E se fosse amor?

Eu ainda penso todos os dias naquele exato segundo em que ela virou as costas e fechou a porta. Não consigo saber porque de todas as recordações que eu poderia lembrar, quando penso nela, é essa a imagem que salta em meus olhos. E após algumas lágrimas insistirem em derramar, escorrendo pelo meu rosto, as palavras dela ainda me cortam como um machado bem afiado em um tronco centenário. “Você não sabe o que é amor. Não sabe amar”. E se fosse amor o que eu sentia? 
Se fosse amor o que eu sentia eu não teria a deixado partir? Se fosse amor o que existia ela saberia? Se fosse amor o que acontecia eu saberia? E se ainda é amor? Quem disse que todas as pessoas amam da mesma forma? Quem pode me garantir que não era amor? Quem falou para ela que eu não a amava só porque não mandava flores ou não lembrava a data que nos conhecemos? Por que eu teria que escrever bilhetes românticos, sem nem ao menos saber escrever?
Se fosse amor eu teria sempre um sorriso bobo quando a via chegando, toda atrapalhada entre chaves, bolsas e sacolas, tirando os sapatos de bico fino antes mesmo de abrir totalmente a porta e conseguir entrar em casa. Eu tinha esse sorriso.
Se fosse amor eu riria de suas piadas sem graça, de suas caretas estranhas, de suas manias tolas, de seu jeito estabanado quando tudo escapava de suas mãos e um grito ecoava pela casa “Merda! Desculpa, desculpa, desculpa”. Eu ria tanto.
Se fosse amor eu contaria ansioso as horas pra receber seus telefones a noite em suas viagens de trabalho. Contaria nervoso os dias que faltavam para ela retornar para casa. Esperaria sofrendo cada minuto de atraso do pouso apenas para abraça-la e conferir que realmente ela estava de volta. Eu contei todos os segundos longe.
Foi amor. Mas não foi suficiente pra ela. É amor e sinto sua falta todos os dias. Eu só não sei como provar pra ela que mesmo sem flores, bilhetes ou declarações espalhafatosas nas redes sociais eu sempre a amei. Ela que não percebeu, que esperou um amor de cinema quando na vida real os gestos são bem mais sutis e o amor está em pequenos detalhes.

Virou rotina

Todo dia antes de dormir eu penso no marido da minha prima. Calma! Não é nada do que a sua mente poluída imaginou. Acontece que o marido da minha prima até admitia que ela fosse dormir sem tomar (principalmente no inverno da serra gaúcha onde eles moram e as temperaturas ficam muito baixas) mas ele jamais admitiria ela na cama sem lavar os pés. 
Aqui em Manaus o calor é absurdo. Tem épocas do ano que é tão abafado que nem um banho gelado abaixa a nossa temperatura corporal. Por isso sempre que a gente está em casa está à vontade com roupas leves e confortáveis (pra não dizer praticamente pelados) e de pés descalços. Pelos pés descalços, sempre antes de dormir eu lavo os pés e aí lembro do marido da prima dizendo que os pés tem que estar limpinhos e macios pra poderem se encontrar a noite. 

