Frustrada

Você me deixa frustrada. Sei que a culpa foi minha. De certa forma no meu acesso de raiva contra vida te atingi. A culpa não era sua. Eu não queria te afastar, mas de uma forma bem clara eu disse com todas as letras que a gente não podia mais.

E todas as vezes que te provoco espero a resposta. Todas as vezes que tento te atiçar, ateio fogo em mim mesma e você se controla. Não responde ou ignora. Eu sei que fui eu que pedi assim e é difícil entender que só falei aquilo em um momento que alma sangrava e que prefiro ter um pouco de ti do que nada.

Você me deixa frustrada, todas as vezes que eu quero uma resposta. Quero um beijo, um abraço, um sorriso, um toque. Me deixa frustrada todas as vezes que não apaga meu fogo. Ele queima, arde e me fere a pele e só você pode apagar.

Eu tento te mandar indiretas bem diretas. Quase suplico por aquilo que quero e ainda assim você me frustra, me deixa na espera, na tênue linha da amizade em preto e branco, nada colorida. Eu quero mais, quero tudo, quero o que disse que não queria e você ainda me limita. Me limita a respeitar o que eu mesmo escolhi.

Eu sei que toda essa frustração um dia passa, ou não. Depende mais de mim do que de você. E quando passar talvez eu nem lembre que um dia ela existiu. Mas por enquanto preciso de mais uma dose, por favor. Apenas mais uma ou mais muitas. Depende mais do que você oferece do que do que posso pedir.

É tipo um vício que não consigo me livrar. Algo que volta e meia caio em recaída. Só quero um pouco da droga que você da. Quero um pouco do calor que provoca, do toque de seus dedos em minha pele, da sensação de prazer da tua voz em meu ouvido. Do teu sotaque cantado embalando promessas que não existem, amores que não são, tesão que não se acaba.

Eu quero muito, quero pouco, quero tudo e mesmo que o tudo seja nada, ainda quero sentir o que me despertas, ainda preciso da tua língua na minha, do teu abraço apertado, teu colo embalado, teu corpo suado. Eu quero o que não posso ter e não sei se um dia serei capaz de não querer.

Por hora quero apenas que entendas, que mesmo eu dizendo que não quero eu quero. Que mesmo que eu tenha dito que precisava de espaço esse espaço não se aplica a sua distância ou seu silêncio. Eu só preciso de mais uma dose de você. Talvez duas, talvez muitas. Eu preciso de mais do que podes me dar, preciso de mais do que consegues me oferecer, mas nessa altura qualquer dose de você já me alivia.

Você me deixa frustrada e nesse jogo o 0x0 é perda de tempo pra nós dois. Não me importo com o empate, desde que no final o placar seja pelo menos 1×1. Será que não da para apenas esquecer que te afastei? E no final confessar que você também sente saudades de mim, de nós, de tudo.

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O Universo realmente pode conspirar em nosso favor? Lia e Theo tem quase certeza que ele é uma criança birrenta porque mais atrapalha do que ajuda, pelo menos no romance deles.
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A dança principal

Sabe aqueles sonhos que tão reais você custa a entender que são sonhos? Pois é. Sonhei assim com você. Era tudo tão possível e cotidiano que custei a entender quando abri os olhos que estava numa cama longe de você.

Algumas teorias dizem que nossos sonhos são resgates do inconsciente. Outras dizem que são o encontro das almas. Para mim todas as teorias fazem sentido. Nossas almas se encontram desesperadas de carinho e atenção quando dormimos já que acordadas não permitimos que esse encontro aconteça.

Eu sempre ouvi que se duas pessoas querem ficar juntas elas dão um jeito e ficam. Tudo muito romântico e utópico em uma vida que não nos permite apenas seguir nossos impulsos. Às vezes me pego pensando o que teria acontecido se fossemos só vontades. Se não tivéssemos tanto medo das consequências e mais coragem.

As coisas não são tão simples como deveriam. Nós não somos simples. Em uma complexa teia de medos, traumas, certezas, lágrimas e risos nos prendemos ao que conhecemos. Para que arriscar, nos perguntamos… e se não der certo, indagamos…

Fizemos escolhas. Optamos pelo platônico e confiável. Não arriscamos, ambos tinham muito a perder. Então nesses caminhos descruzados e nas bifurcações da vida separamos nossos destinos. Mas como somos feitos de sonhos, à noite, quando nada nos prende, nos encontramos e vivemos todo o amor que existe.

