A vida que nasce da superação



Tem histórias que merecem ser contadas. São histórias de superação, histórias que mexem com a nossa imaginação e sentimentos e nos fazem questionar alguns mitos e preconceitos que temos. Quando essas histórias acontecem perto de nós, parece que o cuidado ao relatar fica redobrado e a dificuldade de escrever surge com uma voracidade que parece que você nunca redigiu mais que duas linhas na sua vida.

Me considero uma aprendiz de escritora. Já contei muitas histórias reais e fictícias, já baguncei o sentimento de muita gente com textos de reflexão e desatinos insanos no Causos&Prosas mas esse foi o texto mais difícil de escrever. Procurei várias maneiras de contar, impessoal, pessoal, carregada de emoção, como reportagem e nenhuma dela me agradou. Todas faltavam alguma coisa. Então, resolvi contar, como que conta para uma amiga, uma história da minha vida.



Eu tenho uma prima que sempre foi muito especial para mim. Somos primas irmãs, ou primas gêmeas como brincávamos em criança. Eu nasci no dia 18 de agosto as 21:10 e ela nasceu no di 19 de agosto pelas 4 da tarde (não sei o horário exato, mas o que importa é que não temos nem 24 horas de diferença). Crescemos, descobrindo as coisas da vida juntas. Brincamos muito e também brigamos muito. Nosso primeiro carnaval foi juntas, o primeiro porre ( pelo menos o primeiro que me marcou ), os primeiros namoradinhos sérios e muitas primeiras vezes das nossas vidas aconteceram juntas. O nome dela é Débora Haupt, mas a gente chama ela de Debi, e ela tem 32 anos, uma marido maravilhoso chamado Jair e uma filhinha muito fofuxa chamada Manuela de 1 ano e 3 meses. Eles moram em um distrito do município de Farroupilha, no Rio Grande do Sul, ou seja, moram no interior do interior. E a vista da janela da sala deles é uma imensidão de verde, com uma represa que acalma só de pensar. Até ai não tem nada demais. Ela é uma mulher na casa dos 30, com família que mora num lugar lindo.

Mas a história, infelizmente, não é tão simples assim. Uma semana, depois de fazer 26 anos, em 2006, ela e o marido, iam de moto para Bento Gonçalves, cidade vizinha de Farroupilha, para encontrar uns amigos. Tinham planejado uma viagem, com um grupo da escola de idiomas onde a Debi lecionava espanhol. Eles iam na preferencial da estrada. Em um cruzamento, um carro ameaçou atravessar a pista, porém quando viu a moto freou. Mas o carro que estava ao lado desse seguiu e acertou a moto. Ela, que estava na garupa, voou por cima do marido e caiu de cabeça no asfalto. Quando as primeiras pessoas chegaram em torno dela, ela consciente pediu que ninguém a tocasse, pois não sentia nada do pescoço para baixo. O acidente lhe causou uma lesão medular na cervical. E como consequência Débora ficou tetraplégica. Foram duas cirurgias para estabilizar o pescoço. Muita torcida para que o movimento do diafragma voltasse a funcionar. Muitas noites rezando para que ela saísse do hospital e muitas outras chorando pela incerteza do futuro. Não é fácil de uma hora para outra pensar que todos os sonhos podem não se realizar. Se a gente sofre angustiantemente sem sofrer um acidente assim, imagina como não deve ser a dor emocional de quem, de repente, tem seu estilo de vida roubado por um babaca no trânsito.

Depois do período intenso no hospital era preciso reagir e descobrir formas de se adaptar a nova condição. Minha prima e o marido viajaram para Brasília, ela ficou internada no Hospital Sarah, onde aprendeu a fazer pequenas coisas, com adaptações, nas mãos para que ela pudesse “segurar” os objetos. Comer, escovar os dentes, o cabelo, se maquiar. Aprendeu também por lá a fazer artesanato e produziu muitas coisas lindas para toda a família. Ao todo, Débora, foi seis vezes para lá e cada vez volta com novidades e novas possibilidades para melhorar a sua qualidade de vida. Mas os sonhos de outrora permaneciam. Ser mãe era um deles. Teoricamente não havia problema algum no aparelho reprodutor. A lesão não impossibilitava ela de gerar um bebê. Mas e a pratica? 