O engraçado é que isso virou um ritual, mesmo que eu tenha tomado banho a pouco e os pés estejam limpos. Parece que se eu não passar uma água neles não vou conseguir dormir.  E me dando conta disso comecei a observar quanto rituais e costumes colocamos em nossa rotina sem nem nos darmos conta e fazemos disso algo mecânico, automático e que funcionam de gatilhos. 
Por exemplo, eu acordo de manhã, tomo café, medito, me exercito por 20 minutos, preparo um chimarrão e sento no computador para trabalhar. Outro dia acabou a erva e eu simplesmente não consegui trabalhar. Perdi o foco, a concentração e não teve santo que me botasse no rumo. Sair e comprar erva pra fazer o mate e aí engrenar o dia também não resolveu, pelo simples fato de que eu já tinha quebrado a tradição. Eu não sou movida a chimarrão. Poderia muito bem ter feito a minha manhã render como qualquer outro dia. Mas ao invés disso eu usei a falta do chimarrão para procrastinar (já falei desse péssimo hábito aqui).
A mesma coisa ocorre quando eu não lavo os pés antes de dormir. Eu não consigo relaxar e pegar no sono até levantar da cama, lavar os pés e aí poder dormir feliz. Mas que diabo que uma poeirinha no pé pode influenciar o sono de alguém? O fato é que eu criei um gatilho, uma sensação de bem estar pra poder dormir e sem aquele momento todo o resto desanda. 
Quantos gatilhos a gente cria, quantas armadilhas montamos para nós mesmos, para nos confortar dos problemas que temos. Quantas vezes deixamos de fazer algo importante porque não temos a nossa bengala emocional. Você já deixou de ir a uma festa se divertir porque a roupa que você tinha idealizado para aquele momento não ficou tão bem no espelho quanto na sua imaginação? Com certeza já. Agora você realmente acredita que se tivesse ido a festa com qualquer outro traje alguém ia perceber e na festa não aconteceria exatamente a mesma coisa que iria acontecer se você fosse com a roupa que idealizou?
E assim vamos criando as nossas prisões, colocando cada grade que nos torna dependente de algo para que tudo dê certo em nossas vidas. O dia que eu tiver que escrever um texto fodástico eu irei escrever, com ou sem o meu chimarrão. Ou sem qualquer um dos outros rituais que faço todas as manhãs. As coisas acontecem quando têm que acontecer, independente do que a gente faça. 
A gente reclama tanto da rotina e das coisas amarradas da vida, mas não percebe que quem cria elas e se aprisiona somos nós mesmos. A gente quer liberdade, mas não nos damos o direito de acordar mais tarde, não meditar, não tomar o mesmo café da manhã. E se eu acordar com vontade de comer manga com leite ao invés de pão integral com requeijão? E se eu não estiver a fim de ligar o computador, responder os e-mails e depois produzir? Se eu apenas quiser acordar e passar o dia vendo séries? 

De vez em quando a gente precisa quebrar as regras, mudar a rotina, dormir quando o sol nasce e acordar na metade da tarde. Ficar de pijama o dia inteiro e só comer bobagens. Nem que seja pra gente se sentir livre, vivo e dono do nosso destino. Pra no outro dia voltar à rotina e começar tudo de novo outra vez.

Dar um tempo

– A gente precisa dar um tempo…

Foi tudo que eu consegui escutar e fiquei pensando que merda aquilo poderia significar. O que ela estava tentando dizer? Ela queria um tempo exatamente do que? Porque eu não entendia como alguém pudesse querer um tempo da gente, da nossa química, dos inesgotáveis momentos de êxtase que estávamos vivendo.
Puta que pariu! Enquanto ela falava sobre um tempo e como seria bom pros dois eu só pensava nela, deitada nua na minha cama, com os olhos arregalados, vibrando cada vez que eu deslizava a mão entre suas pernas e sentia o calor do seu ventre. Eu tentava me concentrar naquela parte da conversa, mas tudo que eu lembrava era do seu quadril arqueando, suas pernas me encaixando e me puxando para dentro dela.  Será que só para mim a gente era algo tão incrível assim?
E quanto mais ela falava que precisava de um tempo, de focar na sua vida, de ter tempo para os amigos, mais eu pensava em como convenceria ela a deixar de lado aquela ideia boba. 
Quando a gente se conheceu foi muito diferente do que qualquer outra garota que já havia passado pela minha vida. Não era só tesão. Era uma conexão. Sabe quando algo se encaixa tão perfeitamente que nada mais pode desgrudar aquelas duas peças? Foi assim com a gente. No momento que os nossos olhos se cruzarem eu soube que a gente seria perfeito em todos os sentidos. Mas ela estava tirando o sentido agora e insistia em desencaixar as peças ajustadas. 
-Eu não acredito em dar um tempo. Já usei essa desculpa mil vezes quando queria me livrar de alguém. Pelo menos tenha piedade de mim e me dê uma despedida condizente com toda esse sinergia que temos.
Eu joguei baixo, sujo, eu sei. Mas eu precisava mostrar pra ela que um tempo jamais nos faria bem. Ela refutou a ideia é continuava dizendo que eu não entendia, não percebia, não queria enxergar como a gente estava se fazendo mal. Agora virou pecado ter tanta sintonia com alguém? Ela tentou sair da sala, mas eu não podia deixar. 
Quando eu segurei o seu braço, num gesto desesperado como quem pede socorro, a eletricidade entre nós entrou em curto. Então ela virou, nossos olhares se encontraram e eu a puxei pro meu perto. E como queimou, ardeu sentir seu rosto enfiado em meu peito. Ela não queria me abraçar, tentou relatar, se livrar de mim, como se eu pudesse lhe fazer mal, mas por fim não resistiu. E eu a envolvi com mais força, segurei sua nuca e beijei sua boca como se eu pudesse me afogar sem o seu fôlego. Se fosse para terminar que pelo menos fosse com uma despedida.
Eu sentia que ela relutava, contra ela mesma, contra seus medo e anseios. Sentia que ela queria mais aquilo do que ir embora, que ela, assim como eu, sabia, que a gente era perfeito um para o outro. E de repente, como num sussurro,  nossas almas se misturaram. E foram tantas palavras de amor e paixão, tantos pedidos para que durasse a eternidade aquele momento, tantas orações para que nunca acabasse, que somente quando vi seu rosto se retorcendo de prazer é que entendi que de nada aquele momento adiantaria pois ela estava obcecada por me afastar. E assim ela fez, me deixando para fora de sua vida, me excluindo de seus pensamentos, me matando um pouco a cada dia. E da nossa perfeição só resistiram as lembranças na minha alma. 

