Teu nome

Eu não posso gritar teu nome. Não alto e muito menos baixo.  Não consigo pronuncia-lo. As sílabas, que juntas formam como te chamam os outros, são um som profano saído da minha boca. Te chamarei de amor, príncipe, rei ou lindo… mas jamais pelo teu nome.

Grita-lo quando tuas mãos tocam minha pele ou teus lábios envolvem os meus é sacrilégio em minhas orações. Se na minha garganta fica presa essa palavra, que designa quem tu és, ela ali permanece abafada e ruidosa sem forças pra sair. Teu nome não é só teu. E eu não fui só tua. Antes de ti outro teve este nome.

Não preciso explicar. O que é passado é passado e esse não deve ser revelado. Entenda apenas que as letras que dão som a forma como fostes batizado são as mesmas que embalaram minhas lágrimas em tempos remotos.

Guardo essas mesmas letras tatuadas em minha carne. Para lembrar-me do outro. Da dor de sua partida, da fragilidade de uma vida. Da desilusão de um amor interrompido. Não me arrependo, mas não me peça que te chame por este nome. Eu não sou capaz de pronuncia-lo.

Na voz dos outros teu nome soa como música aos meus ouvidos. Na minha voz ele carrega a amargura de outras histórias. Tuas letras ficam lindas quando desenhadas por outras mãos. Nas minhas elas se tornam borradas.

Será possível que o destino me reservou amar novamente um mesmo nome de pessoas tão iguais e diferentes? Será que um dia conseguirei pronunciar outra vez esse teu nome sem que sinta o peso de tudo que já se passou? Não sei. No momento não sou capaz de dizer em voz alta, que o nome que tanto me aflige, hoje me consola.

Talvez um dia eu te chame, num momento de luxuria e de entrega, sem que pareça que eu estou chamando o outro, o antes de ti, que até hoje, mesmo contigo, parece que foi o único.

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As aventuras do Comandante Pedro

A hora do dia preferida do Pedro era a de dormir. Era naquele momento17 que ele vivia suas aventuras incríveis e depois pegava no sono cansado de tantas emoções.

– Para onde iremos hoje, Comandante Pedro?

O papai perguntava enquanto se preparava para embarcar na cama avião ao lado do Comandante.

– Hoje nós vamos para a lua, papai! Ouvi falar que ela é um queijo! Quero saber o seu sabor!

Pedro ligou os motores do avião e anunciou:

– Atenção senhores passageiros, nosso destino de hoje é a lua! Apertem os cintos porque iremos subir muito alto e teremos muitas turbulências!

O avião mal havia decolado e o Comandante Pedro teve que fazer um pouso forçado em uma nuvem para resgatar o Seu Raposo, que estava pendurado na asa do avião. Seu Raposo, nunca era convidado para as aventuras do Pedro com o papai, mas sempre dava um jeito de participar.

– Seu Raposo, o que você faz ai? – Comandante Pedro estava bravo de ter que fazer aquela parada em sua viagem.

– Eu queria conhecer a lua e você não me convidou, então peguei carona na asa do avião.

– Arranje um lugar para sentar e aperte os cintos! Vamos subir muito alto!

Ao decolar da nuvem, o comandante percebeu que havia mais alguém lhes acompanhando. Uma criatura bem pequenininha, que parecia demais com um boneco de neve gordinho, só que verde. E tinha umas antenas engraçadas. A criaturinha sorria para Pedro e ficava fazendo piruetas ao lado do avião.

Antes de chegaram a lua, o avião passou por uma porção de estrelas brilhantes e sorridentes. Todas abanavam alegremente para os passageiros do avião e ficavam mais iluminadas quando Pedro, papai ou o Seu Raposo abanavam de volta.

– Comandante Pedro! Comandante Pedro! Venha me conhecer melhor! Pouse seu avião aqui na minha constelação! – Uma estrela grande, gritava chamando.

– Você me conhece de onde? – Perguntou Pedro estranhando a intimidade da estrela e ela saber seu nome.

– Toda noite eu observo suas aventuras e seu sono. Estou sempre aqui no céu e você as vezes olha para mim e me faz um pedido.