Depois de cinco anos do acidente, Debi se sentia preparada para poder superar mais esse desafio. No próprio Sarah teve as orientações necessárias. Realizou os exames devidos e procurou em sua cidade um obstetra de alto risco. Porque apesar de o aparelho reprodutivo não ter nenhum problema, uma grávida tetraplégica tem mais propensão a trombose e infecções urinárias. Agora você imagina que, nessa situação, além de todo o cuidado foi feita uma cesariana para que a a Manu nascesse. Sim, obviamente, não é possível que alguém que não tenha movimentos das pernas e não sente dores tenha um filho de parto normal. Errado. A Manuela nasceu de parto normal.

A obstetra que a Débora procurou, fez várias pesquisas para ver as possibilidades, estudou o caso direitinho e achou uma alternativa. Era preciso um anestesista. Uma pessoa que não tem a sensibilidade da dor pode ter uma disreflexia (reflexo da dor para quem não tem sensibilidade) perigosa e descompensar. O anestesista embarcou no sonho de todos e procurou a melhor analgesia, para que ela pudesse ver sua filhinha ao nascer. O parto da Manu foi induzido. O controle de dilatação era rigoroso para que tudo corresse bem. Antes do parto foi feita a analgesia para que nada desse errado e a força necessária foi feita manualmente por fora da barriga. 

E assim a Manuela veio ao mundo, podendo ter o contato com a sua mamãe nos seus primeiros segundos de vida e minha prima pode ver seu rostinho. Claro que existem dificuldades, mas como ela mesma diz ” A maior dificuldade esta dentro da cabeça do adulto quando não pode fazer determinadas coisas que gostaria e não consegue. A gente sente falta de muita coisa, e às vezes bate uma tristeza por isso. Mas o fato de ter podido ter um filho e a preparação psicológica que e necessária faz com que eu consiga sempre buscar o lado positivo e maravilhosos de ser mãe. A Manuela me encheu de vida e isso não tem preço, preciso superar esses conceitos e curtir aquilo que posso fazer e o que tenho nas mãos”, sorri Débora.

Vontades…

Vontade de comer doce, beber água, tomar uma coca cola, uma cerveja gelada. Vontade de uma mesa de boteco, recheada de amigos, coberta de boas gargalhadas e de preferência bem servida de energias boas.


Vontade de sorrir, de chorar, de viver, de parar, de andar. Vontade de sair da rotina. Rodar o mundo, ficar quieta no meu cantinho. 


Vontade de meditar. De ver o sol se por no Guaíba, de ver o sol nascer na praia. De olhar o mar, de sentir a brisa, de sorrir pra vida. Vontade de não pensar em mais nada, de não ter mais vontades. De seguir as vontades.


Vontade de mudar. De acontecer, de ser, de estar, de ficar, de partir. Vontade de acreditar, de fugir, de me entregar. Vontades antagônicas em si, superficiais em mim, estagnadas na vida e serenas num dia.


Vontades…

As caçadas de Pedrinho

Em quarenta dias de vida descobrisses muita coisa. Tuas mãozinhas são partes do teu corpo, que podem servir de consolo quando a chupeta não está perto ou o teu “tototo”.Também sabes que elas servem para agarrar e apertar com força quando estás descontente com algo. Sabes diferenciar música de qualidade. E tens um gosto bem eclético, dormes tanto com musiquinhas de ninar, próprias para tua idade, como com metálica, Lulu santos, Steve Vai. 

Tens uma fome desproporcional ao teu pequeno tamanhinho. Fome tanto de leite quanto de conhecimento, em cada ambiente arregalas os olhos, prestas atenção em tudo e por um minuto até para com a manha para saber o que está acontecendo e onde estás.Olhos esses que parecem azuis, como os meus e que são pequeninos e apertadinhos, típicos da minha família.
Mas por enquanto não negas teu pai, a careca, as entradas, as enrugadas na testa e deixa-la franzidas. Como são parecidos. Nestes teus 40 dias de vida, aprendestes direitinho como é bom um colinho, sabes quando precisas de algo e grita a plenos pulmões e quando é apenas uma manhasinha, tipíca de quem só quer uma atenção. E já descobristes que és lindo, afinal os espelhos exercem uma força sobrenatural sobre ti.
Preguiçoso para mamar, manhoso para ganhar um colinho, briguento quando queres algo de verdade. Assim foram os teus 40 dias de vida. Assim espero que sejam os próximos milhares, mesmo que eu fique acordada outros tantos deles, cheios de vida, de energia, e de grandes descobertas e caçadas nesse mundão que ainda vais descobrir.