Ausências

De repente você voltou como se nunca tivesse ido. Chegou me abraçando e beijando minha testa com carinho. Confesso que fiquei constrangida, diante dos olhares de amigos que não entenderam nada. Você enlaçou minha cintura com suas mãos e saímos caminhando. Meu corpo inteiro ardia ao toque do seu. Minha alma implorava por um rompante de paz e minha mente só se perguntava “como assim?”.
Você foi embora sem nenhuma explicação, sem motivo, sem demonstrar ou explicar absolutamente nada. Simplesmente foi. Levei tempo demais para aceitar que seria assim. Então você apenas volta e me segura como se nunca tivesse partido. Não fala nada, não demonstra nada, só me segura e me leva com você.

E eu continuo sem entender o que eu nunca decifrei. Sinto a pressão de sua mão na minha cintura, seu perfume tão próximo me embriagando e só quero perguntar porque. Mas as palavras estão presas na minha garganta, por mais que eu tente elas não se soltam. Como se ao liberta-las eu pudesse de alguma forma fazer você sumir novamente.
Mas não fazia sentido. Não tinha lógica você chegar ali como se tivéssemos marcado um encontro e me abraçar e me beijar como se tivéssemos acordado abraçados na noite anterior. As coisas ficaram confusas e chegamos a frente de casa e alguém telefonou para você. E como se eu não estivesse em seu braço você combinou que “logo estaria lá”. Como assim? Você iria me deixar novamente? Porque voltou agora que eu já estava acostumada a sua ausência? Por que não falava comigo e me explicava ou apenas dizia que me amava?
E você me puxou para mais perto do seu corpo, me envolveu em seus braços, segurou minha nuca e me beijou. Com tanta paixão, tanta saudades, tanto tesão, que meu corpo inteiro se arrepiou e eu só conseguia pensar que aquele era o momento perfeito para o mundo inteiro acabar, porque não importava mais nada na vida a não ser estar com você. E no meio de tantos sentimentos confusos e quentes o despertador tocou e eu acordei com a sensação de que você realmente tinha me visitado essa noite.

Depressão pós parto na machete do jornal

No meio da noite o telefone parecia anunciar a tragédia. Demorou alguns minutos até que ela entendesse que estava tocando aflitamente. Seu coração disparou pensando no que poderia ser. De tantas coisas que passaram em sua cabeça, entre os segundos que levantou da cama e correu até a sala, nada se comparava ao que acabava de ouvir. 
– Estou vivendo com ele há um ano e meio e cansei dessa história. Por isso estou lhe ligando.
Desligou o telefone e espiou o berço de sua filha. A menina, recém nascida, ainda não completará um mês de vida. “Um ano e meio” ressoava em sua cabeça como um sino. Obviamente ele não estava em casa. Mais uma vez tinha lhe dado uma desculpa, que ela sempre acreditava, para não estar ali. Então, como se alguém a sacudisse entendeu: um ano e meio que ele dava desculpas, que estava sempre atarefado, viajando, trabalhando e ausente. Um ano e meio que ele a traía. Como não desconfiou de nada. 