Permitimos o encontro das almas nesse universo paralelo para que elas possa aplacar um pouco da dor que sentem de estarem separadas. Talvez não seja nessa vida, estamos só ensaiando a dança principal para uma próxima…

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É possível que um bate papo virtual desperte a vontade de recomeçar a vida depois de perder seu grande amor e tentar o suicido? Em “Sexo Real, Amor sem igual” é a vez de Leonardo contar sua história e como foi superar os medos e traumas de Marina após de conhecerem. 

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Para Aline

Menina bonita do sorriso largo, sempre disposta a ajudar. As mãos que curam, que acolhem e acariciam. Do ventre 3 filhos pariu, do coração são tantos espalhados por aí que as contas já perdeu. Não tem tempo ruim e se tiver, está isolado dentro do peito. Pra fora é só sol e mar.

Das perdas que teve na vida, a perda de tempo é a que mais lhe aflige. Das outras guarda as saudades. Se permite chorar sempre que as lágrimas insistem em não se segurarem, não é feio chorar. Feio é não sentir.

Se dedica de corpo e alma para aquilo que escolheu. Demorou mas o Deus atendeu. Cuidar e amar, sua vocação e seu dom, ali escolhidos pra cada vez mais se espalhar. E se fosse passarinho, ainda assim seria leoa.

Ela é diva sem querer ser. É linda por fora, mas é o que está por dentro que transborda a alma. Um sorriso, um riso, uma luz. Por onda passa ilumina, aquece. Se perde dentro de sim e se encontra fora do mundo. Mas que graça teria tudo se não fosse assim?

Menina bonita que nasceu para encantar. Não se amedronta na briga, mas prefere apaziguar. Não se esquece do que passou, do que pediu, do que orou e agradece por tudo que conquistou. Para si, para mim, para você, para todos.

Se eu pudesse te arrancar um sorriso além de todos, seria dizendo que o teu carinho fugiu dos meus dedos e escapou nesses versos, que são apenas para ti que me fez sorrir.  Obrigada pelo seu carinho e sinta-se feliz pois especial a ti não existe mais ninguém.

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Fui marcada pela Aline Soares no facebook em uma brincadeira. Se o escritor marcado não respondesse em 5 minutos teria que fazer um texto exclusivo pro leitor. Além da honra de ser lembrada a Aline ainda deixou uma mensagem super carionhosa. Esse texto é para ela. Pura gratidão pela lembrança e admiração pela pessoa que é.

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Memórias

Em uma mala velha guardo minhas recordações. São fotografias antigas, bilhetes rasgados, papeis de bala, de chocolate, ingressos de cinema, de shows. Contas de restaurantes. São pedaços de uma vida que um dia foi minha. Foi nossa. Existem flores secas, desenhos e até um rótulo de vinho gravado com nosso nome. É um pedaço da gente, de mim, de ti, de nós.

Não são memórias aleatórias. São desejos que não se cumpriram, são vontades realizadas. São histórias que quero lembrar para sempre, mesmo se o pra sempre acabe. São fotografias de dias felizes e tristes também. É tudo que eu sou, que eu fui, que eu serei. Não existe limite para as lembranças dentro da mala velha. Sempre cabe algo novo, mesmo que antigo.

Eu não me desfaço da minha mala. Seria como limpar um HD cheio de histórias ou perder a memória. Sacrilégio, eu diria. Seria como me esquecer de você. Impossível. Se metade de mim não lembrar de tudo que aconteceu, a mala me lembrará. Se um dia, por algum motivo, eu não tiver mais teu cheiro, ele lá estará.

Sou feita dessas lembranças. Sou feita das cicatrizes da vida. Sou feita do teu amor. Sou feita de tudo que vivi, de tudo que sonhei, de tudo que me recordo e de tudo que senti. Sou feita de sorrisos, dos meus, dos teus, dos nossos. De fotografias mal tiradas que guardam bem mais que imagens. Que guardam a mim. A ti. A nós.

