O nexo sem nexo do amor

Não sei bem como tudo começou. Só sei que foi assim. Num belo dia de sol, em que as nuvens insistem em bloquear o seu brilho, e a chuva faz questão de deixar as calçadas escorregadias, tudo parecia nada e o possível era impossível.


Diante de tantas disformidades e reticências, ali, do outro lado da rua, parado, andando de um lado para o outro,  estavam todos tentando entender e compreender o incompreensível significado do amor dentro do complexo mundo dos sentimentos.


Passavam horas pensando, dialogando, confabulando sobre como conceituar o que na prática ninguém sabe teorizar. E de tanto pensarem perceberam, em um segundo, que não existia possibilidade de possibilitar tal conceito que na pratica se pratica de formas diferentes e diversas únicas e ilimitadas.


E foi assim, que de uma forma sem nexo, sem sentido e totalmente organizada e sentimental, que o amor tomou forma. Uma forma deforme, complexa e simples, lógica e irracional. Inexplicavelmente explicável. Racionalmente ilógica. Como somente os portadores dessa síndrome são. E, por favor, não ascenda a luz ao sair. É na penumbra da visão que o coração enxerga melhor.

Sonhos insanos

A gente sonha com cada coisa que não tem fundamento. Sonhos eróticos, sexuais, abstratos, romanticos, terroristas, sem sentido e sem nexo. Não existe explicação para eles. E as vezes a gente fica se perguntando o que eles querem dizer.
Sonhos são apenas sonhos. Mas dependendo da intensidade eles parecem muito reais. Tão reais que as vezes ficamos em dúvida se foram apenas sonhos mesmo.
Outro dia tive uma noite assim. De realidade enquanto dormia. Quando acordei esqueci, mas bastou visualizar um dos objetos que estavam no sonho para me lembrar. E a lembrança foi tão forte que quando me lembrei fiquei obcecada pelo sonho e pelas coisas que aconteciam nele. E agora não tem jeito disso sair da  minha cabeça.
Sonhos são insanos. Não tenha duvida disso. Mas mais insano é acordar e permanecer sonhando. Ou pelo menos querer. Ou tentar a qualquer custo experimetar na vida real aquilo que aconteceu no mundo dos sonhos.

Com limão e sal

Se eu pedir com jeitinho você fica? Me faz companhia. Afasta os maus pensamentos e me promete que não deixa o bicho papão chegar perto? Se eu falar ao seu ouvido que és minha vida, meu céu, meu chão e meu mar você promete me amar e me idolatrar mesmo que eu esteja de TPM, mal humor, stressada, com fome e sono?Se eu jurar amor eterno você promete que me fará feliz, serás fiel e não me decepcionarás nunca? E se mesmo assim eu for, de alguma forma, tola, ingênua ou agressiva você promete que me perdoará?

Não devia ser assim. Porque se cobra coisas que deveriam ser naturais. Onde fica na verdade o amor, a amizade e a confiança? Não adianta olhar para trás o que já aconteceu, já passou, já foi, já era. Não volta atrás. Não rebobina e nem muda o presente. Mas pode mudar o futuro e de nada adianta palavras soltas, promessas sem reflexão e amor esmolado.
Te quero assim. Com limão e sal. Completo. Ardente quando entornado, doce quando degustado e ácido quando curtido. Assim. Simples assim. Sem promessas, sem juras, sem palavras sem significado e sem atitudes pensadas.
Deixa as promessas para lá. Deixa o amanhã para amanhã. Deixa de os pensamentos sumirem e fica aqui, junto de mim, que o resto é o resto e agora só importa nós dois. Os corpos unidos, o amor em seu formato máximo, o instinto a flor da pele e o desejo perfumando o ar.
Amanhã a gente pensa. Agora te quero assim. Com limão e sal. Completo.