O Pequeno Príncipe de minha vida

Faz horas que devo ao blog um pouquinho de atenção, mas eram tantas coisas ao mesmo tempo que faltava tempo para chegar até aqui. Talvez nem fosse o tempo que faltasse, mas a dedicação e sentimento necessário para me encontrar aqui.
Depois fiquei negando, achando clichê e porque não dizer um pouquinho brega o que eu realmente queria dizer. Mas agora é o momento certo.

Desde que me conheço por gente eu queria ser jornalista. Escrever, mudar o mundo e desvendar mistérios. Quando criança adorava essas coisas e pelas estradas tortuosas da vida me desviei do rumo, peguei bifurcações que me afastaram e foi custoso voltar ao ponto inicial. Mas eu sempre acreditei que na vida tudo tem um sentido e que, mesmo que leve um tempo, a gente sempre chega nos mesmos lugares porque está escrito no destino.
Eu cheguei. Mas tiveram inúmeras pessoas que me fizeram chegar lá. Amigos, familiares, professores e mestres. Pessoas pra quem dediquei e agradeci cada passo que dei no percurso.
Como acredito que nada é ao acaso no meio do caminho conheci a personagem mais importante desse trajeto. Se para ele eu sou a Miss Marple de Agatha Cristie para mim ele é a personificação do Pequeno Príncipe de Saint Exupéry. Se parar pra pensar até semelhanças físicas os dois tem. Loirinhos, com olhares de criança, que não se intimidam diante dos sentimentos e transparecem o que sentem. Correndo atrás de seus objetivos, que são simples, diretos, humildes e que ensinam lições gigantes a todos que cruzam pelo seu planeta  ou pelos planetas que eles visitam. Planetas que tem donos diferentes, que tem aspectos diferentes, mas que ele por seu olhar singular sabe admirar e evidenciar tudo de melhor.
O Pequeno Príncipe de minha história lembra de mim em uma balada, logo que chegou a cidade, me descreveu como a simpática que ficou dando dicas da cidade. Eu lembro dele, antes de nossos caminhos se cruzarem, quando em um trabalho de faculdade, recebi um trecho da dissertação de mestrado para ler.
Quando na bifurcação da vida nos encontramos me identifiquei fácil com sua trajetória,  na primeira aula em que se apresentou e fez questão de apontar seus erros e seus defeitos, e como um sábio, um pai ou irmão mais velho, dizia subjetivamente para a gente não seguir aquele caminho que percursos melhores existiam.
Eu era nova, recém chegada, uma estranha em turmas que já tinham seus grupos fechados e que tinham limitações para aceitar estranhos. E eu não era mais uma menina. Ele também, mesmo dentro de seu grupo sendo considerado um menino.
Não foi naquele dia, mas foi nesse momento que decidi ou que ele decidiu que seria meu orientador. E o que se seguiu depois foi obra do destino. 
Poucas pessoas tem o dom de encantar outras e ele tem. Poucas pessoas são capazes, de conduzir outras e ele é. Poucos são os generosos que doam seu tempo, suas horas de sono, de lazer e de vida para os outros. Ele faz isso. Ele compra as brigas por nós, nos defende, puxa as orelhas e ensina. Não se contenta em passar conteúdos, ele quer passar vida. Divide agonias, nos acalma nas horas certas e nos deixa na adrenalina quando é disso que precisamos.
Engraçado que ele falava para mim de como eu me doava para os outros, como eu sempre estava disposta a ajudar e ajudava, de como eu era capaz de ser uma executiva e enquanto ele falava tudo isso eu pensava “e você?”. Você é tudo isso também.
Um humor peculiar, que causa estranheza num primeiro momento e que depois diverte. Uma pessoa humilde, ingênua, decidida, metódica, perfeccionista e amiga. Nossa e como é capaz de ser amigo. De estender a mão, de olhar para frente e enxergar o que as vezes mais ninguém vê. Um leitor de almas. 
Foi uma grande honra ter dividido com você esse meu ano. Um ano tumultuado com tantas coisas, um ano sofrido, angustiante e decisivo. O ano em que me tornei a jornalista que queria ser desde criança. Você me conduziu pelo caminho, me ensinou cada passo, aguentou minhas indecisões, minhas dúvidas e até as TPM’s e ainda assim sorriu para mim. Você se tornou um amigo, um amigo que com certeza, mesmo que os quilômetros separem  estará sempre num cantinho muito especial do meu bau de memórias, porque além da honra de ser sua orientanda tive a honra de conviver com você. Porque você é uma pessoa incrível.
E para terminar quero dizer que se eu tenho a veia jornalística como um dom você tem a docência. São poucas as pessoas que passam pela vida acadêmica das outras e que conseguem deixar para sempre gravadas o seu nome, não como mais um professor, mas como como um verdadeiro mestre. Você é o mestre, você é o cara e todo o seu tesão por ensinar passa pelo seu olhar na sala de aula. E todos aqueles que passam pelas suas aulas e são capazes de perceber isso se apaixonam e percebem a diferença entre ser professor e ser mestre. Você muda e transforma, com todas as dificuldades e resistências daqueles que tem medo e te enxergam como um inimigo, as salas de aula e a maneira como deve ser conduzida a faculdade. O teu sucesso nessa importante missão na vida é o nosso sucesso. E se existe alguém que duvide dele é porque não tem a capacidade de viver feliz com a conquista dos outros.
Você, Marco Antônio Bonito, é o pequeno príncipe da minha história, que de pequeno não tem nada, porque és grande como poucos conseguem ser.

