A vida é feita de pessoas e sorrisos

Minha vida é feita de pessoas. Pessoas que conheci, pessoas que passaram por mim, pessoas que esperei, pessoas que amei, pessoas que um dia me fizeram feliz. São tantas pessoas e ao mesmo tempo tão poucas que guardo os sorrisos mais importantes como referências de momentos. Porque o sorriso é a forma mais sincera de cumplicidade. Há quem diga que sejam as lágrimas mas não acredito. Prefiro me lembrar da pessoa sorrindo do que chorando.


Não que os momentos de tristeza não sejam lembrados e importantes para a nossa construção. Eles servem como base para subirmos mais um degrau e aprender que toda dor um dia passa. Diferente do sorriso que eterniza os momentos felizes. Se fosse a lágrima da dor o elo da cumplicidade tiraríamos fotos chorando. Mas ao contrário disso sorrimos sempre que queremos eternizar um momento.


Guardo os sorrisos de amigos, coleciono eles como se me fossem o mais caro tesouro. E todas as vezes que, por algum motivo, sinto saudades, por um segundo, fecho os olhos e vasculho entre tantos sorrisos aquele que me fará amenizar a dor da distância. Sim, porque o sorriso é a cura para a dor, aquela que invade a alma e te abraça silenciosamente mesmo que tudo a volta se mexa. E somente um sorriso sincero e cúmplice e capaz de aliviar a pressão do peito e suspender as lágrimas da alma.


Minha vida é feita de pessoas. Pessoas e sorrisos. Amores, amigos e sorrisos. Momentos, pensamentos e sorrisos. Dias, noites e sorrisos. Todos eles guardados num baú. Como coisas antigas e preciosas. Sorrisos que valem mais que qualquer dinheiro. 



Ao meu pai com amor – Carta de aniversário

Esse final de semana seria teu aniversário. Engraçado não lembro de grandes festas, almoços ou jantas de comemoração. Ao contrário da mãe que sempre foi festeira, e tudo é motivos pra comemoração, dos teus aniversários lembro apenas das latas de leite condensado que ganhavas. Para querer te deixar feliz bastava passar no super e comprar uma lata de leite moça. Tomavas no bico, como se fosse água e escondias de mim e da Duda pra gente não comer.


Sabe eu estou bem pai. Mas sinto falta tua. Me pergunto se sentirias orgulho de mim. As vezes me pego repetindo gestos teus. Vícios e manias. Talvez eu não tenha aprendido a ser organizada e caprichosa com a casa e com o meu guarda roupa como eu deveria ter aprendido contigo. Mas eu tento. Mas sei que além dos traços físicos herdei teu bom humor. Teu carisma. Sou capaz de encher uma sala e fazer amigos em qualquer circunstância como fazias. 


Para tristeza da mãe também herdei tua simplicidade e humildade. Continuo sem me maquiar para o dia a dia. Uso poucas jóias e acredito que a coisa mais importante é o que carregamos no coração. Já a tua neta vai para a escola de rímel. Para ti ver como são as coisas.


Eu me casei sabia, pai? E foi bonito. E tu fez falta para entrar comigo na Igreja. Mas o Nei representou bem o teu papel. E ficou todo bobo. O Tio Alemão estava lá. Tu com certeza irias debochar dos milicos fazendo guarda com rosas vermelhas. A festa foi incrível. Tenho certeza que serias muito amigo do meu marido. Fariam piadas infames de tudo e deixariam eu e a mãe muito bravas.


E esse ano pai a Duda faz 15 anos. Fará uma festa e vai dançar a valsa. E que pena que não poderás estar aqui para dançar com ela. Ela está tão linda.É uma aborrecente tão bagunceira. Se tu visses o quarto dela terias vários infartes consecutivos. Não ia ter controle remoto de aparelhinho que desse jeito.


Eu também vou me formar no final do ano. Cheguei ao fim da faculdade e sempre tenho certeza que fiz a escolha certa. Vou me formar em jornalismo. Exatamente como eu dizia quando tinha 15 anos e tu me destes aquela máquina de escrever super moderna. Tanta coisa mudou de lá para cá. Hoje temos a internet. E tem um jeito de mandar mensagens para as pessoas muito mais fácil e barato que torpedo. Tua te divertiria muito. 


Eu estou tentando pai Tentando ser boa mãe. Tentando ser boa esposa. Tentando ser boa filha. Tentando ser feliz. Eu sinto tua falta. E me lembro de ti sempre. Eu sei que o final foi difícil mas eu queria muito te dizer que eu te amo. Desculpa se não fiz isso em tempo. Feliz aniversário.

Apenas mais um dia cinza

As lágrimas vêm aos olhos e fica difícil de segura-las. Não entendo se são de raiva, tristeza ou decepção. Elas brotam e como pedras em um desfiladeiro rolam pelo rosto. Não existe lugar certo. Quando assim acontecesse não tem como segurar. O sol no mesmo instante se esconde e transforma o dia num tom de cinza escuro com suas nuances.