Doce obsessão

A ideia de querer e não ter assombrava sua alma. Como uma criança mimada, passava dias e noites imaginando que artimanhas poderia fazer para conquistar aquele coração. Nem gostava tanto assim. Sabia que não era amor de verdade. Um flerte talvez. Um desejo quem sabe. Uma doce obsessão. De tão obcecada não percebia que outras coisas aconteciam na sua vida. Aquela conquista era um capricho. Um mimo para sua auto estima e nada tinha a ver com sentimentos. Talvez só com o sentimento de posse.

Possuir ele. Poder pensar que tinha conseguido. Sentir o sabor da conquista. O cheiro da vitória e depois relaxar. Sim. Aquele tinha virado seu único objetivo na vida e não havia um minuto se quer que ela não pensasse nisso. A crueldade de seus devaneios era tamanha. Pensava na conquista e no golpe final depois dela: o grande pé na bunda que daria nele.

Não era uma mulher fria e calculista. Era impulsiva. Agia pelo prazer. Ele era calculista e por causa disso pensava em como magoá-lo tanto como em como conquista-lo. Queria devolver o veneno que ele mesmo tinha colocado em sua corrente sanguínea. O amor não correspondido. Os olhares não retribuídos. Os beijos imaginados e não trocados. O desejo não saciado.

Não pensava em mais nada. Não queria mais nada. Só aquele coração. E ia vivendo assim. Imaginando, desejando, querendo e procurando formas de conseguir.Poder dizer que era seu. Sabia que não iria se vingar. Apenas sentir, amar e ser feliz. Até o dia em que encontrasse uma nova obsessão.

O tal do sentimento de posse

Sabe aquela coisa que a gente sente que o que é nosso é só nosso e não pode ser de mais ninguém? Então, esse é o tal do sentimento de posse. Que nós, simples seres mortais normais, carregamos conosco. E ele não tem nada haver com egoísmo. Porque egoísmo é não emprestar. Posse é ser dono de algo. Exercemos o direito a possessividade sobre várias coisas, objetos, sentimentos e pessoas.

Sua mãe é sua e você não empresta. Escova de dente também. Suas lágrimas você não divide e nem empresta de jeito nenhum. Calcinhas e cuecas deveriam seguir essa regra, mas tem gente que (eca) abre mão da possessividade. Também é por direito adquirido somente seu o namorado, marido, rolo, caso, ficante ou amizade colorida. Ninguém quer dividir, de fato, as coisas que são só suas.

Mas hoje levanto uma teoria importante sobre o sentimento de posse. Sabe aquele seu ex, problemático até o último fio de cabelo, que você dispensou e que nunca, na vida, imaginou que  seria capaz de superar o trauma da separação? De repente você encontra ele, andando no shopping, feliz da vida, empurrando um carrinho de bebe, com uma criança linda dentro e, de quebra, um mulherão, de parar o trânsito, pendurada no braço.

Para tudo que eu quero sumir! A auto estima vai lá embaixo. Fundo do poço é pouco. Você se vê abaixo dele, se é que existe. Você está casada. Feliz. Tem uma família super bacana. É uma profissional bem sucedida. Vive em todos os eventos ‘vips’ da cidade. Mas não interessa. Como um veneno que entra na corrente sanguínea e se espalha em poucos minutos por todos os órgãos e tecidos. Você está totalmente acabada por saber que ele superou o trauma do ponta pé que levou de você.

Posse. Totalmente seu. Aquele ex se deu o desfrute de sair da deprê, tocar a vida em frente e arranjar uma outra mulher. E além disso ela é gostosa, tem senso de humor e inteligente. Como ele ousou fazer isso com você? E o pé na bunda não significou nada?

Não adianta. Você vai para casa acabada. Nada é capaz de levantar seu astral. Nem as compras ajudaram. A coisa fica feia. A barra de chocolate, o pote de sorvete, os biscoitos e os litros de coca-cola são pouco para resolver o caso. Você fica se perguntando porque e como ele conseguiu se esquecer. Em que parte do fora dado não ficou bem claro. Onde foi que você errou?