– Você é a Sirius? Onde está sua irmã? – Comandante Pedro perguntou empolgado a estrela.

– Sou Sirius A ! Minha irmã Sirius B está aqui ao lado, venha lhe conhecer também!

Pedro e papai haviam pesquisado no google sobre Sirius. Toda a noite antes de se preparar para suas aventuras, Pedro dava boa noite as estrelas e ficava observando como aquela grande estrela brilhava e se destacava das outras no céu. Descobririam que ela se chamava Sirius e que na verdade eram duas estrelas irmãs, uma maior e uma menor, que juntas se destacavam na constelação do Cão Maior. Constelação é um conjunto de estrelas. Pedro também descobriu isso quando pesquisou na internet.

Quando os passageiros desembarcaram na constelação do Cão Maior, por ordem do Comandante Pedro, Sirius A, começou a mostrar todas as amigas que moravam por ali. Papai ficou impressionado com a cor de Sirius, que era de um branco azulado que ele nunca tinha visto igual. E Seu Raposo, gostou mesmo de ficar brincando com os meteoros que passeavam pela constelação. Ficaram brincando de pegar, enquanto o Comandante Pedro ouvia atentamente as histórias do céu que Sirius contava.

– Eu sou a estrela mais próxima do planeta Terra, Comandante Pedro. Por isso você me vê tão intensamente. Muitos estudiosos acreditam que eu tenha mais uma irmã, mas não descobrimos ainda quem ela seja. Estou pesquisando.

Comandante Pedro começou a ficar cansado depois que caminhou por toda a constelação do Cão Maior. Então despediu-se das estrelas, abraçou Sirius e agradeceu o passeio.

– Senhores Passageiros! Hora de ocupar seus assentos no nosso avião! Ainda temos que chegar ao nosso destino. A Lua!

Todos embarcaram no avião e apertaram os cintos de segurança. Mas o Comandante Pedro começou a ficar com muito sono e a bocejar. Papai então percebeu e disse:

– Vivemos muitas aventuras hoje conhecendo Sirius e a constelação do Cão Maior. Não acha que devemos voltar para nossa casa e deixar a viagem para a lua pra outra noite?

Comandante Pedro concordou. Queria ir para a lua com mais energia para brincar bastante e descobrir se realmente tinha gosto de queijo.

– Isso mesmo, papai! Vamos retornar para casa!

O pouso em casa foi tranquilo. Pedro estava encantado de conhecer Sirius pessoalmente. Correu até a janela e abanou para sua nova amiga. Voltou para a cama, abraçou o Seu Raposo e quando papai lhe tapou e deu um beijo de boa noite Pedro, entre bocejos e esfregar de olhos, falou:

– Boa noite, papai! Amanhã vamos à Lua!

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Esse conto foi finalista do concurso Pérolas da Literatura 2016.

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Semente da Esperança

Meu corpo inteiro doí. Não é a primeira vez, mas eu tentei que fosse a última. Agora, alem da carne que lateja a alma sente o peso da humilhação. Apanhar era uma humilhação que eu estava acostumada. Não fazia mais a alma gemer. Eu sentia na pele, cicatrizava as feridas e seguia em frente. A alma sangrando, desse jeito, depois de não ter a mão estendida… essa humilhação… não sara.

Eu acreditava que ele ia mudar. Do fundo do meu coração, as flores, os bombons e os carinhos, pareciam compensar cada mão estampada em meu rosto. Ele queria o meu bem. Cuidava de mim e se perdia a cabeça era porque eu me comportava mal. Papai e mamãe sempre disseram que eu era uma menina má. Assanhada, alegre demais, sem gostar de dar satisfação ou abaixar a cabeça para qualquer coisa.

“A vida vai lhe dar um corretivo se você seguir desse jeito, minha filha!”

Como a vida não tem mãos ela colocou em meu caminho ele para que pudesse cumprir suas promessas de me tornar uma pessoa melhor. Foram tantos mimos, elogios e carinho que eu me apaixonei. Sempre galanteador, limpo e educado ele parecia o príncipe de qualquer conto de fadas. E eu que nem acreditava nessa baboseira de final feliz, aceitei, com um sonoro “eu te amo” para sempre meu destino.

