O novo amor

Não dava mais pra disfarçar. Estava estampado no rosto dela. Um sorriso diferente. Um olhar mais atento, com mais brilho. Um perfume novo. Uma roupa mais sexy. Uma maquiagem sutil, que demonstrava uma preocupação com a aparência.
Depois de 20 anos de casada, ela nunca havia se recuperado do dia em que ele chegou em casa dizendo: “ Aluguei um apartamento e estou saindo de casa”. Foi um choque. Nunca imaginou que se separaria. Achava que eram felizes.
Foram cinco longos anos de depressão. Longos anos de luto. Velava o marido vivo. Acreditava na volta e cada vez que encontrava com ele pensava que era o começo de uma nova etapa. Até aquele dia.
Não tinha mais motivos pra usar preto. Sentia vontade de se maquiar, se enfeitar. Voltar a ser mulher. Não sentia mais nada por ele. Guardava em um arquivo de sua memória os bons momentos vividos. O resto tinha deletado junto com seus sentimentos por ele.
Foi por isso, ou talvez porque havia chegado a hora certa, que um novo amor aconteceu. Terno e sereno. Mais maduro, mais forte e mais selvagem que o anterior. Sentia um fogo que consumia sua pele ao sentir a presença dele.
Procurava em sua memória se alguma vez o outro, o ex, tinha despertado tamanho calor em sua carne. Não encontrava a resposta. Talvez tivesse deletado junto com o sentimento. Talvez nunca tivesse acontecido.
Era tão ingênua. Será que alguma vez amou o marido? Será que uma simples feição e compatibilidade de gênios a tivessem enganado por vinte anos? Talvez só agora estivesse conhecendo o amor de verdade.
Não importava. O que sentia a deixava feliz. O passado lhe deixava tranquila. A vida nova lhe dava esperanças, lhe trazia paz e ao mesmo tempo inquietude. Lhe dava o elixir da vida eterna. Não que antes fosse infeliz. Com o outro, o ex, apenas vivia. Ou melhor sobrevivia as coisas do dia a dia. Com o atual se consumia em paixão. Agora sim, sentia vida correndo em suas veias.
Quanto tempo desperdiçou achando que sua vida acabara com o fim do casamento. Quantas noites deixou o travesseiro empapado de lágrimas por alguém, que hoje, ela nem tinha certeza de um dia ter realmente amado.
Agora sorria. Andava pelas ruas e percebia os olhares masculinos. Gostava disso. Em outras épocas se sentiria envergonhada. Agora não. Um alvoroço passava por seu corpo cada vez que era cobiçada por um olhar.
Acordava cedo antes pra preparar o café. Agora pra se enfeitar. Tomar um longo banho, se perfumar, escolher uma bela roupa e sair pra caminhar. Sair pra viver. Entrava e sai de lojas não com o puro sentimento consumista de outrora, mas com o desejo desenfreado de sentir-se livre, bela e feliz.
Não tinha mais vergonha de rir. Entendia as piadas e acha graça de si mesmo em outros tempos. Como pode viver tantos anos assim? Aprendeu com o novo amor coisas que jamais lhe passaram pela cabeça que poderiam ser feitas. E com o outro, só aprendeu as coisas que nunca mas queria em sua vida.
Não importava se duraria pra sempre. Não interessava se amanhã terminaria. Apenas o agora, o hoje, é que fazia sentido pra ela. Somente o amor novo, não por outro homem, mas por ela mesma, que significava alguma coisa naquela vida.