Como péssima perdedora e usando todo aquele sex appeal, que sempre desperdiçamos nesses casos, você liga para ele. Como quem não quer nada. Só para contar como também está bem. Ele não dá a mínima atenção e ainda lhe dispensa rapidamente para atender a esposa ( sim ele fala esposa e você sente que ele a ama) que precisa de ajuda com a criança.

O sentimento de posse só aumenta. Você fica com aquilo na cabeça por algum tempo, pensando que não teve importância nenhuma na vida dele e que ele a trocou (detalhe que quem deu o fora foi você) por outra. Se sente a última das mulheres. Imagina como teria sido sua vida se não o tivesse dispensado. Não acredita que botou fora o melhor homem do mundo.

A sorte, de todas as mulheres, é que sempre se tem uma amiga para apoiar a  loucura. Depois de várias horas de conversa sobre como aquele canalha (sim a essa altura a culpa é toda dele) pode fazer isso com você. A amiga ( a mesma que te apóia a derrubar o cafajeste) dá a cartada final. Te lembrando como você é muito melhor do que a plastificada e bombada ( claro com certeza tudo aquilo é plástica, silicone e anfetamina) mulher dele. Então, se sentindo por cima da carne seca novamente, você desliga o telefone com a auto estima recuperada e se arruma para o jantar como se nada tivesse acontecido.

A solução dos problemas masculinos

Não havia nenhum indicio que ela me daria bola. Bem pelo contrário. Em minhas primeiras investidas, diretas, sarcásticas e apimentadas,  ela sempre tirava o corpo fora. Arranjava um jeito de me cortar ou desconversava. Mas eu não desistia.  Quando quero uma coisa sou persistente e manipulador. Talvez um pouco inconveniente muitas vezes. Mas não desisto. Só desisto quando consigo ou perde a graça.
O problema é que ela não perdia a graça nunca. Ao contrário. Cada vez aumentava mais o meu desejo e a vontade de possuir de qualquer forma aquela mulher. E aos poucos ela foi abrindo brechas e do jeito cruel e seco de me cortar passou a dar trela. Em algumas vezes se arrependia e sentia-se assustada voltando a estaca zero. Mas aquilo só me enlouquecia mais.
Não sei quando foi, mas um dia, depois de tantas insistências ela cedeu. Cedeu não seria bem a palavra, mas me deu a chance de sentar em um bar e conhecer mais do meu objeto de desejo. Foi nesse momento que a coisa piorou. Ela deixou de ser um par de lindos seios robustos e exuberantes para se tornar uma mulher com pensamentos fortes, vida decidida e lindos e profundos olhos. Uma personalidade marcante, cheia de vida ‘causos’ e prosas. Me perdi. Nas histórias, na bebida e na imensidão dos seios dela.
Não tinha hora em que eu não pensasse nela. Não havia minuto em que eu não ligasse tentando implorar pela sua companhia. A resposta era sempre a mesma: Um não bem redondo e uma risada gostosa, meio nervosa e bem caliente que só aumentava mais a minha libido.
Os dias passando, o desejo aumentando, as conversas mudando. Um clima rolando no ar. Não conseguia mais entender e, apesar de não gostar de mulheres fazidas, ela ficava me enrolando e eu adorava aquilo. Quanto mais corda eu dava, mais ela me enrolava, mais eu gostava  e sentia que a minha hora ia chegar. Cedo ou tarde ela ia se entregar.
O máximo que consegui foi um beijo. Um beijo e sentir bem de perto a temperatura, muito alta, de seu corpo.  Um beijo e o gosto da sua boca. Um beijo e o cheiro de sua pele. Um beijo e o pulsante coração que batia em seu peito tremulo. Um beijo e um sussurrar de prazer enquanto lentamente tocava seu corpo. E parou por aí. Nada mais. Nenhuma chance de leva-la para o tão sonhado colchão redondo de um motel.
Depois do beijo as coisas mudaram de lugar.  Ela disse que me queria. Que precisava viver aquela história e que o beijo não saia da cabeça dela. Depois falou do medo de se envolver, de se machucar e todos aqueles papos que só mulheres dizem e que homens não conseguem entender. Ou pelo menos fingimos que não entendemos.
Ela começou a me procurar e eu comecei a tirar o corpo fora. E confesso que ao encontra-la em algum lugar ficava nervoso e não sabia como agir. O que se passava comigo afinal? Não seria mais fácil simplesmente resolver essa história como tantas outras? Satisfazer o desejo dela e o meu?
Ela tentou. Desistiu e tentou de novo. E foi assim que ela tirou meu chão. Foi assim que ela me deixou sem saber o que pensar e com uma vontade danada de encher a cara e esquecer o mundo real.
Não consigo entender se a amo ou a odeio por isso. Me colocou na parede, falou tudo que realmente sentia e queria. E a única coisa que ela pedia era uma resposta sincera. Levei dois dias para digerir todas aquelas informações. Um surpresa extrema. Fiquei sem reação. Só consegui pensar em o quanto me senti pressionado. O quanto não esperava conhecer alguém tão sincero, real e intenso em minha vida.
Se sinto algo por ela? Óbvio e claro que sim. Visivelmente me transtorna a presença dessa mulher. Mas não consigo saber o que fazer, como reagir e de que forma agir.
Tenho medo de encara-la. Tenho medo de como essa história pode terminar. Não consigo pensar. Algo ficou inacabado. Algo que talvez nem tenha começado. Ainda não sei que respostas dar a ela. Ainda não sei o que fazer. Não sei como agir e se eu topar com ela em algum lugar não tenho a menor noção do que fazer. E por mais que eu tente as palavras dela martelam na minha cabeça e nada novo e original me surge. Nenhuma luz. Nenhuma resposta. Tenho vontade de ligar, tenho vontade de dormir. Preciso me desligar dessa história.  