Os primeiros corretivos da vida eram verbais. Não use essa roupa. Não saia com a Fulana. Não olhe para o lado. Não converse com o entregador da padaria. Não. Não. Não. Eu até achava bonitinho, um ciúmes bobinho, inocente e que me parecia ser amor.

Minhas amigas, amigos, família, diziam que aquilo estava errado e eu jurava que todos estavam com inveja. Afinal, quem havia de ter tanta sorte como eu de conhecer um príncipe que me amava e cuidava de mim. Proteção era zelo, era amor.

No dia que a mão se estatelou em meu rosto, ela foi acompanhada de um “desculpa, perdi a cabeça” e mil carinhos. No dia que um punho fechado quebrou meu nariz, foi acompanhado de um “te amo”e a promessa de nunca mais acontecer. No dia em que eu não quis sexo e ele se enfiou em mim me rasgando inteira foi acompanhado de um “você é a melhor mulher do mundo”. Não foi estupro, ele é meu marido. Eu disse não, mas ele tem direitos sobre mim.

Perdi as contas de quantas vezes eu disse não. De quantas vezes ele forçou sua entrada entre minhas pernas. De quantas vezes eu chorei depois porque doía. De quantas vezes mãos estamparam meu rosto, punhos deixaram marcas roxas e meus braços foram sacudidos empurrando todo meu corpo contra o chão. Mas era meu corretivo. Papai havia me avisado que a vida se encarregaria. Quem mandava eu ser uma menina má?

Meu sangue não desceu e os dois tracinhos no palito comprado na farmácia e mergulhado na urina em um banheiro sujo e fétido indicavam o que eu tinha medo: Havia uma semente do meu corretivo dentro de mim. Ele não queria plantar. Eu sabia disso, havia me avisado muitas vezes, das formas mais diversas, inclusive quando me disse que puta como eu não podia por criança no mundo, não tinha como educar um filho e que se um dia isso acontecesse a vida acabaria pra mim.

Eu sempre quis ser mãe. Ele tinha me feito perder a vontade. Mas agora, agora a semente estava ali. E como eu um passe de mágica eu descobri o que era amor. Porque foi só os dois tracinhos despontarem rosados no palito mijado que um sentimento novo tomou conta de mim. Não haveria mais corretivos, mãos estampadas ou roxos pela carne. Não haveria mais violações do meu ventre e aquela sementinha seria só minha.

O que dói é que entrei na delegacia. Aquela que me disseram ser especializada para mulheres como eu. Um homem, vestido de calça jeans e camiseta, barba por fazer e sem o menor tipo de compaixão pelo ser humano, me olhou dos pés a cabeça. Perguntou o que eu queria. Expliquei. Do jeito que eu pude, do jeito que deu. Agora todos os corretivos me pareciam tão errados que meus olhos não seguravam a enxurrada que deles brotavam e minha boca não continha os inúmeros soluços e gemidos abafados ao longo de tantos anos.

– Você apanha há 5 anos e agora quer denunciar? – O homem que deveria me proteger disparou uma sonora gargalhada e me aconselhou. – Volta pra casa, faz as pazes com teu marido e respeita ele. – Virou de costas e saiu, sem me ouvir.

Eu não podia voltar pra casa. Minha sementinha não merecia crescer assim. Ou não ter chance de nascer. Eu não tinha dinheiro, não tinha onde morar, já não tinha amigos e meus pais não me aceitariam de volta. Eles acreditavam que meu marido era um homem bom, que só estava me ensinando o que eles não conseguiram. Agora eu sabia. Aquilo não era ensinamento ou corretivo. Era violência, era estupro, era abuso. E eu não merecia.

Em frente a delegacia, sem saber o que fazer, pensando em como aquele homem pode rir da minha cara e sentindo fundo na alma o desespero de não ter ajuda onde deveria haver conforto, um anjo estende a mão.

– Você precisa de alguma coisa?

Seu sorriso era materno. Suas cicatrizes indicavam que havia passado perto do inferno como eu e sua mão um papel estendido em minha direção.