Chega uma hora na vida da gente

Chega uma hora na vida da gente que não se acredita mais em milagres. Nem em contos de fadas. Muito menos em pessoas. Se perde a fé por completo e acaba-se ficando rude, descrente e pessimista.


Chega um momento na vida da gente que não se acredita mais no amor. Nem em relacionamentos. Muito menos em alma gêmea. Se perde a auto estima por completo e acaba-se ficando racional, triste e amargo.


Chega um dia na vida da gente que não se acredita mais em palavras. Nem em frases de efeito. Muito menos em pensamentos. Se perde a sensibilidade por completo e acaba-se ficando frio, insensível e vazio.


Chega um segundo na vida da gente que não se acredita mais em nada. Em absolutamente nada e perdemos todas as chances de seguir em frente.


Mas chega uma hora em que o milagre acontece. Uma momento em que o amor acontece. Um dia em que as palavras sensibilizam. Um segundo em que tudo acontece. E aí são os contos de fadas, as pessoas, os amores, os pensamentos  e as chances de seguir em frente que lhe mostram o quanto ainda temos a caminhar, a amar, a sorrir, a acreditar e principalmente a ser feliz.

A vida é feita de pessoas e sorrisos

Minha vida é feita de pessoas. Pessoas que conheci, pessoas que passaram por mim, pessoas que esperei, pessoas que amei, pessoas que um dia me fizeram feliz. São tantas pessoas e ao mesmo tempo tão poucas que guardo os sorrisos mais importantes como referências de momentos. Porque o sorriso é a forma mais sincera de cumplicidade. Há quem diga que sejam as lágrimas mas não acredito. Prefiro me lembrar da pessoa sorrindo do que chorando.


Não que os momentos de tristeza não sejam lembrados e importantes para a nossa construção. Eles servem como base para subirmos mais um degrau e aprender que toda dor um dia passa. Diferente do sorriso que eterniza os momentos felizes. Se fosse a lágrima da dor o elo da cumplicidade tiraríamos fotos chorando. Mas ao contrário disso sorrimos sempre que queremos eternizar um momento.


Guardo os sorrisos de amigos, coleciono eles como se me fossem o mais caro tesouro. E todas as vezes que, por algum motivo, sinto saudades, por um segundo, fecho os olhos e vasculho entre tantos sorrisos aquele que me fará amenizar a dor da distância. Sim, porque o sorriso é a cura para a dor, aquela que invade a alma e te abraça silenciosamente mesmo que tudo a volta se mexa. E somente um sorriso sincero e cúmplice e capaz de aliviar a pressão do peito e suspender as lágrimas da alma.


Minha vida é feita de pessoas. Pessoas e sorrisos. Amores, amigos e sorrisos. Momentos, pensamentos e sorrisos. Dias, noites e sorrisos. Todos eles guardados num baú. Como coisas antigas e preciosas. Sorrisos que valem mais que qualquer dinheiro. 



Apenas mais um dia cinza

As lágrimas vêm aos olhos e fica difícil de segura-las. Não entendo se são de raiva, tristeza ou decepção. Elas brotam e como pedras em um desfiladeiro rolam pelo rosto. Não existe lugar certo. Quando assim acontecesse não tem como segurar. O sol no mesmo instante se esconde e transforma o dia num tom de cinza escuro com suas nuances.


