Chutando Pedrinhas…

Ricardo teve todas as oportunidades de sua vida pra conquistar Cristina, mas sempre foi infantil demais para isso. Conheciam-se há alguns anos. Ele sempre arrastou uma asa para ela. Trabalhavam na mesma empresa, mas em estados diferentes. Comunicavam-se por telefone e internet e haviam se encontrado algumas vezes em reuniões e convenções. Todas as vezes que Ricardo ia ao estado de Cristina, procurava pela moça, algumas vezes ela saia com ele e outras dava o cano.

Um dia Cristina resolveu ceder ao galanteio de Ricardo. Saíram, tomaram alguns drinques e acabaram ficando juntos aquela noite. Cristina encantou-se por ele e ficou pensando porque tinha demorado tanto tempo a dar uma chance. O romance ia de vento em polpa e sempre que podiam viajavam para se encontrar.

Porém, um dia ele foi convidado para fazer um trabalho na África e passou seis meses sem dar noticias. Segundo ele lá não existe telefone, internet, correio e nenhuma outra forma de comunicação. Quando retornou ao Brasil ligou para Cristina e marcaram de sair. Ela não sabia muito o que ia acontecer, mas sabia que não queria ficar com ele. Já que ele havia dito que levaria mais dois amigos ela resolveu chamar suas amigas e foram para uma danceteria.

Chegando lá, Cristina deu de cara com Marcelo e suas perninha começaram a tremer. Fazia algum tempo que ela estavam e ela bem apaixonada por ele. Quando Marcelo a chamou para irem embora juntos, ela foi esquecendo completamente de Ricardo. Saiu e nem se lembrou de avisar as amigas.
Ricardo ficou muito indignado, pois jurava que levaria a menina para casa. Saiu chutando pedrinha, chorando e resmungando igual a uma criança que perde seu brinquedo favorito.

No dia seguinte, Ricardo estava com seu orgulho ferido e os dois amigos zoavam dele. Afinal ambos tinham saído acompanhados pelas amigas de Cristina. Ele para não sair por corno tentou resolver a situação humilhando Cristina e suas amigas. Ligou para a moça e disse que ele e seus amigos agradeciam e noite maravilhosa que as meninas tinham propiciado. Cristina que sempre foi ingênua para algumas coisas, principalmente com os homens, ficou feliz com as palavras de Ricardo e acreditou que ele não estava chateado. Ligou para uma de suas amigas para contar. A amiga ficou indignada e falou que na verdade ele estava puto e tinha tentado humilha-la. E pior ofendendo a todas.

– Ricardo? Cristina. Só quero te dizer uma coisa. Eu e minhas amigas ficamos muito felizes de ter divertido você e seus amigos. Mas fala a verdade… Você saiu de lá choramingando? Bem feito, porque a gente só da valor as coisas depois que perde.

Nem sempre da para esperar

Tudo que ela queria era começar a viver. Passou a vida estudando, planejando e fugindo de romances, namoros e paqueras porque ainda não era o momento. Pensava em seus estudos. Não desperdiçava nenhuma hora se divertindo. Precisava se formar com louvor e ser a primeira da classe.
Sempre foi assim. Desde os tempos de colégio. Nunca tirou uma nota baixa. Nunca pegou uma recuperação e só matou aulas nas vezes que ficará muito doente e não conseguia sair da cama. E mesmo assim em 15 anos de estudos se contava nos dedos as quantidades de faltas em seus boletins.
Nas férias, ficava em casa estudando. Adiantando matérias do próximo ano ou revendo o que foi aprendido. Nunca pediu um brinquedo de presente. Sempre livros, apostilas e materiais escolares. Não tinha amigos e fazia todos os trabalhos sozinha. E quando era obrigada a fazer em dupla, ou em grupo, fazia sozinha igual e colocava o nome dos outros colegas.
Seus pais se preocupavam. Não acham normal toda essa obsessão. Levaram a menina à médicos, psicólogos, psiquiatras, terapeutas alternativos e até a centros espiritas. Todos, sem exceção, diziam que ela estava ótima e não havia nada de anormal.
Aquele, enfim, era o dia da sua libertação. Dia da formatura na faculdade de medicina. Estava com a residência garantida em um dos melhores hospitais da cidade. Era a oradora da turma e seria a única aluna a ser laureada.
Estava também cedendo aos amores. Havia um colega de faculdade, muito especial. Que sempre a paquerou e, ela decidiu, que após o baile, sairia com ele. Era o grande dia. Seus objetivos estavam conquistados e agora poderia sorrir e se divertir.
Saiu de casa, cheia de vida e esperança no novo começo, para se arrumar em um salão de beleza. Cabelo, maquiagem, depilação, mãos, pés e até uma massagem relaxante. Merecia aquilo. Parou na esquina para pegar um táxi. Não entendeu bem a correria das pessoas e sua volta. E tudo ficou preto.
No outro dia a manchete do jornal local era trágica: Menina morre de bala perdida horas antes da formatura.