Momentos

Tudo aconteceu tão rápido que Marcela nem entendeu. Foi como um suspiro, um espirro ou um piscar de olhos. Um momento apenas. Sentada no metrô, voltando pra casa, lendo um livro, como todos os dias uteis. Era apenas mais um dia de trabalho. A recém segunda feira. Tinha uma semana inteira pela frente.
A porta do metrô se abriu na estação. Um milhão de pessoas entraram. Outro milhão saíram. Marcela seguiu sentada. Sem tirar os olhos do livro. O rapaz do seu lado se levantou. Uma senhora sentou. A senhora ficou resmungando algo bem baixinho.
Marcela perdeu a concentração e resolveu prestar atenção nas lamurias da senhora. Deveria ter uns 80 anos. Estava bem vestida. Cabelos bem penteados e presos num daqueles coques de vovó. Usa um óculos grosso na ponta do nariz. E resmungava baixinho.
O ouvido de Marcela se esforçou ao máximo pra entender o que a velhinha dizia. Mas quanto mais ela tentava menos conseguia. Foi nesse momento que ouviu assim: “Marcela toma cuidado com o homem do outro lado”
Ela virou pro lado, viu o homem. Um homem bem arrumado com um jornal na mão. Voltou a virar pra senhora e lá já estava outra pessoa sentada. Olhou novamente pro homem e ele também havia sumido. Um milhão de pessoas descendo e outro milhão subindo no metrô. Não viu mais os dois.
Será que tinha imaginado? Talvez andasse tão cansada que andava delirando. Como a senhora saberia seu nome? E qual o perigo que o homem apresentava? Tentou esquecer lendo seu livro mais um pouco. Levantou. Um milhão de pessoas subindo e ela tentando descer.
Foi caminhando pra casa como todos os dias. Meio desconfiada, a todo minuto olhava pra trás. Teria ficado paranóica com a senhora? Meteu a mão na bolsa pra pegar a chave. A bolsa estava vazia. Não tinha chave, não tinha carteira, não tinha agenda, não tinha celular. Não tinha nada.

Noites de verão

Ele disse que a acompanharia até em casa. Não era longe, algumas quadras e a noite estava realmente agradável. Quente mas não insuportável. Iluminada mas não tanto. Com um leve cheiro de chuva mas não de temporal.
Fazia horas que quando os dois se olhavam faíscas saiam. Conversavam, brincavam e trocavam vários elogios. Ela estudava lá. Ele trabalhava. Agora chegava o final daquele ciclo em sua vida. Estava fazendo o vestibular e o cursinho faria parte do passado dela. Era aquela a última chance de se verem.
Ele estava indeciso. Deveria ou não? Afinal era sua aluna. Mesmo que nunca mais desse aula pra ela, sempre teria sido sua aluna. Mas estava tão linda. Um vestido curtinho, todo colorido, de alcinha. Dava pra ver bem suas curvas. Os cabelos amarrados em um coque totalmente despenteado que salientava sua nunca.
Foram caminhando. Conversando sobre as coisas mais diferentes, sem se quer se tocarem. Até que chegou a escadaria. Um beco do caminho. Estreito e escuro que parecia ter sido colocado ali propositalmente. Enquanto iam descendo as escadas, ela escorregou. Ele segurou. Pronto o mundo parou.
Da mão estendida segurando ela, o abraço. Do abraço apertado, o beijo. Do beijo quente e molhado, a chuva. Sim, aquela chuvinha de verão. Que mal molha, mas refresca. Que te dá uma sensação de alegria.
Foi assim que se amaram. Pela primeira e única vez. Na escadaria do beco, há luz da lua e com a chuva lavando suas almas. Nunca mais se viram. Nunca mais souberam notícias. E nunca esqueceram aquela noite de verão.
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Bom fim de semana! Tô indo viajar! Só não podia deixar essa ideia fugir!
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Por falar em ideia: ela perdeu ou não o acento na reforma “burrográfica”?

