sobre ser mãe de menino. O texto estava no blog Conversa de Mãe da querida Fabiana Deziderio, que é uma das melhores blogueiras que já li e que parou de escrever no blog em maio desse ano, mas continua exercendo sua paixão de trabalhar com o universo da maternidade no site Mulher & Mãe. Então, voltando ao assunto do post, o que eu quero falar mesmo, é sobre essa descoberta do pinto que é muito legal.

No dia da ultrassonografia que descobrimos o sexo do PH foi uma festa da vergonha alheia. Ao entrar para o exame, meu marido já saiu falando que a gente só queria saber o sexo do bebê. A médica, disse para ele que iríamos ver, mas antes ela ia dar uma examinada se tudo estava bem. Fez as “vistorias de rotina”, estimativa de altura, peso, tamanho da cabeça e disse “agora vamos ver o sexo”. Marido que estava apostos começou a gritar antes da médica falar: “é um guri, é um guri, olha ali o tamanho do pintão!” a médica mal teve tempo de concordar com ele e ele já saiu pegando celular e ligando para todos os amigos gritando: “avisa ai que meu leite não é fraco, eu falei que era um guri!!! Meu filho tem um pintão!!!” e por aí foi a baixaria. Não preciso dizer que eu morri de vergonha ainda mais quando sai da salinha do exame e todos da clínica ( e quando eu digo todos, eram TODOS mesmo: médicos, pacientes, enfermeiros e secretárias) me davam parabéns pelo guri! Vergonha alheia master!

Não sei qual o significado para alguns homens de terem um filho homem. Mas é algo muito primitivo, animal e muito engraçado. Só sei que daquele em dia em diante, todo o meu universo começou a girar em volta do “pintão” que crescia dentro de mim. Não era mais um bebê e sim um pintão que crescia a cada mês.

Meninos, vem com detectores de fábrica, para sempre que você abrir a fralda, eles levantarem o tico e fazerem xixi em você. Quando começam a rir, então, você tem certeza que eles estão entendendo o que estão fazendo, porque basta te dar aquela mijada para cair na gargalhada. Na hora do banho é fato, comece a jogar uma aguinha quente neles, que pronto, lá vem aquele pintinho se levantando de mansinho e mirando em você ou na toalha!

Todo o bebê descobre a mão e passa horas olhando para ela, analisando e provando seu gosto. Depois eles descobrem o pé e tentam, de todas as formas, mastiga-lo, para ver que sabor tem o chulé. E quando, finalmente, conseguem colocar ele na boca, é como se tivessem conquistado o grande prêmio de fórmula 1 ou a Copa do Mundo. Até ai não importa o sexo dos bebês, todos fazem. Acontece que meninos, depois de fazerem essas duas descobertas, descobrem outra coisa interessante no próprio corpo: o pinto (ou pênis, se preferir o nome correto) e depois dessa descoberta, sempre que estão livres da fralda a mão vai imediatamente para a torneirinha! (Será que isso explica porque homem não consegue tirar a mão do saco???).

É só ter uma chance e a mão já está ali, operando o brinquedinho, manipulando e puxando, puxando e puxando. Chega a dar um nervoso na gente que não tem o instrumento, afinal tantas esticadas podem doer e machucar. Mas parece que não, pois quanto mais ele puxa, mais divertido parece. Na hora do banho, que tem mais tempo então é hora da festa do estica e puxa!

Aqui em casa não realizamos a tal massagem para soltar a fimose. O pediatra do PH disse que não era necessário. Existe uma corrente de pediatras que aconselham desde o início e outra que não. Se mais tarde for necessário, usaremos a pomada e a massagem, mas por enquanto deixa a coisa do jeito que está (até porque parece meio engraçado ficar massageando o pinto do filho, não?)

Ter um filho menino é uma forma de compreender o universo masculino e parafraseando mais uma vez a Fabiana Deziderio “Nessa época eu entendi um pouquinho porque meninos demoram para crescer. Com tanto entretenimento, fica difícil olhar para o resto do mundo…”

O engraçado é que o PH só tem 9 meses, fico me perguntando o que virá pela frente quando ele começar a entender que “meninos tem pênis e meninas tem vagina” (quem nunca viu esse filme???)