Por isso, seu garçom, enche o copo mais uma vez

Essa noite sonhei com você

Essa noite sonhei com você. Era um sonho mas poderia ser real. Nós dois, sem nenhum preconceito, sem medos e vergonhas. Simplesmente juntos. Sem pensar no futuro, no depois, no dia seguinte. Apenas vivendo o momento, deixando tudo fluir naturalmente. Sem pressões. Com a leveza do amor puro e genuíno. Com a calma inocente de duas crianças e com a maturidade persistente de um homem e uma mulher. Éramos nós. Somente nós em meu sonho e não existia passado ou futuro. Somente aquele momento.
O sonho era tão real que senti seu cheiro. Senti o gosto da sua boca e por um segundo quase acreditei que era verdade. O toque da sua mão, a sua voz sussurrando em meu ouvido meias palavras que se misturavam a sua respiração ofegante e as batidas aceleradas do meu coração. Impossível aceitar que era apenas um sonho. Tão real, tão vivo, tão verdadeiro. Minha pele arrepiada ao seu toque, meus pensamentos confusos libertos, eu ali entregue a você.
Algumas pessoas acreditam que as almas se encontram enquanto dormimos. Só poderia ser isso. Tão bom te sentir perto. Me sentir tua, pelo menos por aqueles instantes do sonho. Estar ali, contigo e somente contigo. Por poucos segundos de tanta intensidade. Nós dois.
Quando acordei, ainda assustada, pensando que estavas ao meu lado, ainda sonolenta, sem entender que parte da nossa história eu não me lembrava, percebi que era apenas um sonho. Ou talvez o mais real desejo do meu ser nesse momento.