“Você pode estar confusa agora, mas sim, isso é violência contra a mulher! Somos muitas e podemos nos ajudar…”

Abracei o anjo. E o sorriso preso em minhas estranhas se fez em meu rosto. E em algum lugar encontrei esperanças.

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Este conto fará parte da Antologia “Isso também é preconceito!” Organizada por mim e pela Gislaine Oliveira. Em breve tem novidades sobre esse trabalho!

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O último luau

A noite estava clara, na beira da praia, a lua cheia, redonda e brilhante, refletia nas ondas serenas do mar, que chegavam até os meus pés e lavavam minha alma. Olhei para eles, sentados na areia, rindo, bebendo as últimas long necks no bico.
O fogo, acesso de forma improvisada, com alguns gravetos encontrados perdidos nas dunas, iluminava cada um dos rostos e eu senti uma melancolia de tudo que não veria mais depois daquela noite.
Não era eles que estavam mudando. Era eu. Eu havia feito minhas escolhas e, provavelmente, a parte mais difícil era deixar eles para trás.  Eu voltaria, haveriam outros luais, mas seria igual?  Depois de deixa-los, nos reencontros, talvez anuais, teríamos a mesma sintonia?
Aquele luau era minha despedida. E eu os observava com carinho. Cada um dos rostos que me sorria feliz. Eles estavam empolgados. Eu desvendaria um mundo novo. E seria possível faze-lo sem eles por perto?
Não haveriam mais luas cheias a beira do mar, nem fogueiras improvisadas nas rotinas da minha vida. Não teria mais os luais para conversar, brincar de dividir com eles. Seria noites em um quarto com paredes frias. Dividiria minhas histórias com uma cama de segunda mão, um guarda roupa e uma escrivaninha velha.  Onde ficariam as risadas? Os banhos de mar a meia noite? Os rostos emoldurados pelo fogo cheio de sorrisos?
Escuto eles cantando e volto dos meus devaneios. Se a partida é inevitável, o último luau será inesquecível, para que eu encontre as forças que preciso nas memórias quando a solidão bater e eu acredite que as escolhas tenham sido erradas. Mesmo sabendo que não foram.
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Visita Surpresa

Depois que eu fechei a porta, ainda em estado de choque, não acreditei que ele estava ali.  Seu olhar tão doce e pronto pra me seduzir, me dizia que eu deveria ter batido com a porta na sua cara, sem deixa-lo entrar. Sua voz rouca, meio falhada e quase sussurrada dizendo “surpresa” fez com que meu corpo inteiro estremecesse.
Por que ele não avisou que viria?  Depois de tanto tempo, eu começando a me sentir livre ele reaparece. E a única coisa que eu consigo pensar é que  é impossível resistir a ele. Aos seus braços, seus beijos, seus sorrisos e suas ladainhas que me convencem de coisas que eu não quero acreditar.
Tal e qual um vício que  é quase impossível largar. Que é difícil de superar. Que me embriaga e alucina. Me deixa totalmente fora de mim.  Eu não sabia que ele viria. Se soubesse, talvez tivesse organizado minha casa e meu corpo para recebe-lo. Ou teria fugido para não cair em tentação normalmente.
Eu não entendo sua volta. Não sei porque insiste em voltar depois de tanto tempo. Não consigo aceitar essa sua indecisão em saber se vai ou se fica. Mas me entrego ao seu jogo, me deixo cair em seus braços e sei que depois a abstinência irá doer.
Ele chegou de surpresa, mais uma vez.  Veio me visitar como em tantas outras noites. E eu o deixei entrar. E mesmo que seja somente em meus sonhos, mesmo que eu sabia que eu preciso superar, ele ainda está por aqui, dentro de mim, me fazendo lembrar que eu ainda o amo.
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Esse conto foi baseado na música “Eu não entendo sua volta” da banda gaúcha Nenhum de Nós.
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Dona do meu tempo

Tic, tac, tic, tac, tic, tac… A folha em branco me encara. Totalmente alheia ao barulho do relógio que intensifica a minha ansiedade. Os segundos vão passando. Cada tic tac, é um segundo a menos. Uma palavra não escrita, uma frase não dita. Um tempo perdido.