Um dia normal

A cama estava quentinha. Os passarinhos mal haviam começado a cantar e a luz do dia a recém lançava seus primeiros olhares sob a terra. “Mais cinco minutinhos”, ela pensou e virou pro lado.
Meia hora depois Bianca deu um pulo da cama. Aqueles cinco minutinhos viraram meia hora e tinham lhe rendido uma boa soneca e um grande atraso. Corre pro banheiro, faz xixi, escova os dentes. Volta pro quarto, abre o guarda roupa. Tira tudo do lugar. Finalmente acha algo pra vestir. Voa pra cozinha. Precisa comer algo rápido. Tem um pão dormido em cima da mesa. Sai comendo pela casa enquanto volta pro banheiro, escova os cabelos, os dentes de novo. Pronto. Só falta os sapatos. Cata eles no armário. Um perfume. A bolsa, a chave de casa. Finalmente está na rua.
Passa no jornaleiro da esquina. Seu Venâncio é um senhor bem velhinho. Tem uma banca de jornais na esquina de sua casa desde que Bianca se conhece por gente. Enquanto ela compra seu jornal diário percebe que todos estão sorrindo de uma maneira estranha. Até o seu Venâncio. Sem entender a piada, mas atrasada demais pra se preocupar, ela segue em direção à parada.
O ônibus. Lá vem ele. Não adianta correr. Não vai chegar ao ponto há tempo. ” Era o que me faltava hoje”, pensou começando a ficar irritada com seu atraso. O que restava era chegar a parada, sentar e esperar.
Começou a ler o jornal. O próximo coletivo demoraria uns vinte minutos e enquanto isso ia adiantando sua leitura matinal. Enquanto lia não percebeu que cada um que chegava ali dava uma risadinha ao olha-la.
Lá vem ele. Sobe no ônibus, aquele empurra, empurra habitual. Achou um lugar ao fundo e sentou. Mais meia hora e estaria no trabalho. A senhora do seu lado não parava de rir. ” O que será que deu nesse povo hoje?”
Desce do coletivo, caminha duas quadras. Todas as pessoas estão mais felizes hoje. Todas sorriem, riem, dão gargalhadas ao passar por ela. ” Nossa! preciso ler o jornal com mais calma… Deve ter acontecido algo muito bom…”
Pronto. Finalmente chegou. Seu chefe vai querer arrancar seu fígado. Entra no prédio, sobe no elevador. ” O mundo está mais simpático hoje ou será que sou eu que sempre estou de mal humor e não percebo?”.
As risadas a seguem. Mesmo no trabalho, as pessoas mais antipáticas hoje estão tão sorridentes. Algo esta errado. Não é possível que tanta gente mude do dia pra noite. Bianca resolve ir até o banheiro, dar uma olhada no espelho pra ver se tudo está bem.
Diante do espelho, olha, analisa, se espreme, confere. Nada de diferente. Faz uma vistoria completa. O rosto está normal, a blusa também. O zíper fechado. Não há absolutamente nada de errado com ela.
Volta pra sua mesa. Trabalha normalmente até a hora do almoço. Sai pra almoçar. O povo no restaurante também está rindo a toa. Vontade de perguntar o que é. Mas Bianca, sempre foi tímida e mesmo curiosa não pergunta pra ninguém.
A tarde parece longa. Se arrasta mas as horas passam. Mais um dia normal. Saí do escritório. Caminha duas quadras. Pega o ônibus. Caminha mais três quadras. Chega em casa. Dá comida pro gato. Vai pro quarto. Troca de blusa. Vai tirar as calças. Precisa tirar os sapatos.
Os sapatos. Um preto e outro marron. Um com fivela dourada e outro com fivela prateada. Os saltos iguais. Mas a textura, a cor e a fivela. Não tinha como alguém não perceber. só ela não enxergou o motivo de toda humanidade estar tão simpática naquele dia. Agora era tarde.