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Imagine

Um dia eu descobri que não precisamos mais da proximidade física. Um dia eu entendi que tudo que havia entre nós era energia pura. Um dia eu imaginei que você não tinha partido. Apenas imagine, por um instante, que estou exatamente ao seu lado. Feche os olhos. Agora. E imagine.

Nós dois no seu quarto, deitados de frente um para o outro. Imagine como se você estivesse vendo pelos seus olhos. Você olha pra mim, rosto a rosto. Vê meus olhos no escuro, um brilho longe. Não vê, mas sente meu corpo encostando no seu. Quente. Minha barriga encostando na sua. Você sente o cheiro do meu perfume mais forte a cada vez que eu me aproximo. Meu corpo todo gruda no seu. Sem amarras, sem barreiras, sem nenhum tipo de impedimento que não seja a sua pele e a minha.

Consegue se imaginar assim? Meu olho vidrado no seu e nossos corpos colados. Quentes, suando. Você não vê mais nada, só meu rosto. Sente minha mão deslizando nas suas curvas. Descendo pelas suas costas até chegar na sua coluna. Deslizando com a ponta da unha. De leve. Ainda não te beijei. Só te olho.

Te sinto nervoso. Tenso. Sei que você está, e é exatamente o que eu quero. Te beijo. Você fecha os olhos e não vê mais nada. Só sente a minha língua na sua,  molhada e quente. Você sente minha mão percorrendo cada curva do seu corpo. Suspira de leve. Abre os olhos e me encara. Aproxima ainda mais nossos corpos e me da recados pelo seu olhar. Que eu obedeço. Sei exatamente o que você quer. O que você gosta. Então mordo sua orelha te fazendo arrepiar, arquear e ofegar.

Seu corpo pulsa esperando o meu. Cada pulsada é um suspiro a mais, um gemido a mais, um tom mais alto.  Minhas mãos fazem caminhos sem lógica. Suas mãos me puxam mais perto, mais dentro, mais forte. Seguro seu cabelo e sussurro em seu ouvido “não existem mais distâncias” e você se entrega a nossa imaginação.

E não existem mais distâncias para nós. Nesse mundo, em outro mundo. Nessa vida ou em outra. Nossa conexão nunca terá fim e mesmo que a sua voz não possa ser ouvida ainda assim ela ela ressoa ma minha cabeça com uma suave melodia. Não existem mais distâncias. Onde quer que você esteja no meu peito ainda bate seu pulsar.

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De mãos dadas

Parece um sonho e eu me pergunto constante em que momento vou acordar. Não sei se são os meus medos, meus traumas ou as coincidências que parecem nunca acabar.

Quem diria que depois de tanto tempo a gente se encontraria. Num lugar totalmente inusitado, no meio do mato, improvável e tão longe de onde um dia algo começou. Quem diria que a gente se esbarraria e se reconheceria pelo olhar.

Uma história que poderia der dado certo há tempos atrás se não fosse a rainha do baile e o bad boy da escola. Um caminho que se cruzou e se fastou nas bifurcações do caminho e de repente chegou no mesmo final.

A vida é engraçada, algumas coisas parece que acontecem porque tem que acontecer. A gente passa por coisas, não entende o que passa, se questiona, se Deus, se a energia, se o universo não gosta da gente.

Nós sofremos, cada uma com a sua história. Cada um viveu coisas que alguns não suportariam. Mas a gente suportou. Suportou e superou. Passou por outras coisas e acabou de mãos dadas.

Não sei se essa história terá um felizes para sempre ou apenas um felizes por agora. E eu não sei. Não sei o que vai ser. Se vamos superar as distâncias, os obstáculos, se será simples ter uma nova história. Mas eu sei que estou pronta para seguir com você e me aventurar por esse novo caminho ao seu lado.

Um encontro com a água

Ele sentia a mesma sensação que sentiu 20 anos antes ali na beira daquele lago. Como era possível? Na época, achou que havia sido sonho, coisa de quem tinha tomado birita demais, mas agora estava totalmente sóbrio. Não era possível que fosse efeito de algum entorpecente.

– Se você realmente existe deixe eu lhe ver! Eu preciso saber que não foi um sonho e que você existe

Colocou os pés na beira da água e mais uma vez suplicou:

– Deixe eu lhe ver! Preciso de você! Nunca mais senti em minha vida o que senti naquela noite.