Flora

Flora sempre foi uma menina especial. Ao nascer, a enfermeira olhou e disse:
– Nasceu um anjo!
Sua pele alva, seus cabelos ruivos e seus olhos cor de água cristalina eram fortes traços de sua fisionomia. Ela nasceu em um lugar abençoado por Deus. Uma vila no meio do nada, entre um rio de águas claras e uma floresta verdejante. Um lugar esquecido pelo homem e pelo progresso. Onde as pessoas eram humildes e muito tementes a Deus.
Em pequena, seus familiares todos acham que a menina era louca. Não eram raros os momentos em que Flora era pega falando sozinha, ou dizendo coisas aos adultos que eram de se duvidar que uma criança fosse capaz de falar. Frases fora do contexto das conversas mas que faziam muito sentido para quem as estivessem ouvindo.
Bruxa, era apenas um apelido carinhoso para Flora. Com apenas nove anos de idade, conhecia ofensas bem mais sérias e até as professoras tinham medo dela. Seu dom, era visto como algo abominável, como coisa do demônio e ninguém entendia o que acontecia com a menina. Ela era incapaz de fazer o mal, mas mesmo assim tudo de ruim que acontecia na vila, diziam que era coisa dela.
Não foi surpresa para seus pais quando a menina foi expulsa da catequese e praticamente excomungada da vila onde moravam, depois de ter falado, ao único padre da região, que um dia todos saberiam as sem-vergonhices que ele andava cometendo. Tiveram que se mudar para uma região bem distante.
Mas não adiantava muito. Em pouco tempo os vizinhos percebiam que a menina era diferente, podia ver o passado, o presente e o futuro. Fazia adivinhações. Falava com os mortos. Sabia sempre o que dizer as pessoas. Dava bons conselhos e nunca errava.
E quando isso acontecia a família se mudava de novo. De alguns lugares eram expulsos. De outros fugiam no meio da madrugada, pois a imensa legião de seguidores e adorados de Flora não dava sossego.
Assim a fama da menina se espalhou por todos os cantos do planeta. De tanto se mudarem não existia mais lugares para onde ir. E no meio de mais uma fuga Flora empacou. Não queria mais fugir, se mudar, ou fingir que não tinha poderes. Simplesmente queria viver e seguir a vontade de Deus, fazendo o bem as pessoas com seu dom.
Foi assim que Flora passou a dar consultas. Tornou-se uma lenda nos quatro cantos do mundo. Para alguns uma bruxa, para outros a encarnação do capeta, mas para a maioria uma santa. Capaz de fazer o bem a qualquer pessoa que se aproximasse dela somente com suas palavras. E foi com suas palavras que ela mostrou a todos que o mundo podia ser um lugar melhor.

O Dermatologista

Marcela acordou naquele dia em uma grande depressão e decidiu que não iria trabalhar, que precisava e merecia um dia para rir. Fez várias coisas que precisava e buscou Paola para tomarem uma cerveja no meio da tarde… Sabe aqueles dias em que o calor está demais, o sol lindo, maravilhoso e quente pedindo um brinde, uma homenagem? Pois é, era um dia desses, um lindo dia de sol que merecia uma matação de trabalho e uma cerveja gelada no meio da tarde…
As duas tomaram apenas três latinhas, mas ficaram alegres, estava muito calor e ambas de estômago vazio. Alegrinhas um pouco demais, para quem tinha dermatologista meia hora depois…
Enquanto discutiam que Paola não necessitava de dermatologista e sim de um psiquiatra como Marcela a cerveja foi rolando… E pegando!
Marcela foi acompanhar Paola no médico. Chegando lá os pacientes que esperavam ficaram meio chocados de ver aquelas duas mulheres rindo sem parar e, sem nenhum motivos aparente. Na hora de entrar no consultório Marcela entrou junto.
O Médico achou estranho e o diálogo se deu da seguinte forma:
– Desculpa doutor, mas agente faz tudo juntas! – Disse Paola
– E o que a traz aqui?
– Essas manchinhas brancas que estão aparecendo…
– O médico examinou Paola e foi lhe prescrever o tratamento:
– A senhora toma alguma medicação?
– Não – respondeu Paola.
– Toma sim! O remédio da pressão – disse Marcela.
– A senhora não toma anticoncepcional?
– Não tomo e não pretendo tomar. Pra que eu precisaria? – Respondeu rindo e olhando para Marcela.
O médico olhou com uma cara muito estranha e seu pensamento foi lido pelas meninas…
“Que desperdício… duas mulheres lindas, gostosas… E lésbicas.”
As meninas saíram dando mais risadas ainda…