Carta para meus filhos lerem no futuro



Meus filhos,

O que posso dizer para vocês? Hoje, enquanto escrevo, olho para vocês e meu coração se enche de alegria. Enquanto o PH brinca, rola de um lado para o outro em seu tapete colorido e ensaia as primeiras engatinhadas, a Duda estuda, fuça o notebook e se prepara para o futuro. Ah, o futuro. Algo tão incerto, tão longe e os mesmo tempo tão próximo. O futuro que atropela o presente e transforma o hoje em ontem rapidamente. Não tenham medo do futuro. Ele é a renovação. Mas também não esqueçam que suas ações no presente é que conduzem para um futuro melhor. E que seu passado é sua bagagem, uma bagagem que deve ser honrada e carregada como um tesouro.



Mais do que para onde vão, de onde vocês vem é que importa. Não esqueçam o quão importante é isso. Lembrem-se sempre dos momentos de amor, dos abraços gostosos, das coisas que passamos juntos. Das brincadeiras que fortaleceram, do gosto da torta de maçã, das casas onde fomos felizes, dos amigos que conquistamos, das dificuldades que enfrentamos. As conversas que tivemos e os “nãos” que muitas vezes eu disse e foram incompreendidos.

Não sei se vocês notaram o quanto o mundo está diferente. Ele muda tão rapidamente quanto vocês crescem. E os conceitos também. As teorias evoluem e cada coisa parece ficar mais independente assim como vocês. Crescidos e trilhando seus próprios caminhos.

Nunca esqueçam as coisas básicas que sempre ensinamos a vocês. Amem os bichos, respeitem os mais velhos. Sorriam para as pessoas e estendam suas mãos a quem precisar. Gentileza nunca é demais e se queremos um futuro melhor, depende de nós começarmos a plantar essa semente. Não importa o que seu amigo diga. Não importa o que os outros fazem, só importa quem você é e como você dorme a noite. Não deixe que ninguém diga que você não é capaz ou não pode. Mas prestem atenção nos conselhos daqueles que lhes querem bem.

Aproveitem tudo que a vida oferece. Amem intensamente, festejem, brinquem, comemorem. Mas não esqueçam que a cautela é sempre amiga dos que prezam a vida. Não esqueçam o cinto de segurança, não esqueçam que quem bebe não dirige e que nunca devemos entrar no carro com alguém que ingeriu alguma bebida alcoólica. Pensem antes de agir, mas de vez em quando ajam por impulso.

Sejam sempre felizes e quando tudo estiver cinza, pensem em meu abraço. No cheiro da torta de maçã e nas cantigas de ninar. A coisa mais reconfortante é saber que sua mãe está ali, na hora que você precisar.

Com amor,

Mamãe

Quando o cansaço invade

Tem dias que o cansaço bate. Quem tem filho pequeno, totalmente dependente, sabe bem disso. Apesar de ninguém quase admitir, mãe é um ser humano e cansa sim. Cansa, se irrita, perde a cabeça e perde a linha e não sabe o que fazer. No universo cor de rosa da maternidade ninguém fala que ser mãe é ultrapassar seus limites, até chegar ao seu extremo e encontrar uma forma de sorrir e deixar tudo de lado. Muitas dizem que basta ver o filhote sorrindo que tudo passa.

Eu não acredito nisso. Ou melhor, para mim isso não funciona. Quando estou no meu extremo limite, nada me faz encontrar a paz de espiríto a não ser dormir. E dormir, também é artigo de luxo na vida de uma mãe. Mesmo no meu caso, que o PH dorme lá pelas 9 da noite até o outro dia pelas 7:30. Primeiro porque a gente nunca dorme ao mesmo tempo que eles. Segundo porque mesmo que ele acorde e tire mais uma sonequinha nosso sono já foi para o espaço e terceiro porque sempre se tem muita coisa para fazer.