Eu encaro com perseverança. Tento fingir que não escuto o seu barulho constante. Penso em tira-lo da parede ou arrancar-lhe as pilhas.  A folha em branco continua me olhando, afirmando que estou perdendo meu tempo. O que eu poderia fazer se não houvesse essa folha em branco em minha vida?
Mas e não é, de certa maneira, a vida uma imenso livro em branco em que cada amanhecer escrevemos novas páginas? Não seriam os ponteiros dos relógios nossos cronômetros diários que ditam o ritmo e findam a página? O tic tac se torna mais audível e enquanto me perco em pensamentos ele parece me desafiar. A folha segue em branco, o sol  dispara seus raios e convida pra vida. Sobre o que eu deveria estar escrevendo? Histórias de amor mal contadas, amores inacabados, contos de fada que não são reais?
O relógio segue me ditando o tempo. Meu tempo está se esgotando. Eu precisaria de mais segundos nessa vida desavisada para realizar todos os sonhos. Me torno escrava do tempo, quando deveria ele ser meu súdito fiel. De que me adianta seu desespero veloz em passar se não sou capaz de dizer como devo usa-lo? A folha em branco me persegue, igual ao constante movimento dos ponteiros do relógio. Não existe lógica. Apenas seu movimento. E eu… eu quero ser dona do meu tempo.

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Amor de Verão

Último dia de praia. O verão estava acabando.  O retorno para casa era inevitável. As aulas começariam, meus pais voltavam a trabalhar e a rotina que fazia com que o ano fosse enrolado e vagoroso iria retomar seu lugar em minha vida, me deixando mais uma vez, coberta pela sensação de vazio.

Só que esse ano o vazio seria maior. Alem da saudades da vida sem rotina, dos dias mais compridos e ensolarados, da brisa do mar e dos amigos da praia eu me consumia pensando que eu morreria sem ele.  Meu primeiro amor correspondido. Meu amor de verão.
Minha mãe passou as férias falando que era pra eu não me envolver muito. Que paixões de verão não subiam a serra e só serviam pra fazer a gente sofrer.  Mas se o preço a pagar por todos os dias felizes era o sofrimento eterno, eu pagaria.
Eu sabia que quando acabasse as férias, nosso namoro acabaria também. Eu morava em uma cidade e ele em outra. Eu estava indo para o primeiro ano do ensino médio e ele pra faculdade.  A gente teria outras experiências, outras histórias para viver e nada seria como nosso verão.  Ainda assim, eu queria me apegar a possibilidade de viver aquele amor a distancia e esperar os outros 10 meses do ano passar para reencontra-lo novamente.
Nos encontramos no final do dia, como em todos os outros dias do verão, desde que nos conhecemos, na pracinha. Tomamos um sorvete. Ficamos namorando, nos beijando e curtindo cada segundo que a gente podia. Ele quase não falou. Eu queria falar de todos os sonhos que tinha, mas me sentia uma menina boba, acreditando em contos de fadas.
Ele me levou até o portão de casa e me deu um último beijo. Mais demorado, mais carinhoso, mais doído. Uma lágrima insistiu eu saltar do meu olho. Filha única, sem pai, perdida na imensidão da minha tristeza e no vazio que aquele beijo já me provocava. Ele a amparou com um dedo carinhoso, sorrindo com um olhar triste. Não podíamos fazer promessas que não cumpriríamos. Um amor de verão. Com data para término, um promessa velada de um talvez no próximo ano e a certeza de que a vida continuaria apesar de tudo.  Eu entrei pelo portão, e fiquei observando ele se afastando. Cabeça baixa, mãos no bolso da bermuda, andar lento. Estava petrificada olhando a distância cada vez maior que seu corpo tomava do meu. Ele se virou, nossos olhos se cruzaram. Um beijo foi jogado ao ar, um sorriso iluminou a noite e eu soube, que nada faria ele deixar de ser o meu primeiro amor.

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Resoluções de Ano Novo

Enquanto olhava para o mar com o sol se pondo, pensava em todas as minhas resoluções de ano novo. Eram as mesmas que fiz nos 5 anos anteriores e nunca cumpria. Por que eu insistia se no fundo eu sabia que não iria fazê-las mais uma vez? Já era o segundo dia do ano, no primeiro a recuperação da ressaca, que eu tinha prometido a meia noite da virada que não teria, havia me impedido. E no segundo dia? A minha preguiça. Ela era crônica. Um empecilho que eu mesma colocava em minha vida e deixava que tomasse conta. Um eterno procrastinar sem motivos, apenas para que depois a culpa me consumisse.