A primeira benzetacil a gente nunca esquece…

Tive um gripão daqueles. Começou com aquela dorzinha no corpo e uma febrezinha de 37. Tomei tylenol. Uma semana e o resfriado evoluiu pra uma crise de renite aguda. Espirra daqui, espirra dali. Toma tylenol. Abafa bem. Não pega frio. Passou a renite veio a sinusite. Mais tylenol.
Passou a sinusite. Mas a febre começou a aumentar. Tem alguma coisa na minha garganta. Ta doendo. Mais tylenol. A febre sobe. Minha garganta começa a fechar. Não consigo engolir. Não consigo respirar. Tem duas bolas no meu pescoço. Quarenta graus de febre. Socorro! Preciso de um médico.
Certo. Muitas pessoas teriam procurado na crise de renite. Mas sou dura na queda. Já me acostumei com ela e com a sinusite. A questão é que, agora, o remédio tão bom pra sinusite só pode ser vendido com receita. E o meu acabou. Tinha pensado mesmo em marcar uma consulta e pedir uma receita, mas tava enrolando. Se não for pra conseguir atestado não sou muito a favor de ir ao médico.
Enfim. Liguei pro maridão pedindo socorro. Ele me prestou a solidariedade devida e me levou ao Posto de Saúde do quartel. Aqui, em São Borja, por ser pequeno não tem um hospital militar. Só um posto de saúde. Muito bem organizado por sinal.
O médico, clinico geral, muito atencioso. Não foi preciso muito pra constatar o meu quadro. Uma gripe mal curada que se tornou uma grande infecção na garganta. Com tudo que uma dessas tem direito: ínguas, placas, dor e febre.
A pergunta dele foi engraçada: “Queres ficar bem boa rapidamente, ou mais ou menos boa a longo prazo?” Não precisa pensar muito para responder. Claro, quero ficar bem boa e rápido. Resposta errada.
Ele me recomendou mais tylenol (pelo menos sei que estava no caminho certo). Também mandou eu tomar a droga do momento: Alivium e pra completar o tratamento uma dose única de benzetacil. Pode parar doutor. Benzetacil não. Nunca tomei mas tenho uma péssima experiencia com injeções na bunda.
Ele acabou me convencendo. Mesmo com as minhas lembranças ruins de injeção na região glútea, concenti. Ele me garantiu que era a melhor maneira e que sentiria as melhores rapidamente. Ficaria um pouco dolorida mas sem roxos ou buracos na pele.
Meu problema com as agulhas na bunda vem do tempo da gravidez. Estava com uma anemia forte e o obstetra me recomendou três doses de ferro. As duas primeiras foram tranquilas. O farmacêutico aplicou sem problema nenhum. Na última injeção fui procura-lo. Ele não estava. Só sua esposa. Acho que ela ficou com raiva porque eu pedi por ele e me deu a injeção de qualquer jeito. Passei seis anos da minha vida com um roxo enorme na bunda e pior minha bunda ficou deformada. Onde o ferro extravasou ficou um buraco.
Eu concordei com a aplicação da benzetacil. Preparação psicológica. Todo mundo sempre disse que era um horror. Tudo bem. É só uma injeção. Pense nos beneficios. Vou voltar a comer. A febre vai passar. As dores no corpo também. A liberdade em questão de dias.
Aí vem o enfermeiro. Fardado. Ok. Sei que muitas mulheres tem fantasias com homens de farda. Mas eu tenho um em casa. E cá pra nós, uma coisa é fantasiar uma relação amorosa com um fardado. Outra bem diferente é ele vir com uma agulha pra espetar na tua bunda. E sem nenhum sentido literal da coisa. Que constrangedor. Rolou até uma vergonhasinha. Um calorão. E posso afirmar que não foi pela farda e sim pela minha poupança. Olha que situação.
Ele me deu a injeção. Me avisou que ficaria dolorida e que seria bom fazer algumas compressas quentes na região. Confesso que a bunda está doendo. Não tanto quanto a garganta estava ou como a febre me incomodava. Não foi o fim do mundo. Estou bem. Voltei a vida. Dormi bem e só lembro da injeção quando vou sentar. Dos males o menor. Mais vale uma nádega dolorida do que uma garganta fechada.