Coisas da vida

Desde o primeiro dia em que se viram Fabiana pensava: “Como pode a gente não estar juntos?”. O engraçado é que eram amigos, parceiros em todos os sentidos. Eram colegas de faculdade, faziam todos os trabalhos juntos. Conseguiram estágio no mesmo lugar. Iam e voltavam da faculdade e do estágio sempre os dois. Gostavam do mesmo tipo de música, de filme, de festa, das mesmas bebidas. Acabara, tornando-se confidentes. Mas naquele dia viraram amantes. Tudo começou numa brincadeira sem nexo de amigos dançando. Uma noite qualquer, apenas mais uma festa. Uma noite linda.
Fazia tempo que Bernardo havia terminado um namoro longo e que havia abalado suas estruturas. Procurava, na verdade, ele um grande amor. Fabiana levava sua vidinha tranquila com um casinho pacato demais para a vida dela, sempre tão agitada.
Sei lá porque de uma dança juntos, passou a ser todas. Um abraço virou um beijo envergonhado na bochecha. E do beijo envergonhado as mãos se deram e das mãos saíram labaredas que chamuscavam o corpo inteiro. O beijo ardente aconteceu naturalmente e daí a saírem juntos da festa e irem pra casa de Bernardo foi simples. O complicado foi o acordar e se encararem. O que havia acontecido? Uma noite apenas?
A duvida agora pairava no ar. Como se olhariam, como seria o próximo dia? Ambos sabiam que não existia nada mais além daquele desejo. Poderiam manter uma amizade e o desejo latente sem se machucarem ou sem um dos dois se apaixonarem? As duvidas dela eram pertinentes as dele. Precisaria-se saber quem daria o primeiro passo, quem teria coragem de dar o primeiro oi. Quem fingiria que nada aconteceu?

O moço gentil

Não dava pra fingir que nada acontecia. Estava escrito na testa dela. Seu medo exalava pelos poros e o cheiro que todos sentiam denunciava sua angustia. Estava mentindo.
Não aguentava mais esperar. sabia que em breve todos descobririam. O que ia fazer? O que poderia fazer? O que realmente dava pra fazer numa situação daquelas?
Enquanto andava pelas ruas, apressada, Verônica não conseguia pensar em outra coisa se não em seu problema. Não podia voltar pra casa, não podia ir pro escritório, não podia ir a lugar algum em que fosse conhecida. Todos sabiam que ela estava mentindo estar bem. Fazia dois dias que carregava aquela angustia.
Quanto mais o vento batia em seus cabelos mais nervosa ficava. Mais medo sentia. Deveria ir a polícia? Deveria fugir da cidade? Mas pro onde iria…
Um hotel. No caminho dela, uma espelunca melhor dizendo. Se entrasse ali poderia pensar. Analisar e quem sabe encontrar alguma solução.
O homem da recepção, um tipo esquisito com uma camisa xadrez, um palito no canto da boca, uma barriga que não deixava a camisa ser fechada embaixo e um boné azul pedia sua identidade. Deveria dar? E se estivesse sendo procurada? O que devi fazer?
Por um minuto encarou o homem sem saber o que fazer. O homem olhava intrigado e ela olhava desconfiada. Entregou a identidade e pegou a chave do quarto. Subiu. Até que o quarto não era tão ruim. Sentou na cama e ficou ali pensando em tudo que tinha acontecido.
Ele era tão doce.Tão educado. Um verdadeiro cavalheiro. Naquele dia, sentado a mesa no café da esquina de seu trabalho, sorrindo pra ela e sendo tão gentil. Assim se conheceram e passaram a se encontrar todos os dias no mesmo horário no café.
Duas semanas que se encontravam quando ele convidou ela pra sair. Ela ficou meio insegura, mas que mal havia? se falavam todos os dias e ela era tão especial. sabia tudo da vida dele, sobre sua mãe doente, seu trabalho cansativo, sua ex mulher, seus filhos. Ela aceitou o convite.
Pontualmente no horário combinado ele estava lá. Disse que tinha preparado uma grande surpresa pra ela. Verônica o achou tão lindo e aquele ramalhete de flores. Quanto romantismo. Andaram de carro pro mais ou menos uma hora quando ele estacionou no pátio de uma casa magnifica.
Entraram. Tomaram vinho. Conversaram por alguns minutos. Ele pediu licença e em seguida o pesadelo começou.
Verônica nem entendeu quando ele voltou aos gritos, com um chicote na mão mandando ela tirar a roupa e chamando de vadia. Foi muito rápido. Ele veio pra cima dela. Ela tentou se defender. Ele começou a bater nela. Ela o empurrou. Ele caiu batendo a cabeça na quina da mesa. A poça de sangue se formou no chão. Ela ficou olhando, assustada, saiu correndo.
Pensou em tomar um banho. Precisava fazer alguma coisa, mas o que? Limpa talvez pensasse melhor. Encheu a banheira da espelunca. Não era tão ruim assim. Tinha uma televisão no banheiro. Resolveu liga-la enquanto relaxava.
Plantão da globo: Foi encontrado morto o mais procurado estuprador e torturador de mulheres do Brasil. A polícia ainda não tem pistas mas muitas mulheres estão querendo saber quem é o maior herói de todos os tempos. E no fim da reportagem a foto dele.
Ele. Aquele homem tão meigo. Aquele louco. Aquele que estava estirado no chão depois do seu empurrão.
Verônica saiu da banheira, vestiu-se, pagou a conta do hotel e foi a polícia. Era o certo a fazer.