Amor a primeira vista

Quando vi pela primeira vez Laura brincando no ‘playground’ eu deveria ter uns oito anos. Ela havia recém se mudado para o prédio e, seus olhos cor de jabuticaba me conquistaram naquele momento. Eu passava os dias e as noites falando na menina nova do prédio, meus pais achavam uma gracinha um menino daquele tamanho apaixonado. Riam e contavam para os vizinhos. Até o dia em que entrei dentro de casa, todo suado da pelada com o Dé e o Cris, e vi Laura brincando com Natália, minha irmã, na sala. Minha barriga embrulhou e passei a tarde dentro do banheiro. Minha mãe ficou preocupada e me levou ao médico, que disse que isso era normal e passava com a idade. Ele tinha razão, nunca mais me tranquei no banheiro, mas ainda sinto a mesma dor todos os dias quando a vejo acordando ao meu lado.

Dé, Cris e eu tínhamos a mesma idade. Éramos colegas de aula, vizinhos e melhores amigos. Do outro lado do nosso sexteto estavam as meninas, que povoavam nossos sonhos mais perturbadores e faziam com que nossos dias tivessem mais cor e sentindo: Natália, Laura e Giovana. Natália era minha irmã. Laura a menina nova do prédio e a Gio era irmã do Dé.

Éramos seis, seis amigos, irmãos, companheiros de aventuras infantis e descobertas juvenis. Botávamos fogo no prédio, fazíamos o sol sair nos dias de chuva e o dia amanhecer mais rápido nos finais de semana de acampamento. Assim a vida correu e a infância passou intensamente de uma forma tão saudável, que mal notamos que nossos interesses estavam mudando. As brincadeiras de pegar deram lugar as de verdade e conseqüência, as fitas vídeo game cederam espaço para os vinis e as horas jogadas passaram a ser horas dançadas. Os acampamentos permaneceram, não mais com a ingenuidade infantil e sim com a malícia juvenil, e foi neles que fizemos nossas maiores descobertas sobre a vida adulta, amor, sexo e amizade.

Os acampamentos sempre eram momentos nossos. Longe dos pais e dos olhares atentos dos seguranças e vigias, podíamos experimentar sensações e realizar descobertas que faziam a diferença na volta para casa. Foi num desses acampamentos que pedi a Laura em namoro. Os olhos dela brilhantes, seu sorriso largo de canto a canto irradiaram uma luz em seu rosto que eu nunca tinha visto.

E a resposta foi mais do que meu coração podia prever: “achei que você nunca ia pedir”. Ela encostou a boca na minha e senti pela primeira vez o gosto doce de seus lábios. Um arrepio percorrendo a espinha e minhas mãos suando frio. Só percebi o momento em que ela saiu correndo, com as bochechas coradas gritando para minha irmã e para a Gio que estávamos namorando. E as três juntas pulavam e comemoravam.

Chegando em casa Laura contou aos seus pais, que acharam uma gracinha no inicio, mas depois botaram vários obstáculos para os acampamentos seguintes. Estávamos na época de descobertas, tudo era muito saudável e permissivo enquanto éramos crianças e amigos, no momento que crescemos e passaram a nos enxergar como adolescentes, meus pais e os dela, passaram a impor limites, e maldades, nos nossos programas. Eu tinha 15 anos e Laura treze.

Foram nossos pais que despertaram nossa sexualidade e desejos. Nosso namoro, antes, não passava de andar de mãos dadas, abraços e ‘selinhos’ na porta de casa antes de ir dormir. Em minha cabeça não se passavam coisas como passar a mão nela, dar beijo de língua, transar ou dormir junto nos acampamentos. Muito pelo contrário, eu respeitava a Laura, pensava nela como algo intocável, que de tanto amor jamais poderia ser desrespeitada. E mesmo que eu tivesse quinze anos, não pensava em sexo e nem em outras meninas. No meu mundo, nos meus sonhos só existia Laura.