Sonhos

Ela encontrou uma calcinha rosa, de renda, fio dental e um corpete preto com detalhes azuis no meio das roupas deles. Perguntou o que significavam aquilo. Ele como sempre desconversou. Saiu andando pela casa e resmungando que ela era muito ciumenta e lá vinha mais uma vez com suas acusações e insinuações.
Não dava mais pra aguentar aquele tipo de coisa. Qualquer pergunta que ela fazia era sempre a mesma resposta. Era muito difícil pra ele simplesmente responder. Falar a verdade ou só falar. Não conseguia. Ele sempre tinha que fazer o discurso habitual.
Ele voltou pro quarto e perguntou se ela não queria ir pra sala. Ela disse não. Iria embora. Não aguentava mais aquilo. Nunca mais queria vê-lo. Agora era realmente o fim. Estava cansada dos discursos, mais do que das mentiras.
Ele disse que não era nada. Tinham recolhido na campanha do agasalho e ele só pegou pra sacanear os colegas. Pediu desculpas pelos discursos. Mesmo assim ela saiu. Precisava de um tempo sozinha. Saiu do prédio e não entendeu o que aconteceu.
Quando raciocinou estava na frente de seu ex. Conversando. Não era qualquer ex. Era aquele que ela nunca mais queria ver em sua frente. Aquele que era tão ciumento, que via coisas onde não existiam. Como ela estava ali?
Ficaram conversando, saíram juntos. Ficaram juntos de novo. Ele confessou que nunca tinha a esquecido e que desde que romperam não houve ninguém sério. Jurou que havia mudado e aprendeu muito com o chute dela.
Mas algo estava errado. Aquela não era a vida dela. Voltar com ele? Como pode. Acabar com o amor da sua vida? Dizer pro outro que ele não significava nada. Não podia ser. Pensava tudo isso enquanto beijava o ex, agora atual namorado.
As coisas estavam esquentando entre eles. Deitados na cama, ela ouvindo as juras de amor dele, ele veio pra cima. Ela deu um pulo. Olhou pros lados. Seu namorado dormindo ali. Percebeu que estava suando frio, saiu da cama, lavou o rosto e tomou um pouco de água. “ Só um sonho… Um sonho não um pesadelo”…