Essa tal de TPM…

Eu vi. Sei que foi assim e mesmo que todos digam ao contrário. Abafem o caso eu vi. Naquele dia a patroa acordou surtada. Em vez de levantar, tomar seu banho e se sentar a mesa pra tomar o tal do “breakfast” enquanto lia o jornal, ela simplesmente saiu só de “pegnoir“, pegou o carro e sumiu.
Voltou quase na hora do almoço, com umas manchas roxas pelo corpo, toda descabelada e com um sorriso bobo no rosto. Nem tentou disfarçar pra gente. Até o jardineiro se benzeu quando ela passou.
Me chamou no quarto. Mandou eu pegar as duas malas grandes do depósito e por todas as roupas do seu marido dentro. Depois pediu que eu fizesse uma faxina pela casa e botasse todas as coisas dele num saco preto e deixasse junto com as malas. Assim eu fiz.
Na hora do almoço, quando ele chegou, ela estava vestida de gala. Com um vestido vermelho, as costas todas de fora, sapatos de salto fino, cheia de jóias, bem maquiada e com uma cara de deboche.
Ele nem teve tempo de perguntar o que havia acontecido. Ela já estava tocando todas aqueles enfeites caros nele. É. Aqueles enfeites que ela sempre dizia pra eu ter cuidado ao tirar o pó. Esses mesmos. Todos começaram a se espatifar no chão e a virar caquinhos.
E ele fazia uma dança muito esquisita, pulando de um pé no outro e meio que cantando: ” Para amorsinho! Não foi bem assim que aconteceu…”
Do outro lado da sala ela ria. Cada peça que atirava nele dava mais satisfação nela. E cada pedido dele fazia ela rir mais ainda.
Enfim ele resolveu sair. Pegou as malas, o saco preto e ia pegando o cachorro quando ela começou a jogar os vasos de plantas nele. ” As samambaias não”. Pensei, não falei. Conheço bem aquele ditado que diz que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. E além do mais ia sobrar pra mim. Ele desistiu de pegar o cachorro. Entrou no carro e saiu chispado.
Ela se sentou. Parou de rir. Ficou olhando pro nada e pediu uma taça de champagne. Tomou de um gole só. Jogou a taça no chão e começou a chorar. Ficou ali, sentada a tarde toda chorando. depois subiu pro quarto se arrumou e saio de novo. Desça vez com calça de brim, blusa e sapatos.
Voltou já era noite. Cheia de sacolas e de ótimo humor. Servi a janta e depois ela começou a me mostrar as compras. Trouxe até uma blusa pra mim e uma lembrancinha pra cada uma das minhas crianças.
Vai entender… eu não entendi nada. Mas também não perguntei. Só sei o que eu vi e foi assim. essa gente rica é mesmo engraçada. Ou será que ela tava com essa tal de “TPM”?