Esperou ele chegar em casa no outro dia. Ele disse que tinha acabado tudo com a outra que viveria com ela e que a reconquistaria. Ela acreditou. Mas ele continuou ausente. Então, num dos dias que ele não voltou, criou coragem e foi atrás dele no serviço. Ao chegar lá, todos a olhavam com cara desconfiada. Até que alguém lhe disse “mas ele acabou de sair daqui com a esposa”. Ela voltou pra casa, tentando fingir que havia sido um engano. Apenas um colega de serviço distraído que se confundiu. Mas no fundo, mesmo não querendo acreditar, sabia que ele estava com a outra. 
Mais uma vez resolveu perdoar. Ele dizia que a outra o havia procurado e só saíram para conversar. Apesar dele só ter chegado em casa no outro dia a tarde, ela entendia que essas conversas poderiam ser bem complicadas e longas. Então a outra bateu em sua porta. Com um sorriso malicioso, uma criança um pouco maior que sua filha nos braços e outra na barriga. E ela, ficou tão espantada, que a deixou entrar. Ele disse que os filhos não era dele, que a outra era puta, tinha muitos amantes e ela acreditou. A outra disse que ele queria largar ela, mas tinha pena por ela ser assim, tão inocente, e que por isso ainda continuava com ela. E ele continuou ausente, a outra continuou a frequentar sua casa e até deixava a criança para ela cuidar enquanto precisava conversar com ele trancada no quarto.  
Até que um dia, ela não lembra exatamente como tudo aconteceu até a polícia chegar. Lembra-se da faca em sua mão enquanto preparava o almoço. Lembra-se de ouvir a outra gemendo de prazer e rindo, lembra-se de abrir a porta do quarto onde eles estavam, lembra-se da cara de pavor da outra enquanto rastejava para sair da casa. Lembra-se de estar segurando o coração do marido na mão e do gosto que tinha tanto sangue em seu rosto. E da polícia. Na capa do jornal sensacionalista da cidade estava uma foto dela coberta de sangue, algemada e com o coração dele na mão. A machete dizia “Mulher com depressão pós parto arranca coração do marido e mata amante”.

A onda perfeita

Quando eu tinha 12 anos fui passar as primeiras férias de inverno na cidade em que meu pai estava morando. Uma cidade muito pequena, com menos de 20 mil habitantes, cercada de água e onde tudo remetia a outro século. Meu pai morava na praia, que ficava 7km do centro, por uma longa estrada de areia. A gente não ia muito pra cidade e poucas pessoas moravam na praia. O movimento era quase zero naquela época do ano ali. 