De tantos conselhos que meu pai e minha mãe me davam sobre como se namora e o que eu poderia fazer ou não com ela, meus desejos e anseios foram ficando cada vez mais fortes. Passei a sonhar com Laura beijando todo meu corpo, com ela se despindo para mim e pedindo que eu a possuísse. Sonhos que me davam medo e faziam eu acordar melado, como todo garoto cheio de hormônios que se preze. Se meus pais soubessem o que despertaram em mim…

Enquanto eu pedia conselhos aos meus amigos, que tinham menos experiência que eu, Laura pedia conselhos às meninas, que como meus amigos não sabiam nada da vida, pois os pais dela também falavam sobre como uma mocinha deveria se comportar, enfatizando as “coisas” que ela não devia fazer. Pois eram essas “coisas” que Laura mais queria fazer.

Assim passamos os primeiros seis meses de nossa vida juntos. Desejando o que nossos pais falavam que não podia ser feito porque ainda era muito cedo e nos comportando como deveríamos. Foi ela que deu o primeiro passo.

Estávamos acampando. Ela chegou perto de mim. Eu estava sozinho na volta da fogueira, estava frio e a lua fazia questão de iluminar pouco, apesar de estar redonda e cheia no céu. Laura me abraçou e ficou ao meu lado olhando as labaredas incandescentes do fogo, sem falar absolutamente nada. Notei que suas mãos estavam tremendo e que seu sorriso tinha algo de duvida e vergonha.

Não tive tempo nem de perguntar, quando virei o rosto ela já encostava sua boca doce na minha. Não como os ‘selinhos’ costumeiros, com paixão, força, desejo muito medo. Senti, de repente, sua língua adentrando em minha boca e pedindo que a minha percorresse a sua. Senti meu corpo vibrar, o desejo do proibido aumentar e se misturar com a vontade de conhecer cada detalhe de seu corpo. Sem perceber minha mão, tocou seu rosto e do rosto desceu para o pescoço, para os braços, para as pernas, conhecendo e sentindo cada detalhe daquela menina, daquele ser mágico que me fazia ter dor de barriga desde os oito anos.

O Cris chegou correndo e no susto paramos. Nos olhamos com aquele olhar de satisfação e culpa e ela sem graça e corada saiu correndo, sorrindo e, entrou na barraca da Gio. Naquela noite dormi sorrindo. Não poderia haver pecado num ato de amor, não podia haver nada de errado no que havíamos feito, afinal foi lindo.

Ao acordar no dia seguinte, Laura havia mudado. Continuava sendo a garotinha linda dos olhos jabuticaba, mas agora parecia uma mulher, uma mulher que eu desejava com toda a força do universo e que me olhava com outros olhos também. Eu só conseguia imaginar quando eu ia tocá-la novamente, quando a beijaria daquela forma de novo e me preocupava se ela também estava sentindo toda aquela vontade que eu.

Minhas angustias logo se desmancharam, bastou eu chegar perto dela que o beijo aconteceu naturalmente, com a mesma intensidade, mas sem detalhes, afinal todos estavam olhando. Foi assim que nosso romance começou a esquentar e os meus sonhos a ficarem mais apimentados.

Com tantas emoções foi natural começar a falar de sexo. Estávamos namorando há dois anos e Laura sentia-se preparada para aquele passo, que ela mesma dizia ser o mais importante de sua vida. Mais uma vez a iniciativa partiu dela.

Organizou tudo. O acampamento. A saída de todos pra uma trilha pra que nós dois ficássemos sozinhos. Ela me chamou pra deitar um pouquinho na barraca. Começou a me beijar com toda aquela vontade, calor e amor. Foi juntando cada vez mais seu corpo no meu., deixando suas mãos passearem pelo meu corpo e pedindo que as minhas fizessem o mesmo. Começou a tirar minha roupa e exigia que eu tirasse seu vestido.

Assim, dessa forma, me pegando de surpresa, nossos corpos se uniram e tornaram-se um só pela primeira vez. Nossos suores se misturavam enquanto fazíamos juras de amor eterno. A barraca de repente ficou com um perfume diferente e nossos corpos, ali, nus, adormeceram extasiados de paixão e ternura

O engraçado é que mesmo depois de 15 anos casado com Laura. Ainda sinto o mesmo perfume todas as vezes que nos amamos. Percebo o mesmo brilho em seus olhos e continuo venerando-a como a primeira vez. Aprendi a controlar a dor de barriga. Mas não enxergo um dia da minha vida sem ela. Sem seu amor, seu sorriso e sua companhia.