Estranho entender que as pessoas, infelizmente, são assim. Não valorizam o que de mais belo e honesto existe: a confiança. Quando alguém confia em você ela deposita segredos, amor e amizade. Ela acredita em você. Ela entrega a vida nas suas mãos e de olhos fechados atravessa uma avenida movimentada porque você diz que pode fazer.


Não sei se é tristeza, decepção ou raiva que sinto. Apenas dói e as lágrimas escorrem. Apenas sofro. De qualquer forma não errei em confiar em você. Você errou por trair a minha confiança. E também não é questão de perdão, a questão é eu poderei algum dia confiar em você novamente?


Porque dizer que perdoa é fácil. O complicado é resgatar o que se levou tanto tempo pra conquistar. O impossível é lembrar que nada do que foi feito e construído foi valorizado. Passar por cima, dar a volta e sorrir novamente depende muito se você realmente fará valer a pena. 


Enquanto isso o dia cinza permanecerá. Até as nuvens se dissiparem, as lágrimas pararem e o coração se fortalecer. 

Era uma casa muito engraçada não tinha piso não tinha nada…

Quando cheguei em casa só pensava em tomar banho. Como se a água pudesse levar, junto com a poeira de meu corpo, as lembranças daquele lugar. Só que quanto mais a água quente caia sobre mim, mais o ambiente se enchia de vapor e mais eu me perguntava como aquela menina fazia para tomar banho e se, algum dia, em seus dezoito anos, ela havia tomado um banho quente.


A rua enlamaçada, a entrada daquela casa, as tábuas que demarcavam território, os inúmeros gatos, o cachorro, o cheiro de bergamota misturado ao odor fétido do esgoto e da “casinha”. Sim. Porque banheiro não havia ali e sim uma peça de tábuas, com um buraco revestido de madeira, que ameaçava lembrar uma privada. E ali haviam jornais. Nenhum sinal, nem do mais rude, papel higiênico.


Por um momento pensei na música da minha infância. “Era um casa muito engraçada não tinha teto, não tinha nada, ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão”. De um forma triste e dolorida enxerguei a casa sem chão. Não me veio a imagem das minhas brincadeiras de roda, mas sim a tristeza de saber que naquela casa sem chão, sem piso, sem assoalho, aquela casa construída de tábuas velhas, que não tinha divisões e apenas uma cama de solteiro viviam 5 pessoas. Dois adultos, sendo um doente. Uma adolescente que deveria ter sonhos e duas crianças em idade de correr rua e brincar. E uma dessas crianças trazia seqüelas da irresponsabilidade de seus pais.


Perceber que a bergamota era igualmente disputada pelo espaço nas mãos, da pequena de seis anos, por um felino, que por mais fofinho que fosse corria por cima daquele esgoto à céu aberto. E que a criança sorria, sem se importar ou entender o que acontecia ali.


Observar que aquela adolescente queria ser alguém. Queria terminar os estudos e fazer pedagogia. Mas qual seria a possibilidade de concretizar seu sonho, se aos 14 anos foi estuprada pelo próprio padastro, aquele que deveria proteger. E que o fruto desse ato era uma pequena de 4 anos. 


Entender que tudo que ela via como possibilidade de melhorar de vida era sair daquele lugar “porque quando vem o temporal é um sufoco”. Sim. Seu único medo era os temporais. As dificuldades que a chuva trazia para ir a escola, para sair de casa, para sobreviver entre aquelas tábuas podres.


Dizem que jornalistas são contadores de histórias. Costumam criticar dizendo que vendemos sofrimento. Que midiatizamos  a desgraça. Que escancaramos e fazemos um carnaval da dor alheia. Preciso contar essa história. Não como faço aqui, dessa forma de desabafo. Mas contar para denunciar que enquanto passo 70% do meu tempo conectada, consumindo informações, sob um teto com forro, dormindo em uma cama aconchegante e tomando um banho quente, existem pessoas, que a única coisa que querem é fugir da chuva. Existem pessoas que não tem banheiro em casa. Que não tem o que comer. Que acordam todos os dias para, apenas, sobreviver a mais um dia.