Então eu conheci um menino. Ele se apresentava como Joca. Não sei qual era o nome dele de verdade, pois nomes e sobrenomes eram apenas rótulos e, naquela época, importava apenas os que a gente se intitulava. Ele era um menino quieto, 15 anos, cabelos longos, tinha um rosto lindo e um sorriso triste. Olhos que tinham uma profundeza e ao mesmo tempo uma opacidade sem vida. Não consigo lembrar a cor dos olhos dele mais. Não sei dizer se eram azuis, verdes ou castanhos. Só me lembro de nunca ter visto olhos tão sem vida. Pelo menos em um adolescente. Ele não tinha amigos, não tinha namoradas e morava sozinho em uma casa, na praia ao lado, que talvez nem fosse dele ou da família. Ninguém visitava ele e ele não visitava ninguém. 
Enquanto eu passava os dias lendo e escrevendo nas minhas agendas, ele passava os dias surfando. Queria pegar a onda perfeita. E quando ele saia da água, ficamos conversando, na beira da praia, enrolados em cobertores até a hora que desse fome ou sono. Então cada um ia pra sua casa. A gente tinha histórias parecidas. Pais divorciados, embora os deles tivessem se separado recentemente e os meus eram separados desde que eu me conhecia por gente. Pai que tinha ido morar em outra cidade. Mães que não nos compreendiam (pelo menos na época era o que a gente pensava) e com quem a gente brigava muito. 
Eu estava ali passando umas férias, eles estava ali eternizado. Com um único objetivo: a onda perfeita. Todos os dias ele perguntava se eu achava que o dia seguinte seria o dia. O dia da onda perfeita. E eu, no auge da minha grande maturidade dos doze anos, respondia que com certeza. E perguntava pra ele o que significava a onda perfeita e ele sempre respondia: um novo começo. Eu só nunca tinha entendido o que a onda perfeita realmente significava pra ele. Até hoje. 
A onda perfeita do Joca aconteceu no dia 01 de agosto de 1992 por volta das 14 horas da tarde. Eu só o vi boiando, entre as pedras, as 15:30, quando me sentei pra ler “A marca de uma lágrima” na guarita desativada. Não sei o que se passou exatamente depois disso, pois os fatos são confusos nas minhas lembranças. Mas o Joca se foi. Morreu afogado. “Foi acidente”, as pessoas da praia falavam. “Uma fatalidade”.
As minhas férias acabaram. As aulas retomaram e eu guardei o Joca por alguns anos em meu coração. Depois ele foi pra uma caixinha de recordações que ficou esquecida em algum canto da minha memória. Confesso que eu nunca parei pra questionar ou não se havia sido realmente um acidente. Bloqueei da minha memória. Até hoje. Até ler um livro incrível que fez todo sentido pra mim. E então o Joca voltou. Com seu sorriso triste e meu medo de que a culpa tinha sido minha. Se eu tivesse ido para praia mais cedo, se eu tivesse entendido o que era a onda perfeita… Mas hoje, quando revi seu sorriso triste, em minhas memórias, eu entendi: o novo começo que ele buscava ele encontrou. Não foi acidente. Não foi fatalidade. Foi a onda perfeita que ele buscava todos os dias no mar. Aquele foi o dia que ele escolheu e a culpa não era minha. 

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No divã

– O que eu faço, Doutor?
Minha voz ecoava pela sala enquanto eu analisava pela milésima vez as rachaduras do teto daquele consultório. A resposta vinha como eco:

– O que você quer fazer?
Respirei fundo. O que eu quero fazer? O que eu quero fazer? Eu quero dizer que meus pais não pagam 200 pila por cada consulta para eu vir aqui e você simplesmente responder minhas perguntas com outras perguntas. E eu venho aqui duas vezes por semana há quase um ano e até hoje eu nunca sai de uma consulta com alguma resposta. Eu quero dizer que com o dinheiro que eu te dou de presente todo mês você deveria, pelo menos, pintar o teto e trocar esse sofá horrível que está com as molas saltando. Se o sofá fosse mais confortável quem sabe durante esses 45 minutos eu tiraria um cochilo e pouparia nós dois dessa baboseira e cansativa farsa de que você está me ajudando e eu melhorando. Pensei tudo isso. Mas respondi apenas ” não sei”. E a resposta que eu tive foi 
– Nos vemos na quinta.
Sim. Mais uma sessão havia acabado e eu sai do mesmo jeito que entrei naquele consultório pela primeira vez a cerca de 11 meses atrás. Sem saber o que fazer. Eu não sou um menino problemático, pelo menos a maioria dos pais dariam graças a Deus por ter um filho como eu. Quieto, estudioso, sem vícios, caseiro e sem namoradas. Mas os meus pais não. Eles acham que eu tenho problemas.
Eles não poderiam ter um filho assim. Minha mãe a garota mais popular do ensino médio. Meu pai o cara mais encrenqueiro. Como? Como eles teriam um filho como eu? Não dava para aceitar. Uma vez ouvi minha mãe falando que eu só poderia ter sido trocado na maternidade. Eu sei que eles me amam, que querem p melhor pra mim, que eu tenha amigos, namoradas e histórias para contar depois aos meus filhos. Meu pai repete isso sempre ” como você vai ensinar seus filhos se não viver agora”. Mas gente, eu gosto da minha vida assim. 
Eu tenho 16 anos, estou indo para o último ano da escola e quero fazer faculdade de direito. Serei desembargador um dia. E que mal tem isso? Quando eu terminar a faculdade e começar a trabalhar, vou conhecer uma garota e me casar com ela. Mas meus pais não aceitam. Eles acham que eu já deveria ter conhecido uma garota e fazer direito? Com um pai jornalista é uma mãe publicitária? ” não é possível que esse menino não tenha nenhuma criatividade”, eles repetem. 
Então, por isso eu comecei a frequentar o consultório do Doutor Chibata. (Isso é nome de psiquiatra que se preze?). A intenção dos meus pais era que com a terapia eu passasse a ser “normal” e frequentasse festas, fizesse amigos, tivesse namoradas e largasse os livros. Eles nem se importariam se eu repetisse de ano, para fazer festas.
Eu juro que eu tentei. Juro! Mas quando os meninos começavam a ficar embriagados e as meninas a chamar a atenção desesperadamente, meu estômago embolou. Mesmo sem ter tomado nenhum copo da tal batidinha do capeta. Não era para mim. Tentei fazer amizade com os outros considerados esquisitos da escola. Mas era tão deprimente a situação deles, pois eles eram esquisitos, excluídos e não se aceitavam. Passavam o tempo todo falando dos ditos normais. Eram derrotados. Eu não sou derrotado. Eu não sou esquisito. Eu sou normal. Só tenho gostos diferentes da maioria dos jovens. Eu tenho amigos, mais velhos, que compartilham comigo conhecimentos. 
A pergunta do Doutor Chibata respondendo a minha pergunta, voltou a minha mente “O que você quer fazer?” E de repente a pergunta ficou tão clara e óbvia na minha mente. Eu quero ser eu!