Quem é mãe em tempo integral, por opção, vocação ou falta de opção, sabe que além do bebê, tem a casa, a comida, a vida para organizar. E a rotina pesa. E parece que o dia sempre é pequeno para tudo que se deve e quer fazer. Sim, porque tem uma diferença muito grande entre dever fazer e querer fazer. Eu, por exemplo, faço milhares de coisas durante o dia que tenho que fazer para a vida seguir organizada aqui em casa. Acorda cedo, da a mamadeira pro bebê, troca a fralda, coloca ele no berço para mais uma sonequinha, coloca a roupa na “maria” pra ela bater, descasca legumes, coloca para cozinhar, prepara a fruta do bebê (opa! preciso tomar café da manhã), arruma as camas, passa vassoura na casa. O bebê acordou, da a fruta pra ele, brinca com ele, coloca ele para olhar a “Galinha Pintadinha”, faz o almoço pro outro bebê grande, serve o almoço pra todos, da almoço pro bebê, troca a fralda, coloca ele pra tirar uma soneca, arruma a cozinha (opa! esqueci de almoçar). O bebê acordou, troca a fralda, brinca com ele (tem que pendurar a roupa que a “maria” bateu). Da mamadeira pro bebê, coloca ele pra tirar uma soneca, termina de arrumar a casa. recolhe a roupa, bebê acordou. Brinca com ele. Da a janta pra ele, faz janta pra todo mundo, serve a janta, arruma a cozinha (esqueci de jantar novamente), da banho no bebê, mamadeira, conta uma histórinha, coloca ele pra dormir. Ufa! Hora de dormir! Mas e o livro que eu queria ler? E a minha sobrancelha que parece mais uma taturana? E as roupas para passar? E aquele filme que eu queria olhar? “Quem sabe amanhã”, a gente pensa mas parece que o amanhã nunca chega.

E ainda tem gente que diz que é fácil passar o dia todo dentro de casa e não sabe do que a mãe de casa tanto reclama. No meu caso estou em casa por falta de opção, sou jornalista e estou morando numa cidade de 20 mil habitantes onde não consegui emprego. Curto muito ficar com o PH em período integral, já que com a Duda eu precisava estudar e não tinha essa possibilidade. Mas eu queria sim trabalhar fora, queria poder me arrumar todo o dia para trabalhar, vivenciar um outro mundo e voltar para casa cheia de saudades. Admiro muito as mães por vocação, aquelas que se dedicam e se entregam 24 horas para seus rebentos e fazem isso por opção.

A rotina de quem trabalha fora também é absurdamente puxada, afinal, algumas, fazem tudo que eu faço e ainda trabalham fora. Mas o fato de ter aquelas horas em outro universo, que não o da maternidade, pode servir como terapia ocupacional. Ainda mais quando elas trabalham no que gostam.

Mas enfim, voltando ao cansaço e a estar no limite extremo, me questiono o que eu poderia fazer para desopilar (dormir por umas 48 horas seguidas, seria o meu sonho de consumo no momento). A questão é que é preciso muito jogo de cintura para não pirar de vez, não ter um surto e jogar tudo pro alto. É preciso encontrar uma válvula de escape, que não seja o chocolate, se não a gente vira uma bola, e que supra todas as nossas necessidades pessoais. Sim! Mães também tem necessidades pessoais! Aqui em casa, tentei instituir o “dia da mamãe”. Normalmente um domingo, em que quem acorda é o pai e quem deveria fazer tudo o dia todo é o papai. Mas o “dia da mamãe” só funciona até a hora que eu acordo, um pouquinho mais tarde que o costume. 

Estou ainda procurando minha válvula de escape, a terapia ocupaconal, o jeito de entrar no universo cor de rosa e não sair mais de lá. Se alguém tiver alguma sugestão, eu aceito! Por enquanto, sigo no limite, mantendo a rotina do lar e tentando dividir um pouco disso com vocês. É frustrante chegar no final do texto e não achar a receita mágica, mas a verdade é que não existe fada madrinha, receita pronta ou manual de instruções (apesar de que sou da teoria que todo bebê deveria vir acompanhado de um e de botões de liga e desliga) e cada uma de nós precisa achar a sua fórmula de resolver as coisas. Agora deixa eu correr que o bebê acordou!