Sim. Fará parte da minha vida contar essa história, parte do meu currículo e faço com orgulho. Por mais que as lembranças me assombrem e insistam em se manter vivas na minha cabeça. Essa é minha pauta. Mas torço, sinceramente, pelo dia em que eu não precise denunciar coisas assim. Que não seja preciso que jornalistas escrevam essas histórias. Que possamos contar que houve um tempo em que era assim. Mas que o país cresceu, amadureceu e largou de mão a mesma política assistencialista que praticou por décadas e que aprendeu o caminho certo. Que ensinou seus filhos a pescar, em vez de dar-lhes o peixe, mascarando os reais problemas. Que o Brasil deu educação e cultura a seu povo. Sim. Porque só a educação e a cultura serão capazes de mudar a nossa realidade. Aí quem sabe essas lembranças não me assombrarão mais e os jornalistas parem de vender o sofrimento.



Eduardos & Mônicas

Não costumo publicar no blog coisas alheias. Abro algumas excessões. E hoje é dia de excessão. Eu passei minha adolescência ouvindo Renato Russo. Sendo embalada pela sua voz e inspirada pelos seus poemas. De certa forma torcia para um dia conhecer meu “Eduardo” e ter um romance estilo “Eduardo e Mônica”. Sonhei inúmeras vezes e criei um filme imaginário da música. 


Ainda hoje, quando me refiro a uma balada estranha uso a frase do Russo: “festa estranha com gente esquisita”. E acredito profundamente em “quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração. E quem irá dizer que não existe razão”.


E conheço vários casais “Eduardo e Mônica”, cada um com suas particularidades e nomes próprios, mas que “se completam igual feijão com arroz”. Então minha emoção foi grande  quando vi a iniciativa da Vivo. De uma forma extremamente sutil faz a sua propaganda e   com ela emociona milhares de pessoas, de uma geração inteira, que encontraram, ainda buscam ou que perderam seus Eduardos ou suas Mônicas.


De presente de dia dos namorados, o Causos & Prosas, homenageia a Vivo, Renato Russo, Legião Urbana e todos os “Eduardos & Mônicas” do mundo!


E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?


Cartas – Aquela que um dia enviei…

Fulano,


Eu sempre tive vontade de dizer um monte de coisas mas nunca tive coragem. Parece que quanto mais o tempo passa, mais o destino nos afasta, mais a memória nos trai, mais eu te amo. E se é estranho para você ouvir isto é mais estranho para mim escrever. Escolhi caminhos, mudei estradas, abafei sentimentos e escrevi canções. Viajei por galáxias, planetas, mundos, países, estados e cidades, tentando de alguma forma esquecer. Mas para todos essse lugares tu me acompanhou. Foi em meu pensamento  e mesmo que ao meu lado esteja outro homem não consigo deixar de amar você. 

Engraçado de tudo é que quando estavamos juntos eu não te amava. Pelo menos achava que não. Talvez seja apenas uma obsessão. Ou quem sabe orgulho ferido. Talvez. Mas seria muito pouco para me fazer sonhar com você, desejar você e principalmente querer o teu bem. De uma forma poética não te quero para mim, simplesmente te amo e te quero feliz. Não  imagino minha vida contigo. Nem concebo a hípotese de ficarmos juntos, algum dia, novamente. Mas te amo. Sinto isso a cada dia, que o tempo se afasta mais do dia que fomos nós dois, mais forte. Não sofro. Não choro. Não imagino. Apenas amo. 


E eu tenho plena consciência que não existe recíproca. E sei que não represento nada além de um casinho complicado em tua vida. Talvez até eu seja uma maluca que queres afastar. Mas mesmo assim ainda te amo. Se isso não é amor eu não sei o que é. Engraçado que eu não sabia o que era ele quando estavamos juntos e foi você que me ensinou a praticar. O mundo deu tantas voltas, mudou tanto para nós dois. Aconteceram tantas coisas e quem sabe eu nem ame mais o seu você agora. Mas amo aquele você que de uma forma tão especial entrou na minha vida e ficou em meu peito para sempre. O amor não é isso? Então o que ele é?! 


Não questiono os pôrques. Aceito. Se era desse jeito que era para ser. Então que seja. Mas cansei de esconder que na verdade não te esqueci. Que o amor aumentou todo este tempo distante e que ele é algo belo e sutil. Que não me torna infeliz, por não estar contigo. Que me acalma a alma e me torna melhor por saber que tenho esta capacidade de amar sem precisar de qualquer coisa em troca. E eu que sempre achei que para amar era preciso ser amada, descobri pelas tuas mãos que não. 


Ainda és minha fonte de inspiração. Meu personagem imaginário mais real. Meu herói e mocinho.  Meu sorriso, minha emoção e meu sentimento.