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Bem feito…

Hoje aconteceu um fato com uma pessoa que me fez pensar “bem feito”. Eu sei, é errado. Peço perdão a Deus por isso e me penitencio. Mas fala sério?! Você nunca,  por um minuto, viu uma pessoa que te ferrou de alguma forma se ferrar e não pensou isso também? Somos humanos. Pessoas que guardam sentimentos, que carregam cicatrizes e que já foram atingidas por raios e trovões de tempestades que nem estavam na sua janela.
Eu não quero ser assim. Não quero pensar assim. Já fui muito de comprar briga que nem era minha, de me meter em histórias que eu não tinha nada a ver. De estender a mão para quem nunca tinha me dito um oi e me ferrar. Hoje eu sou mais da turma do “deixa disso”, essa treta não é minha ou do “deixa que digam, que falem, deixa isso pra lá, o que é que tem?”.
Nunca fui de guardar rancor. Não sou de querer cobrar das outras pessoas que elas tenham a mesma atitude que eu. Não espero que os outros façam o que eu faria. Não penso em ajudar o outro esperando algo em troca.  Mas as vezes, só as vezes, eu penso sim “bem feito”. E não consigo parar de pensar nisso.
O castigo vem a galope. De um jeito ou de outro a gente sempre fica pensando nisso, quando alguém que te fez o mal sofre algum mal. Um pensamento egoísta, eu sei. Serve de consolo, ou pelo menos, parece que de alguma forma, você foi vingada. Vingança é um prato que se come frio. Mas ele pode ser bem saboroso e doce como um sorvete. Ainda mais quando você não move um dedo para que isso aconteça. Parece baunilha com chocolate.
Não. Eu não quero ser assim. Eu nem quero saber o que de fato aconteceu. Eu nem quero que essa pessoa se ferre. Ao contrário. Desejo para ela toda a felicidade do mundo. Ainda mais se for bem longe de mim e para que nunca mais me enxergue. Desejo que sua vida seja plena, feliz, doce e maravilhosa. Para que assim esqueça toda a sua amargura e não precise descontar em mais ninguém sua infelicidade. Mas que foi bem feito, foi.
Eu quero ser uma pessoa melhor, que um dia possa se compadecer de pessoas como ela também. Mas neste momento eu peço a Deus que tenha piedade dela e de mim. Dela pelo que aconteceu. De mim por pensar “bem feito”.