O roubo das bicicletas

Quinta de noite o Paulo me convidou pra andar de bicicleta. Achei uma boa ideia. Desde que mudamos de casa aqui em São Borja nunca mais demos um passeio com as bicis. E elas já estavam mofando lá na lavanderia.
Pra quem não viu as fotos da casa ou não conhece, no pátio, nos fundos da casa tem uma outra casinha. Que nós adaptamos e fizemos de lavanderia e quarto de entulhos. Tudo que não usamos sempre fica lá. Coisas inúteis que trouxemos na mudança também. E outras coisas que ficam lá por falta de espaço dentro de casa. É bom ter um lugar assim. Pelo menos a bagunça acaba ficando longe dos meus olhos. O que nesse caso é muito bom, já que o Paulo é um tanto desorganizado.
Enfim. O convite foi feito na quinta de noite. Na sexta de manhã, quando acordamos. O Paulo foi até a lavanderia pra buscar umas ferramentas e grita: “ Amor, cadê as bicicletas?” Levei um susto. As três bicicletas não estavam mais ali. Tinham sumido. Evaporado, sem deixar rastros. Foram roubadas.
Não sabemos bem como aconteceu. Nem que horas. A única certeza que temos é que entraram em nosso pátio. Pelo muro ou pelas grades. Tiveram que pular porque não tem outro jeito. Carregaram as três bicicletas. Passaram elas pelo muro ou por cima das grades e saíram pedalando. Chamamos a Brigada Militar ( aqui no sul se chama assim a polícia militar. Não sei o por quê, mas é assim). Eles disseram que isso é comum na cidade. Mas que é muito raro eles entrarem dentro das casas, ainda mais com pessoas. Normalmente fazem isso em casas vazias.
Tudo bem. Mas essa noite qualquer barulhinho que eu ouvia eu ia ver o que era. Fiquei pensando como vou ficar quando o Paulo estiver de serviço. Qualquer coisa vou chamar a Brigada. Talvez eu fique conhecida por eles como a louca do pátio.
E aquela história de que moramos no interior e aqui é mais seguro? Tá certo. Se fosse na capital, talvez roubassem as bicicletas, os eletrônicos, celulares, cartões de banco e com muita sorte deixassem a gente vivo. Mas eu passei um ano morando no Rio. O carro dormia na calçada de casa e nunca, em hipótese alguma, buliram nele.
Já não tenho tanta certeza que o interior é mais seguro. Sei que violência esta em toda parte. E agora confirmo que está em toda parte mesmo. Também me dou conta de que ela é proporcional ao número de pessoas de um lugar. Mais pessoas, mais violento. Mais miséria, mais crueldade. Mas a questão que mais me preocupa é: Onde vamos parar? Se é que um dia vamos parar. As bicicletas são o de menos. Que a pessoa que levou faça bom proveito delas ou pelo menos use o dinheiro pra uma boa causa. E que os governantes se dêem conta que nada tá dando certo e cada vez a coisa tá pior.

Diário de uma mulher que espera o fim

Algumas pessoas nascem pra ser infelizes. Talvez eu seja uma delas. Enquanto tento abafar meu choro ele ronca ao meu lado como se nada tivesse acontecido. Pra ele, realmente, nada aconteceu. Nada que abale seus sentimentos, suas masculinidade ou seu dia a dia.
Pra mim o mundo acabou de acabar. Uma sucessão de eventos que fazem com que cada amanhecer seja mais penoso. Que retarda cada vez mais a minha saída da cama na manhã seguinte. Só quando durmo estou em paz. Somente assim, dormindo, me esqueço do fardo que carrego de ser infeliz.
Em outros tempos vi a felicidade bater em minha porta. Deixei-a a entrar. Não entendo os motivos que fizeram ela partir. Nem exatamente quando ela saiu. Só sei que se foi. E nunca mais voltou. Sem deixar pistas fugiu da minha vida.
Aos poucos, tudo ficou cinza. Primeiro o lado profissional. O emprego que se foi. As decisões erradas e nada mais restava. Só sombras de um passado. Fantasmas que se tornaram assombrações. Depois de tantas batalhas, lutas e vitórias o nada. E com isso as contas que se acumularam, as dívidas que se arrastam e a impossibilidade de comprar um alfinete sem ajuda. Aqui aconteceu a primeira das mortes: a independência.
Depois os planos. Todos empacados ou jogados fora pela falta do dinheiro. Nada ia pra frente porque sempre esbarrava na mesma nota, ou na falta de notas… sem viagens, sem cursos, sem salão de beleza. Sem tudo. Ou com nada. Houve a segunda das mortes: a esperança.
Como se isso já não bastasse faltou a vontade de se arrumar. Pentear, escovar os dentes, tomar banho, se vestir, usar perfume, passar um batom. Pra que? Ninguém iria me olhar. As roupas não ficam bem. Todas velhas, desbotadas, apertadas. Melhor ficar assim. A terceira das mortes: a auto estima.
Com as mudanças os amigos também faltaram. De visitas e saídas restaram apenas os encontros virtuais. Minha voz pouco eu ouvia. Meus dedos aprenderam a falar. Cada vez com mais rapidez e agilidade pra não perder o assunto. Sempre sem o calor humano. Sem os olhares e trocas de reações: A quarta das mortes: a verbal.
Só me sobrava uma coisa: o amor. Esse caminhava bem. Me sentia segura, desejada e amada. Tínhamos diálogo. Um bom relacionamento. Éramos companheiros. Construímos uma história juntos. Galgamos degraus, pulamos pedras, movemos montanhas e chegamos ao topo. Era perfeito.
Foi aí que constatei meu fim e minha sina. Não nasci pra ser feliz. Porque o amor também fugiu de mim. Começou com a falta de assunto. Ele foi se afastando de minha vida e não deixando que entrasse mais na sua. Nos tornamos estranhos dividindo a mesma casa. As palavras trocadas era somente sobre contas, compras e uma banalidade ou outra.
“Eu te amo” passou a ser usado em momentos de pena. E não mais de carinho. Confesso minha culpa. Comecei a me afastar também. De tantas coisas que davam errado e sem encontrar seu apoio me isolei em meu mundinho. Não conseguia mais falar e como já estava me habituando a somente digitar ficava cada vez mais fácil esquecer o som da minha voz: A quinta das mortes: a indiferença.
Ainda dormimos na mesma cama. O ninho de amor. O contato físico. A união dos corpos. Nisso sempre fomos perfeitos. Os céus ficavam próximos da terra quando nos encontrávamos. O cansaço dele me tirou isso também. Cada vez mais escassos nossos encontros de amor se tornavam. Minhas investidas eram descartadas pois o sono o embalava. E quando me procurava, me sentia suja, usada, um objeto pra aliviar suas frustrações. A sexta das mortes: me tornei um ser assexuado.
A mim não restava mais nada. Nem prazer. O peso das desilusões tomou conta de mim. As portas e janelas fechadas me sufocam cada vez mais. Não consigo mais respirar. Não consigo mais me alimentar. Todas as possibilidades de ser feliz se foram.
Essa noite não foi diferente. Estou aqui. Estava aqui. Sedenta por amor, carinho, paixão. Uma palavra de esperança. Um abraço apertado. Um beijo apaixonado. Um pouco de prazer. Fui usada. Cumpri a minha função nessa relação.
Minhas lágrimas escorrem pelo rosto. Abafo meu choro. E ele? Ele ronca ao meu lado. A mim só resta ser o mais infeliz possível e esperar pela verdadeira e derradeira ausência de tudo: A morte. E que essa me seja leve já que a vida não foi.