Amada Helena



Quando Helena nasceu, no dia 31 de janeiro de 2012, um sonho se realizava para Tatiana e Giovane. Ambos na faixa dos 30 anos, juntos há 15 anos, moradores de Morungava, zona rural de Gravataí, cidade que faz parte da Grande Porto Alegre no Rio Grande do Sul. A espera de Helena ocorreu tranquila, uma gestação sem nenhum problema. Mesmo em condições simples de vida, compraram o enxoval, decoraram o quartinho e aguardaram o momento de ter nos braços sua princesa. Fizeram filmagens desde o quarto mês da gravidez. Quando ela nasceu, filmaram e fotografaram tudo. Queriam que quando ela crescesse ela soubesse o quanto foi esperada e amada.Helena nasceu de cesariana. E num primeiro momento foi considerada absolutamente saudável. O sonho da maternidade tinha se concretizado com sua filhinha. Helena e os papais foram para sua casa.

No dia 17 de fevereiro, Helena foi arrancada dos braços de seus pais. Faleceu por não conseguir uma vaga numa UTI Neonatal, realidade muito triste desse nosso Brasil e do Sistema Único de Saúde.





Com dez dias de vida ela foi diagnosticada com um problema no coração. Cardiopatia congênita, o que fazia o sangue entrar e sair rapidamente do seu pequeno coração, havia canais que não haviam se fechado totalmente. Foi medicada e recomendado aos pais que se ela vomitasse toda a mamada ou tivesse dor de barriga procurassem o hospital.

Foi o que aconteceu no dia 17 de fevereiro. Quando chegaram ao hospital Dom João Becker, Helena foi examinada e seria preciso uma cirurgia para resolver a situação. Porém para a cirurgia era necessário uma vaga em uma UTI Neonatal. Só que não havia vagas disponíveis.

Enquanto Tatiana cuidava da sua bebê, Giovane corria desesperadamente contra o tempo para salvar sua filha. Buscou uma liminar na justiça para a compra de um leito (infelizmente algo que acontece mais seguido do que deveria no Brasil), mas quando conseguiram foi tarde demais. Helena já havia falecido.

Não tem como descrever a dor de um casal que perde seu filho. Não existe como abandonar o luto. Helena tinha uma vida pela frente que poderia ter se concretizado com uma vaga em uma UTI Neo Natal. Helena cresceria e seria uma menina linda, sapeca e feliz se os exames feitos na maternidade fossem mais profundos e diagnosticassem esse tipo de situação. Helena entraria numa escola e escolheria uma profissão se todos os nossos hospitais fossem bem equipados. Helena teria uma família, um marido, filhos e quem sabe netos, se nossos postos de saúde estivessem preparados para realizar exames mais profundos. Helena teria uma história para contar se as emergências do nosso país não fossem super lotadas. Mas Helena morreu. Helena não vai crescer mais. Helena não vai dar os primeiros passos. Helena não vai dar o primeiro sorriso e nem falar a primeira palavra. Helena morreu.

Da dor e sentimento angustiante de não poder ter feito nada além de rezar para a boa vontade de um juiz, a boa vontade de um médico ou a boa vontade de um hospital, nasceu uma ideia. Tatiana e Giovane resolveram transformar a dor em algo útil. Criaram uma fanpage “Amada Helena” e começaram a entrar em contato com outros pais que sofreram de uma perda tão absurda e irreparável como a deles. Criaram uma petição pública on line e buscam um milhão de assinaturas.

Tatiana se inspirou na lei da ficha limpa, que lembra de ter visto na TV. Ela quer uma milhão de assinaturas para poder entregar para a Presidente Dilma e exigir que nossa lei proteja as crianças e outros pais não passem pelo sofrimento que eles passaram. Ela quer mais UTI’s Neonatais espalhadas pelo país, com mais leitos disponíveis para que não seja preciso ir atrás de um juiz para garantir um atendimento que está em nossa constituição. “Todos tem direito a saúde e tratamento adequado e de qualidade”.

O que eu quero? Quero que você leia, compartilhe, assine e ajude a conseguir esse um milhão. Quero que você se coloque no lugar da Tatiana e do Giovane por apenas um segundo, e tente, só tente, imaginar o sofrimento de perder seu bebê. Talvez não seja possível, pois a dor é imensurável.

Poderia ser eu, poderia ser você. Poderia ser nossos filhos. Mas foi Helena.