A praia, ainda lotada, eram uma das resoluções. Me mudar em definitivo. Sentir a paz e tranquilidade, não daqueles dias de festas e verão, que o mar me trazia. Viver na praia,  inverno e verão. Desfrutar dos peixes, dos frutos do mar, da calmaria da vida de uma região de férias.  Acordar cedo, caminhar na areia,  me alimentar de forma mais saudável, dar valor as coisas simples e de quebra trabalhar menos e melhor.  Eu podia, eu precisava, mas eu adiava.
Quem sabe eu não poderia encontrar um novo amor?  Tantas pessoas soltas por aí, procurando algo diferente. Impossível que só eu tivesse o dedo podre na vida.  Morar na praia era um sonho. Ou a promessa de um novo começo. O que eu realmente estava esperando pra isso?
Meus pensamentos se perdiam e quanto mais o sol se escondia, mais vazia as areias ficavam e mais decidida eu estava  que, esse ano, de um jeito ou de outro, eu iria cumprir as minhas resoluções.  Talvez nem voltasse para a cidade. Bastava uns telefonemas, organizar umas coisas. Um caminhão de frete e pronto.  Por lá eu poderia ficar. Pra sempre. Criar minhas raízes, minhas histórias e viver novas aventuras. De que adiantava adiar os sonhos? E se amanhã eu não estivesse mais aqui para vivê-los? Era definitivo. Não voltaria pra não ter a chance de adiar, mais uma vez, meus planos.
Em meio a todos os meus devaneios, uma agitação nas ondas me chamou a atenção. As pessoas, que esvaziam a praia, começaram a regressar, aglomerando-se na beira do mar. Algo ruim havia acontecido, algo péssimo, por sinal. Afinal, o ser humano tem um doença chamada curiosidade mórbida.  Eu não queria ver. Não queria saber. Aquela cena não seria capaz de me tirar a decisão que eu havia tomado.  Mesmo assim, meus pés não me obedeceram e em poucos segundos eu me via, estirada na areia, com pessoas ao meu redor, algumas com a cara assustada, enquanto um homem, com braços fortes e colete salva vidas, me fazia respiração boca a boca e massagem cardíaca. Tudo ficou preto, os pensamentos confusos e quando abri os olhos, um sorriso tomou conta da minha visão.  Não existia mais dúvidas. Esse ano eu cumpriria as minhas resoluções e como uma segunda chance de vida, quem sabe de quebra aquele sorriso não poderia virar um novo amor.
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Positivo

– EU NÃO SEI! – Susana respondeu aos gritos, enquanto dos seus olhos jorravam lágrimas.
– Porra Susana! Como você não sabe? Algo tão simples de responder e você me diz que não sabe fazendo todo esse drama?
– Eu não sei Augusto. Por favor, vamos parar com isso. Eu não consigo lembrar.
– Susana… – Augusto deu um suspiro profundo em busca de paciência – Você precisa se lembrar onde colocou. Precisamos resolver isso o quanto antes. Quer que eu saia e compre outro?