Apenas um dia perfeito

Fazia muito tempo que ela não olhava pro céu. Não sentia o calor do sol em seu rosto. Não percebia o canto dos passarinhos e o som suave das ondas do mar. Não enxergava as cores da vida. Muito tempo em que não percebia que existia vida ali, em seu próprio corpo. Nada de novo. Nada de diferente. Tudo igual a todos os dias de sua vida. Mas ela resolveu olhar pro céu.
Olhar pro céu, sentar na areia da praia, sentir o sol beijando seu rosto e ouvir a bela canção dos pássaros ao se despedir de mais um dia. Só isso e apenas isso fez toda a diferença. Pensou em quantas vezes passava por ali, correndo, trabalhando, indo e vindo e que nunca tinha reparado em tão bela paisagem.
Lembrou de quantas vezes ele havia convidado pra se sentarem ali. Quantas chances teve de aproveitar aquilo com ele. Todas desperdiçadas. Onde estaria? Como estaria? Sozinho? Quantos momentos felizes postos fora por uma besteira. Poderia ligar. Fingir que nada queria só pra ouvir sua voz.
O sol ia se escondendo, dando lugar pra lua que nascia mais cheia e redonda que de costume. Como nunca tinha percebido tamanha beleza? Perdeu tempo demais da vida preocupando-se com coisas superficiais e que agora não faziam o menor sentido. Devia ligar. Dizer que sentia falta. Que precisava de seu colo, de seu ombro e de seu amor.
As ondas limpavam a sua tristeza num movimento continuo de ir e vir. Massageavam seus pés, aliviando as dores de mais um dia de salto alto. Não paravam. Não desistiam. Não se cansavam. Como ela se deu o direito de desistir? Do que se cansou se sempre teve todo amor e carinho que qualquer pessoa sonha?
Afinal de onde vinha a sua amargura? Fez escolhas. Não hesitou no momento de manda-lo embora. Botou sua carreira em primeiro lugar. O que queria afinal? Perdeu tempo demais com coisas banais. Apenas um abraço lhe servia agora.
Enquanto a areia ouvia suas lamurias pensava em como se sentia no ar com ele. Como qualquer momento era perfeito. Como se esquecia dela mesma, de seus problemas e acreditava ser alguém melhor. Tudo era diferente. Mágico. Devia ligar. Mesmo que fosse pra colher o que plantou.
Fechou os olhos. Imaginou como trilha sonora os passarinhos. O reencontro. As coisas que diria. O lugar era ali mesmo. Na praia, num fim de tarde, com o sol e a lua brigando pra ver quem iluminaria mais aquele casal feliz. As ondas banhando seus pés, lavando as amarguras do passado. A areia de testemunha.
Precisava ligar. Tentar. Mesmo que fosse uma última vez. Um último encontro. Só pra falar o que não foi dito. Ouvir o que antes não quis. Sentir o que sempre deixou de lado. Mostrar o que escondeu. Amar de verdade. Pra não perder a chance de ter apenas mais um dia perfeito.
————————————
” Oh, it’s such a perfect day,
I’m glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on”
Bateu uma saudadesinha de algo que já passou e não volta. Que um dia se foi deixando um vazio grande mas as melhores lembranças possíveis. Mesmo das coisas ruins. Então num monento de total ins…PIRAÇÃO é pra vc! Pelo nosso sempre e eterno “Just a perfect day”!
———————————-