O melhor presente do mundo

Mais um dia dos namorados sozinha. “É só uma data comercial”, pensou ela enquanto caminhava para casa e reparava as pessoas andando na rua. Algumas com presentes nas mãos. Flores, caixas de bombons, embrulhos, cartões. Pessoas que falavam ao telefone com emoção, com voz de criança e cheias de risinhos bobos. Outros andavam cabisbaixos, chateados, como se estivessem numa depressão profunda.

Não tinha nenhum programa especial para aquele dia. Afinal, não tinha namorado. Também não queria ficar em casa pensando nos por quês de todos os anos estar sozinha nessa data. Parecia sina. Era só ir chegando o mês de junho que ou ela terminava um romance, ou eles lhe davam um pé na bunda.

Ligou pra uma amiga solteira. Em depressão. Tentou a segunda: chorava. Desistiu da terceira e resolveu ir sozinha ao cinema. Ela não era a única pessoa só naquele dia e com certeza outros solteiros também pensariam em ir ao cinema.

Chegou em casa. Tomou banho, jantou e pegou o encarte do jornal. Olhou os filmes anunciados. Nem pensar em assistir comédias românticas. Escolheu um filme de suspense. Se arrumou e foi.

No shopping todos se amavam. Eram casais pra todos os lados. Olhando vitrines, escolhendo presentes, jantando nas praças de alimentação. “Só porque é dia dos namorados toda essa gente se ama. Amanhã voltam a se matar, a terem discussões, a serem pessoas normais”, não conseguia parar de pensar como era incrível o que uma data causava nas pessoas.

Na fila do cinema nada de diferente. Uma enorme pra assistir as comédias românticas. Só casais. Todos melosos e cheios de amor pra dar. Outra fila menor. Só solteiros pra olhar o filme que ela mesma tinha escolhido. Reparou que o número de homens na fila era maior que o de mulheres. “Sim… Eles nunca ligam pra essas coisas mesmo. Pra eles tanto faz passar o dia dos namorados sozinhos. Mulheres é que são sensíveis demais e sofrem com isso. Como eu queria ter menos hormônios femininos”.

Comprou pipoca, refrigerante e umas balinhas. Escolheu um bom lugar, na parte superior da sala, e se sentou esperando a sessão inciar. Reparou nas pessoas que entravam na sala. Poucos casais. Muitos solteiros. Poucas mulheres, muitos homens. Alguns em bando. Foi um desses bandos que sentou em sua fileira.

O filme era melhor do que ela realmente esperava. Esqueceu do dia dos namorados e se concentrou no filme. Ali parecia que o mundo voltava ao normal. Que não existia na rua milhares de casais fazendo juras de amor eterno. De repente algo começou a chamar sua atenção. O menino ao seu lado não parava de olha-la. E quando ela virava o rosto, ele, rapidamente, virava pro outro lado.

Na saída do cinema ele chegou pertinho dela. Tentou puxar papo: “Gostou do filme?”. Ela ignorou a conversa e continuou andando. Pensou um pouco no que estava fazendo. O que teria a perder? Nunca tinha passado o dia dos namorados com alguém e talvez essa fosse sua chance. Desacelerou o passo. Esperou que ele se aproximasse novamente e respondeu : “adorei e você?”.

Começaram a conversar. Bater papo. Resolveram tomar uma cerveja juntos. Riram das teorias sobre o dia. Falaram da vida, profissões, relacionamentos, coisas sem nexo e sentimentos. Ele convidou pra esticarem numa danceteria. Ela topou.