As águas começaram a se movimentar e ele percebeu que na outra margem, alguém parecia-lhe observar.

Apesar de achar que era um sonho, lembrava exatamente o que havia acontecido naquele mesmo local. Um gozo com tanto êxtase que nenhuma mulher que ele amou conseguiu proporcionar.

Avançou lentamente pelo lago até que a água cobriu suas partes íntimas.

– Mais… Eu lhe quero por inteiro – Um sussurro soprou em sua orelha e um arrepiou-lhe percorreu o corpo inteiro.

Apesar da temperatura gelada do lago, quase a sensação de estar dentro de uma geladeira, sentia todo seu corpo completamente rijo e latejante. Avançou lentamente e então começou a boiar.

– De costas – Outro sussurro – Quero sentir seu corpo em minhas águas – Disse a voz feminina que lhe seduzia – Por que demorou tanto tempo a voltar? Pensei que não gostasses de mim…

Quando ele pensou em responder, sentiu aquelas mãos lhe acariciando o corpo. Beijando lentamente, cada pedaço de pele que existia nele.

– Deixe-me te ver… – Suplicou como um gemido.

As mãos percorriam todo o seu corpo, o toque macio da água e aquela sensação de estar sendo tomado por todos os lados foi-lhe excitando cada vez mais. Então sentiu-a percorrendo a boca gélida em seu tronco, subindo e descendo, fazendo movimentos circulares até que foi totalmente envolvido. Gemeu de prazer e implorou por ela.

– Por favor, preciso te ver!

Enquanto ela o acariciava com uma das mãos, acelerando cada vez mais os movimentos, a outra percorria os braços e a boca cobria os lábios dele, ela foi se formando, dos movimentos do vento no lago, ela tomou forma e o encarou.

– Estou aqui. Abra os olhos.

Ele estava descrente do que via. Não podia ser verdade. Ela era formada de água. Seu olhos reluziam a lua, seu corpo transparente, cheio de curvas, fazia com que enxergasse a outra margem. Suas curvas bem desenhadas, remetiam as ondas de um oceano, que se movimentava cada vez mais rápido enquanto se entregava a ele.

Quando sussurrou no ouvido dele de prazer, se contorcendo e arqueando, seu corpo se desfez, com uma chuva de pingos coloridos e desformes para todos os lados.

Ele acordou com o sol batendo em seu rosto na margem do lago. Deitado, sem roupas e com a mesma sensação de 20 anos antes, sem os entorpecentes da época. Teria sonhado? Não tinha certeza. Mas voltaria ao lago para outra noite de prazer.

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Romance Ideal

Eu pensei que você poderia ser. Ser aquele cara. Aquele que ia me livrar das sensações de ausência que os outros deixaram. Eu imaginei, por noites em claro e madrugadas sedentas, que você era o cara.  Aquele. O cara. O último. O certo. O ideal.

Eu idolatrei cada parte de você. Do seu corpo. Da sua alma. Do que eu queria que fosse o final. Não o final da história, mas o final da estrada, a linha de chegada redentora. O gol de placa. O final da busca. A busca pelo cara. Aquele cara.

Eu fantasiei por horas a fio. Construí cenários, cenas de conteúdo altamente erótico e abraços apertados. Você era o protagonista do meu romance ideal. Mesmo que você não fosse o ideal. Foram sonhos, acordada e dormindo, anos luz de energias emanadas, do meu corpo, do seu toque, da fricção causada por nós dois. Amores em claro, noites sombrias, tudo em preto e branco no contraste da tua língua na minha boca.

Eu só não sabia que você não poderia ser. Ou não queria saber, vai entender? Eu me apeguei a tudo, ao cheiro, gosto e maciez da tua pele. Eu me entreguei na tua mão. Deixei me manipular, me sentir, me fazer sentir. E em cada detalhe talhado como orgasmo em minha memória, você ocupou espaço. Por um tempo o vazio acabou, a distância se foi e a urgência acalmou. Na fração do segundo de um sorriso, um suspiro, um gemido ou um sussurro. Na medida dos pelos se ouriçarem e se tranquilizarem.