Por que é tão dificil acabar?

Um bar, bem frequentado, de uma cidade pequena. Uma mesa com 10 senhores. Eles tiram as alianças e partem pro ataque. Em outra mesa, três mulheres, a passeio na cidade trocando beijos cinematográficos, com alguns daqueles que guardaram as alianças no bolso. E isso é fato. É causo. Uma amiga presenciou a cena.
As mulheres desses senhores? Provavelmente em casa, cuidando dos filhos, preparando o jantar, esperando eles cheias de ternura, amor e prontas pra fazer uma massagem depois de um dia tão pesado de trabalho de seus cônjuges, que normalmente chegam cansados e de mal humor.
Sabe o que me deixa besta? É que esse, infelizmente, não é mais um de meus contos, inventados e imaginados com detalhes por minha mente fértil. Não. Esse é um causo real. Que aconteceu e que uma amiga viu.
Não existe justificativa. Não venham tentar me convencer de que esse senhores tem problemas em casa. Por favor nada de desculpas esfarrapadas de que eles estão tentando se separar e as mulheres ameaçam, surtam, não tem pra onde ir. Não me digam que isso é normal e que homens são assim. Não tentem me convencer de que isso não é uma indecência.
Não sou moralista. Não acredito que o casamento tenha que ser suportado mesmo que não exista mais amor, companheirismo e respeito. Claro, casei, como acho que todo mundo casa, querendo que seja pra sempre. Mas concordo com o poeta “que seja eterno enquanto dure”. Principalmente enquanto dure o respeito.
Homens assim são o que há de mais hipócrita, machista e desprezível em nossa sociedade. Não só pela traição a companheira, mas pelo fato de esconderem a aliança da nova conquista. Quer dizer, pensem comigo, eles não estão somente traindo a sua mulher ( o que já é na minha opinião é algo inominável) mas estão mentindo e traindo a si mesmos. Estão se enganando. Talvez fazendo bem pro próprio ego. E existem mulheres assim também. Sabemos de vários casos.
A questão é: Por que? Não deveria ser mais fácil, primeiro, resolver os problemas em casa e, se for o caso separar do que trair? Olha o trabalho de sustentar mentiras, vidas duplas… E a questão dos filhos? Que exemplos esse vão ter? Homens não acabam. Enrolam. Não terminam histórias. Esperam pelas mulheres. Por que é tão difícil pra eles terminarem?
O ser humano é complexo. Na maioria das vezes não se entende e dificulta sua vida ainda mais. Transforma as coisas simples em dificuldades. Interpreta os sinais do jeito que quer e sofre com o que não deveria. Tudo vira um circo e os palhaços somos nós mesmos.
Honestidade? Pra que? Passar a perna no outro é mais fácil. Culpa? Hoje existem bons remédios pra dormir sossegado. Amor? È mais rápido e fácil encontrar prazer. Em toda esquina, em qualquer bar. Mas aí a gente amadurece. Algumas pessoas se sentem pressionadas a casar. Ter uma família. E acabam fazendo todos sofrerem.
Não entendo certas coisas. E pra ser sincera prefiro nem entender. Espero que as esposas desses senhores do bar um dia descubram. Espero que um dia elas tenham coragem de sair fora e fazer com que eles sofram pelo o que jogaram fora.