O sonho acabou

E o sonho acabou. A música mudou, a vida girou, a página virou. As coisas mudaram. Passou o verão, veio às chuvas, o frio. Tudo são fases. Tem dias que o mundo desaba na sua cabeça outros ele sorri, te convidando a viver, a sentir, a rir ou chorar.
Uma história de amor, um emprego, uma viagem, uma mudança, uma arrumação, mesmo que seja do guarda roupa, trazem sentimentos, ações e reações. Não tenho muito propósito, nem assunto, nem motivo, só lágrimas fugindo dos olhos. Não sei se estou triste ou feliz, só sei que mais um sonho se acabou. Outros virão, mais fortes, mais eternos, mais apaixonados e terminarão também. Porque a vida é assim. Feita de ciclos.
Eu queria ser perfeita, agradar a todos, entender a todos, aceitar todos, mas não sou. Ninguém é.
O que me resta é chorar pelo sonho findado, me permitir sofrer por ele, ficar de luto e esperar cicatrizar. Porque tudo cicatriza. Não há dor que seja eterna. Porque depois disso eu estarei pronta pra sonhar de novo, pra lutar de novo, pra me entregar a outro sonho, um sonho melhorado, aperfeiçoado e quem sabe infinito. Como dizia o poeta infinito enquanto dure. Milhares de sonhos virão, milhares se acabarão, milhares perdurarão, alguns por toda eternidade…
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Nada de novo… Esse texto é muito antigo.
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A falta de idéias ronda minha mente no momento. Pensamentos que não consigo traduzir se fazem presentes e bloqueiam minha escrita.
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Nada que não faça parte da vida adulta.
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Espero amanhã conseguir escrever algo novo.
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Aff! Os dias continuam cinzas e agora isso já está me encomodando…

Sempre se sabe

Ela soube. E bastou ela saber pro seu coração palpitar. Uma alucinação tomou conta dela. Por que? Pra que? Há mais de dois anos que tudo havia acabado, cada um seguiu um rumo. Ela estava casada e ele namorando. A vida de ambos continuava igual ela correndo atrás de segurança e ele atrás de aventura.
Mas ela soube, soube que ele havia voltado, soube onde estava e até o número do telefone descobriu. E aquele desejo, não de ter mas de saber, de ver, voltou à tona. Obcecada. Essa era a palavra usada na terapia. O que sentia era uma obsessão, uma doença como afirmava a terapeuta. Era como um vício, que é impossível largar, se desfazer, sem ajuda e sacrifício. Assim era o desejo. Não havia forma de curar aquela doença.
Ela chorava por dentro,no fundo não queria se curar, queria estar com ele, permanecer daquela forma viciada e obcecada ao lado dele, mas sabia que a dor era dividida. Ele sentia tanta falta dela que inconscientemente se fazia presente. Por amigos vinham os recados, as notícias propositais e a pedido dele.
Mas que a ela machucavam, aumentavam a necessidade da droga, do sentimento, do desejo. Decidido. Dessa vez ela diria. Botaria um ponto final. Afinal todas as histórias precisam um dia terminar e aquela se fazia presente justamente pelo inacabado, pelo não discutido e dito tantas vezes nas intermináveis sessões de analise.
Ligou. Ele atendeu. Ela desligou. Ele sentiu um arrepio, uma euforia incontrolável. Sabia que era ela. Ligou de volta e ela atendeu. Ele disse oi. Conversaram por horas. Ela marcou o encontro. Ele topou.
Não conseguiam se olhar tremia as mãos dela, suavam as dele. Também não foi preciso falar. No momento em que os olhos se encontraram os corpos falaram. As mãos se entrelaçaram, as bocas se uniram e a comunhão das almas… Aconteceu.
Depois de tanto tempo os cheiros, os gostos, os toques eram os mesmos. Eram aqueles que a faziam suspirar, os mesmos que o faziam perder o sono, a fome, o tino. Igual. As palavras presas na garganta se soltaram como gritos, gemidos, suspiros e delírios de amor.
Não era preciso palavras, elas estavam no ar, na alma, nos corpos e nas paredes daquele quarto. Ela soube. Só havia um caminho a seguir. Ele entendeu não havia como fugir.