Então eu percebi. A urgência é minha. O vazio sou eu. A imperfeição se traduz em olhares que observam, atentos e serenos, cada movimento desse jogo de tabuleiro. Xeque-mate. Não foi você. Fui eu que idealizei demais.

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O blog Causos & Prosas participa do desafio literário  365 dias de escrita. Este texto é parte integrante do desafio organizado  pela Editora Digital e Consultoria de Marketing para autores Escritor Publicado .
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Uma boa mentira

Quando li a mensagem na tela do aparelho celular não acreditei. Será possível que depois de anos de convivência a gente não conheça nem um pouco a pessoa que dorme ao nosso lado? Eram 13 anos jogados na lata do lixo. Como se aquilo não fosse nada. Num dia pensávamos em fazer uma tatuagem de casal, daquelas bem clichês com significados que só a gente entendesse e no outro aquela mensagem no celular.
“Desculpe, conheci uma pessoa e vou me casar. Por favor, me encontre no restaurante de sempre para acertarmos os detalhes da nossa separação.”
Então era isso. O filho da puta depois de me enrolar por 13 anos que casar não era importante agora ia casar. E com outra. Devia ser uma menina novinha, daquelas que ainda dançam  funk até o chão e que vai encher ele de chifres. Isso é o que eu mais desejo. Que ela encha ele de chifres e foda completamente sua vida. Ou então pode ser que seja um homem. Eu sempre desconfiei que ele gostava demais de fio terra.
Fiquei sem chão. E ele ainda tinha a ousadia de marcar no nosso restaurante, aquele em que comemoramos cada aniversário de namoro, cada conquista e cada dia dos namorados ao longo dos treze anos. Era muita sacanagem. Um lugar cheio de boas recordações seria transformado numa cena de assassinato. Sim. A única coisa que passava em minha cabeça era render o garçom quando ele servisse a picanha, arrancar de suas mãos a faca e degolar o desgraçado ali mesmo.
Treze anos na lata do lixo. Mas eu não vou chorar. Ao contrário, vou fazer ele perceber o que está perdendo e se arrepender para sempre de me jogar na lata do lixo como um trapo velho, rasgado e usado. Apesar de me sentir exatamente assim. Marquei salão. Cabelo, barba e bigode. Tudo nos trinques. Esmalte vermelho nos dedos. Maquiagem arrasa quarteirão. Vestido baba baby, com decote acentuado. Sutiã levanta defunto. Calcinha vermelha de renda combinando. Ele não veria a calcinha, a não ser quando estivesse caído degolado no chão. Vou ficar por cima dele, de pé, para que sua última visão seja o que botou fora. A calcinha vermelha.
Chego no restaurante uns minutos antes do horário marcado. Procuro por coragem liquida no balcão. O garçom, conhecido antigo, parece um pouco nervoso por me ver ali. Deve estar com problemas também. Tomo duas doses de whisque puro. Sem gelo. Seco. Viro o copo como se fosse água. Coragem liquida adquirida. Estou pronta pra matar o cretino.
O garçom me acompanha até a mesa reservada para nós. A de sempre. No canto onde nos beijamos pela primeira vez. Vista para o mar. A noite cai, as luzes da Baia de Guanabara enfeitam a noite. Não posso perder o foco. Mais bebida, por favor.
Ele entra pela porta mais bem vestido do que imaginei. Termo cinza, cabelos arrumados e lindo. Lindo como na primeira vez. Tem um sorriso no rosto o desgraçado. Não consigo disfarçar meu sorriso sarcástico e diabólico de quem o imagina no chão, com a camisa ensanguentada olhando a calcinha vermelha.
– Apenas me escute por um momento – Aceno com a cabeça. Eu preciso de detalhes antes de mata-lo – Você sabe que sempre fui contra casamentos. Não acredito que um pedaço de papel faça alguma diferença em relação ao que sentimos. Acontece que conheci uma pessoa que fez o meu mundo inteiro mudar. E demorei a entender que casar não é só uma convenção social. Casar significa que eu amo tanto alguém que só sentir não é suficiente…
– Você vai mesmo fazer isso?
– Não me interrompa… – Ele levanta a mão em um gesto que me diz para esperar – Deixe eu terminar…
Concordo com a cabeça mais uma vez. Seguro ás lágrimas que estão tentando fugir de mim. Eu não acredito que ele realmente depois de 13 anos vai me humilhar dessa forma. Além de me deixar por outra pessoa, ainda quer que eu saiba que ama tanto ela a ponto de casar, coisa que nunca quis comigo. Em minha cabeça começo a planejar uma morte mais lenta e cruel para ele. Ou talvez seja melhor não mata-lo. Apenas arrancar seu pau fora, mostrar a calcinha vermelha e sair correndo para jogar o pinto na privada e dar descarga (assim não tem como costurar).
– No dia que eu conheci essa pessoa – ele continua – Eu não imaginava que ela seria tudo que eu queria. Eu nem sabia o que eu realmente queria. Mas ela é. Você não tem noção como é bom saber que existe alguém no mundo que esteja ali por você. Que abandone seus sonhos para sonharmos juntos. Que te faça sorrir só com uma lembrança. Que seja linda, sexy, divertida, mal humorada. Que tenha as ideias mais loucas e te inclua sempre nelas. Que faça o sol se abrir em dias de chuva e que faça com que todos os dias da vida sejam iguais e ao mesmo tempo diferente. Por isso… Você quer casar comigo?
– O que? Mas você não tinha conhecido uma pessoa?
– Eu conheci uma pessoa há treze anos atrás… Você…
– Eu planejei matar você com requintes de crueldade…
– Por isso que te amo… Casa comigo?
– Simmm!
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Clichê