Depois do cinema, do bar e da festa voltou pra casa apaixonada. Não tinha um namorado, ainda, mas sentia que um novo amor começava a surgir em sua vida. Foi seu primeiro dia dos namorados acompanhada. Foi a primeira vez que sentiu que valia a pena estar com alguém naquele dia. E ganhou o melhor presente de todos do mundo: o amor.

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Bem antiguinho esse… Mas tá valendo… Entrando em férias daqui a 20 minutos!!!

Primeiro amor…

Que o mundo é pequeno e dá voltas todo mundo sabe. Mas ela confirmou essa teoria naquele dia. O namorado novo da melhor amiga, ali, na frente dela, falando que o primo era o primeiro amor dela.

– Bah, eu tive um colega na escola, na quarta série, com o teu sobrenome, o Lucas…

– Tu estudou no Sagrado, né?

– É…

– É o meu primo. Mora do lado da minha casa.

Foi o primeiro amor dela. Na quarta série. A primeira vez que ela sentiu dor de barriga por um menino. O primeiro fora. A primeira frustração e as primeiras lágrimas de desilusão. Sim, com dez anos. Ela gostava dele e ele gostava da outra colega. Ela namorava ele, mas ele óbvio não sabia. E ele namorava a outra colega que, logicamente, também não sabia. Tudo assim. Lindo e platônico. Bem como são as paixões infantis.

Acabaram marcando um churrasco na casa do namorado da melhor amiga para ela encontrar o ex coleguinha. Iriam dar risada daquela coincidência. Eram adultos agora. Maduros. Fazia dez anos e eles já sabiam o que era o amor de verdade. Com a sabedoria dos vinte anos iria ser legal o reencontro. Além do mais, ela havia tido várias experiências amorosas, e ele, provavelmente, também. Estava solteira, mas não tinha como se apaixonar de novo por ele. Então por que estava tão nervosa?

Levou horas no banho. Depois mais horas para escolher a roupa certa. Um churrasco entre amigos. Poucos amigos. Não era uma festa. Tirou o pretinho básico, colocou uma calça de brim e um moletom. Tirou o moletom e colocou uma blusa com decote ousado. Trocou o tênis por um sapato de salto. Tirou o salto e colocou uma sandália. Maquiou-se. Prendeu os cabelos. Soltou.

Chegou ao churrasco com as pernas tremendo. Ele ainda não havia chegado, o que de certa maneira foi um conforto. Afinal, teria tempo para beber alguma coisa e se soltar um pouco. Enquanto conversava com sua amiga nem percebeu a chegada dele. Ou viu aquele cara entrando e nem se deu conta que poderia ser ele.

Todo sujo de lama, fedendo a bosta de cavalo e com umas roupas surradas. O namorado da amiga a chamou. Meio sem graça, chegou perto do indigente, e percebeu que era seu primeiro amor. Ele deu um sorriso largo, daqueles gostosos e descontraídos e disse que ia tomar um banho para poder dar um abraço nela. “Melhor assim”, ela pensou.

Depois de meia hora ele voltou. Lindo. Um príncipe. Os anos só tinham feito bem a ele. Um homem alto, com um porte atlético, cabelos dourados, lisos e olhos azuis da cor do mar. Nada parecido com o indigente que tinha aparecido antes e muito melhor do que a lembrança da infância. E o abraço fez as pernas dela bambearem igual vara verde.

Tudo o que ele falava encantava ela. Estava estudando veterinária e criava cavalos. Tinha se atrasado em função do parto de uma égua. Contou algumas aventuras e peripécias da vida e falaram horas sobre os tempos de escola. No fim do churrasco trocaram telefones e combinaram um passeio à fazenda no fim de semana. E ela chegou em casa sentindo a mesma dor de barriga da quarta série.

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Tô começando bem 2010 tentando manter a promessa de escrever, pelo menos, três vezes por semana, por aqui.

Esse conto é antigo. Usei em alguns concursos mas ele não foi premiado. Então agora já posso postar.

Um excelente 2010!!!