A nossa sala de estar

Quando dói fundo no peito a tua ausência me encerro na sala de estar de minha memória e de lá acompanho um vídeo de nossos momentos felizes. Revejo cenas várias vezes seguidas. De trás para frente. De frente para trás. Não me canso. Fico por ali ouvindo nossos diálogos sem pé nem cabeça. Repito as frases feitas, que na tua voz eram perfeitas. Escuto tuas canções e declarações. Procuro os arquivos de texto e releio todas as cartas de amor. Lembro de cada detalhe do teu corpo, como um filme em 3D sinto teu toque, percebo as vibrações do ambiente e recorro ao olfato para me embriagar com teu cheiro.


Na sala de estar da minha memória só existe eu e suas lembranças. Todas arquivadas. Vez ou outra assisto uma de nossas brigas e dou risadas sonoras lembrando dos motivos bobos de cada uma delas. As vezes, consigo sentir o gosto dos teus lábios. Em outras sinto o peso do teu corpo. Consigo até ficar vermelha revendo cenas nossas de amor. Está tudo ali, catalogado, com datas, sentimentos, cheiros e gostos. Em uma ordem absurdamente desordenada que sem sentido nenhum faz todo sentido para mim.


Não sei porque você se foi. Não entendo dos planos divinos. Não conheço as regras do jogo. Fiquei com as lembranças. Me contento com elas. Aguardo o momento do acerto de contas e do nosso encontro pacientemente. Enquanto isso, sobrevivo, na sala de estar de minha memória. Essa sala que permite nossos reencontros. Este lugar tão meu que se tornou sua morada. Um pequeno espaço, iluminado com luzes mágicas, cheio de livros com nossas histórias e com aquele sofá, o nosso preferido. 


Sei onde você está. Por que basta eu entrar na sala de estar para te encontrar. Só não sei porque você somente está lá. Você acabou sumindo em seu mundo ou neste mundo e de alguma forma nunca mais se encontrou. Se perdeu em planos, ideias e vidas que de nada acrescentaram em uma vida real. Assim, você partiu, indo embora, cedo demais. E agora vive somente na nossa sala de estar.

A história de nós dois

Gosto do teu sorriso quando ilumina a casa e deixa a noite estrelada. Gosto das tuas lágrimas que regam as flores e trazem esperança de vida. Gosto do teu olhar que me acaricia e reflete meus anseios. Gosto da tua voz que me embala pela dança da vida e traduz em palavras sentimentos. Gosto do teu beijo que me adoça a boca e me faz delirar. Gosto do teu cheiro que se mistura aos aromas naturais do mundo e exala orgulho de se ser o que é. Gosto do teu jeito que me alegra os dias e que seduz de longe.Gosto do teu sexo que me faz ver estrelas e até sussurrar.


Eu gosto porque gosto. Sem motivos, explicações ou respostas aparentes. Gosto porque vai além dos meus sentidos, dos meus anseios e desejos. Gosto assim. De uma forma simples e complexa que me permite sorrir, chorar, entender e ser feliz.


Não é tua presença que faz a diferença. É tua distância. Não é aqui ao meu lado. É de longe que percebo a falta que me fazes. E mesmo que o tempo, Senhor de Tudo, insista em tentar provar ao contrário é ele, sagaz e rápido, que me mostra que eu gosto porque gosto.


Se as vezes um segundo parece uma eternidade ao mesmo tempo uma década parece um suspiro. Foi ontem ou foi hoje? É agora ou amanhã. Não importa. Tanto faz. Eu gosto igual. Com a mesma forma, intensidade e calor.E se gosto porque gosto, gosto mais porque não me é permitido escolher. São coisas que vem do coração. Começam não sei como, vem não de onde e se instalam não sei porque. Apenas eu gosto porque gosto.


Assim é a história de nós dois. Sem perguntas ou respostas. Sem explicações ou enrolações. Sem mistérios ou dúvidas. Sem espaço ou brechas para a distância pois foi ela que sempre nos fortaleceu e ensinou. E se tudo pode o tempo, e se dele somos reféns, porque não. Eu gosto porque eu gosto. Simples assim. Franco assim. Mesmo que o segundo dure a eternidade e a década dure um suspiro.