Boa noite Cinderela

Moreno, alto, bonito sensual. Talvez ele fosse a solução dos problemas de qualquer mulher. Só tinha um defeito: era covarde. Não conseguia levar nenhum relacionamento a sério e por isso sempre aprontava alguma coisa. Afinal, como um bom representante do sexo masculino, nunca conseguia acabar uma relação.Sempre foi assim e não tinha nenhuma desculpa esfarrapada como uma ex noiva maluca, alguma mulher que tivesse metido-lhe um par de guampas ou alguém que tentasse cortar seu mais precioso bem fora.
Todas que passavam por suas mãos sofriam. E não perdoava nenhum tipo de mulher: baixa, alta, magra, gorda, loira, morena, branca, negra ou oriental. O que passava por perto ele traçava. Traçava e depois, quando o caso ia ficando sério caia fora. Morria de medo que algumas dessas mulheres engravidasse ou só estivesse atrás de dinheiro. Por isso fez vasectomia e andava sempre como uma maloqueiro. Mas como era charmoso e sedutor, apesar de sua aparência, elas sempre caiam na sua conversa mole.
Foi pela internet que tudo mudou. Renata, uma menina loira de olhos azuis, muito bonita, com curvas perfeitas, entrou em contato com ele. Ela o seduzia a cada frase e ele ficava cada vez mais enlouquecido pra conhece-la. Todas as noites se falavam pela internet. Ele insistia que queria vê-la e ela negava-se a dar um telefone. Moravam em cidades diferentes, mas isso não fazia diferença. Rafael era capaz de ir a qualquer lugar pra conhecer aquela guria. Depois de muitas conversas e dele já estar bem envolvido um dia ela apresentou, pela internet mesmo, um amigo pra ele. A desculpa era que esse amigo tinha a mesma profissão que ele.
Rafael, que já não saia mais de casa, já não pegava mais nenhuma mulher e nem aprontava nada, ficou amigo do tal amigo dela, só pra lhe agradar. Renata vivia falando dele, de suas qualidades, de como era querido e tudo mais. Rafael ouvia mas só queria mesmo saber era de traçar a mocinha.
Chegou a oportunidade. Ele iria fazer um curso na cidade dela. Marcaram um encontro. Numa praça. Ela não apareceu. Mas seu fiel escudeiro sim. Deu uma desculpa esfarrapada pra Rafael e combinou de irem numa festa a noite, onde com certeza Renata estaria.
Rafael tomou banho, se perfumou, checou o hálito várias vezes. De hoje Renata não escaparia e ele ficaria livre da obsessão pela menina e poderia voltar a sua rotina de garanhão.
Na festa, nada de Renata, seu amigo dava desculpas de que ela chegaria a qualquer momento, enquanto os dois iam bebendo. Lá pelas tantas Rafael começou a ficar zonzo. Não diferenciava mais as imagens e nem sabia o que estava fazendo direito.
– Eu sou a Renata!
Como? Estava beijando o amigo dela. Mas ele dizia que era a Renata? O mundo apagou ao seu redor e de nada mais Rafael lembrou. Só de acordar, no outro dia, com uma enorme dor de cabeça, uma dificuldade de movimentos e ao lado do amigo dela.
Nunca mais foi o mesmo. Nunca contou o acontecido pra ninguém. Deixou de ser galinha. Casou-se e até meio broxa ficou. Anos mais tarde descobriu que tinham lhe dado, naquela noite, um “boa noite Cinderela”. E que havia caído num golpe antigo. Mas igual nunca contou pra ninguém…
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Em tempo: Depois da minha indignação em ” As pessoas tem mais que…” Olhem o vídeo desse jornalista: http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspxuf=1&contentID=59705&channel=47
Concordo em número, gênero e grau com ele!
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Tenho recebido bastantes elogios! Obrigado a todos e continuem comentando! Só assim eu sei se estou no caminho certo!!!