Eu não sou a garota da trepada casual. Eu sou aquela que espera um telefonema no dia seguinte. Eu não sou a mulher que consegue ter limites, regras ou agir racionalizando tudo. Eu sou aquela que age por impulso, que não planeja as coisas, que ocupa as pessoas 24 horas por dia brincando, provocando, ou simplesmente só falando de qualquer besteira. Eu não sou a menina fácil de lidar. Eu sou a complicada que tem surtos incríveis, que chora compulsivamente sem motivo e que sofre de ansiedade mórbida. Eu sou a pessoa que se esconde atrás de uma imagem que não é minha.

E mesmo sabendo tudo isso você está lá. Pronto. Estendendo as mãos e me levantando do chão. Me emprestando teu ombro, ouvidos e tua boca. Me fazendo lutar contra minha necessidade de dificultar. De fugir. Me segurando para ficar. E eu me esforço para não admitir que me apaixonei por você.  Me apaixonei por alguém que eu nunca senti o gosto, experimentei o toque ou se quer olhei nos olhos.

Talvez seja patológico. Talvez seja fácil me  apaixonar por você justamente porque não é real e assim eu me mantenho segura e continuo querendo o que eu não posso ter. Talvez seja a forma de mostrar pra mim mesma que finais felizes não existem além das paginas idiotas dos livros que leio. A culpa é minha. A complicação é minha…

A verdade é que eu sou carente. Necessito de atenção constantemente. Eu aprendi a sorrir mesmo chorando. Curei algumas feridas, cicatrizei outras, mas tem as que continuam abertas. Eu afasto quem se aproxima e transformo tudo em histórias pra viver versões de mim mesma que não existem.  Historias complicadas, enroladas e clichês onde o final feliz compensa todo o resto e abstrai a realidade.

E a tua história eu já vivi. Essa versão de mim mesma já superou os obstáculos, os medos e traumas e chegou ao seu viveram felizes pra sempre… e eu não posso viver essa mesma história porque não dá pra inventar um outro roteiro ou final. A história já findou. Mesmo no meu mundo imaginário, não existem máquinas do tempo pra voltar e mudar os acontecimentos. Nem magia. Muito menos universos paralelos.

O fato é que eu não quero ter que lidar com você. Com a sua vida e com as tuas limitações. Eu não quero viver essa história que eu já coloquei no papel e encerrei. Eu não quero ter limites, não quero sentir, não quero me machucar, não quero imaginar ou ficar criando situações e expectativas que podem nunca se cumprir. Eu não quero admitir que criei em ti o personagem perfeito e que me apaixonei por ele.

E mesmo que você sempre me inspire em escrever belos textos eu não posso. Não posso admitir, não posso me curar de novo, não posso recair. Não posso te arrastar pra mim. Não posso me prender a ti. Simplesmente não posso. Não consigo ser assim. Desculpa.