– Qual a diferença para você? Você já decidiu o que fazer. Então nem deveria mais estar aqui. – Com fogo nos olhos Susana olhou para Augusto e para a porta do quarto.
– Nós vamos decidir juntos, já conversamos sobre isso. Apenas me diga onde está!
– Eu realmente não sei. Sai do banheiro e você chegou. Não consigo saber onde coloquei.
– Você disse que ia me esperar para fazermos isso juntos. Por que não esperou? Me parece que é você que já tomou sua decisão!
– Eu não decidi absolutamente nada. Você que foi embora com uma vagabunda qualquer! – As lágrimas voltaram a deslizar pelo rosto cansado.
– Eu não fui embora com uma vagabunda. Já te disse que tudo que aconteceu foi culpa de nós dois e eu precisava de um tempo para pensar. Não estou com ela. Mas isso muda tudo, Susana! Por favor! Me diga onde você colocou!
– Muda o que Augusto? – Interrompe Susana enquanto levanta-se da cama e parte para cima dele – Você acha que isso fará eu esquecer as vagabundas com as quais tu dormiu? Ou só quer conferir para saber se você irá ficar ou partir de vez?
– Pare! – Segurando as mãos dela enquanto tentam agredi-lo – A gente precisa saber Susana! Eu te amo! Sempre amei! Cometi alguns erros, você também! Mas precisamos resolver as coisas. Minha decisão está tomada, eu só preciso saber.
– Então me diga Augusto! Me diga a sua decisão!
– Então você sabe onde está?
Augusto solta as mãos de Susana e a encara por um segundo. Susana o observa como há muito não o via. Enquanto Susana investe para beija-lo, Augusto retira do bolso traseiro da calça jeans dela a fitinha de papel branca.
– Dois traçinhos! – Diz ele confuso.
– É positivo – Diz ela sorrindo.

Primeiro beijo

Se eu pudesse fazer o mundo parar de girar, se eu tivesse o dom de mudar distancias, se eu  criasse a máquina do tempo ou se eu fosse capaz de congelar as horas, em qualquer uma dessas situações, eu me prenderia a esse sorriso.  Eu não consigo olhar para os lados, meus olhos estão vidrados, em tudo que eu vejo é seu sorriso que enxergo.  Tímido, doce, intenso, com os olhos que carregaram tanta paixão, tanta curiosidade e uma certa tristeza que não é sua.
E eu preciso desse sorriso,  mais do que preciso de ar.  Eu quero saber tudo sobre você. Suas dores, suas marcas, suas vitórias e derrotas. Quero entender de onde vem essa tristeza no olhar, de onde vem essa voracidade familiar, o que seu sorriso não me diz, mas sei que lá está.
Meus olhos encaram a teus lábios, e eu só quero sentir o gosto da doçura que neles vejo. No canto da sua boca, o lábio superior mais arqueado, eu imagino um gosto de pimenta.  Minhas papilas gustativas se excitam com a possibilidade de uma mistura agridoce de sabores e sensações. Quente, frio, doce apimentado, úmido. Minha língua cria vida própria e umedece meus lábios, enquanto meus dentes a seguem nessa falta de controle e mordem. Você percebe. Será que me vê e me enxerga?
Não é só minha língua e meus dentes que me desobedecem. Meu olhos não conseguem desviar, minhas mãos começam a suar frio e meu corpo inteiro se ascende me deixando brilhante como uma noite estrelada. Seu sorriso tem malícia, não sei se você age por impulso ou pura diversão, mas o abre ainda mais, transformando todo o seu rosto em uma grande explosão de  felicidade e eu vejo em seus olhos fogos de artifício multicoloridos e eu… eu só quero fotografar esse momento para sempre.
Eu procuro traduções, significados e sinônimos para tentar controlar meus impulsos que me levam a te devorar, mas eu só encontro a vontade de te beijar. Se existe um paraíso Deus o colocou no teu sorriso. Se há um pecado original ele é sua boca. Se  existe inferno é a possibilidade de não ter teus lábios de encontro aos meus.  Eu imagino a cena e você percebe. Percebe e se diverte com a minha agitação. Um calor toma conta do meu corpo e então fico completamente ruborizada, coberta de vergonhas que você despe lentamente com o olhar.
Eu sei que é só um jogo, mas eu só quero que termine em empate.  Teu sorriso se apaga e seus lábios se contorcem. Será que entenderam o recado dos meus olhos? Você aproxima sua mão do meu rosto, desvio o olhar para baixo e você levanta meu queixo me fazendo encarar seus olhos. E quando nos encontramos em um olhar eu tenho a certeza que vou me arrepender por toda a vida por te beijar e eternamente se eu não provar teus lábios. Você afasta uma mecha de cabelo solto do meu rosto, acaricia minha face, e deslisa a tua mão para minha nuca. Meu corpo todo se arrepia, minhas pernas tremem e você me puxa. Aproxima a distancia entre as nossas bocas e então eu sei. Minha vida começou naquele sorriso.