Estranho entender que as pessoas, infelizmente, são assim. Não valorizam o que de mais belo e honesto existe: a confiança. Quando alguém confia em você ela deposita segredos, amor e amizade. Ela acredita em você. Ela entrega a vida nas suas mãos e de olhos fechados atravessa uma avenida movimentada porque você diz que pode fazer.


Não sei se é tristeza, decepção ou raiva que sinto. Apenas dói e as lágrimas escorrem. Apenas sofro. De qualquer forma não errei em confiar em você. Você errou por trair a minha confiança. E também não é questão de perdão, a questão é eu poderei algum dia confiar em você novamente?


Porque dizer que perdoa é fácil. O complicado é resgatar o que se levou tanto tempo pra conquistar. O impossível é lembrar que nada do que foi feito e construído foi valorizado. Passar por cima, dar a volta e sorrir novamente depende muito se você realmente fará valer a pena. 


Enquanto isso o dia cinza permanecerá. Até as nuvens se dissiparem, as lágrimas pararem e o coração se fortalecer. 

Era uma casa muito engraçada não tinha piso não tinha nada…

Quando cheguei em casa só pensava em tomar banho. Como se a água pudesse levar, junto com a poeira de meu corpo, as lembranças daquele lugar. Só que quanto mais a água quente caia sobre mim, mais o ambiente se enchia de vapor e mais eu me perguntava como aquela menina fazia para tomar banho e se, algum dia, em seus dezoito anos, ela havia tomado um banho quente.


A rua enlamaçada, a entrada daquela casa, as tábuas que demarcavam território, os inúmeros gatos, o cachorro, o cheiro de bergamota misturado ao odor fétido do esgoto e da “casinha”. Sim. Porque banheiro não havia ali e sim uma peça de tábuas, com um buraco revestido de madeira, que ameaçava lembrar uma privada. E ali haviam jornais. Nenhum sinal, nem do mais rude, papel higiênico.


Por um momento pensei na música da minha infância. “Era um casa muito engraçada não tinha teto, não tinha nada, ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão”. De um forma triste e dolorida enxerguei a casa sem chão. Não me veio a imagem das minhas brincadeiras de roda, mas sim a tristeza de saber que naquela casa sem chão, sem piso, sem assoalho, aquela casa construída de tábuas velhas, que não tinha divisões e apenas uma cama de solteiro viviam 5 pessoas. Dois adultos, sendo um doente. Uma adolescente que deveria ter sonhos e duas crianças em idade de correr rua e brincar. E uma dessas crianças trazia seqüelas da irresponsabilidade de seus pais.


Perceber que a bergamota era igualmente disputada pelo espaço nas mãos, da pequena de seis anos, por um felino, que por mais fofinho que fosse corria por cima daquele esgoto à céu aberto. E que a criança sorria, sem se importar ou entender o que acontecia ali.


Observar que aquela adolescente queria ser alguém. Queria terminar os estudos e fazer pedagogia. Mas qual seria a possibilidade de concretizar seu sonho, se aos 14 anos foi estuprada pelo próprio padastro, aquele que deveria proteger. E que o fruto desse ato era uma pequena de 4 anos. 


Entender que tudo que ela via como possibilidade de melhorar de vida era sair daquele lugar “porque quando vem o temporal é um sufoco”. Sim. Seu único medo era os temporais. As dificuldades que a chuva trazia para ir a escola, para sair de casa, para sobreviver entre aquelas tábuas podres.


Dizem que jornalistas são contadores de histórias. Costumam criticar dizendo que vendemos sofrimento. Que midiatizamos  a desgraça. Que escancaramos e fazemos um carnaval da dor alheia. Preciso contar essa história. Não como faço aqui, dessa forma de desabafo. Mas contar para denunciar que enquanto passo 70% do meu tempo conectada, consumindo informações, sob um teto com forro, dormindo em uma cama aconchegante e tomando um banho quente, existem pessoas, que a única coisa que querem é fugir da chuva. Existem pessoas que não tem banheiro em casa. Que não tem o que comer. Que acordam todos os dias para, apenas, sobreviver a mais um dia.


Sim. Fará parte da minha vida contar essa história, parte do meu currículo e faço com orgulho. Por mais que as lembranças me assombrem e insistam em se manter vivas na minha cabeça. Essa é minha pauta. Mas torço, sinceramente, pelo dia em que eu não precise denunciar coisas assim. Que não seja preciso que jornalistas escrevam essas histórias. Que possamos contar que houve um tempo em que era assim. Mas que o país cresceu, amadureceu e largou de mão a mesma política assistencialista que praticou por décadas e que aprendeu o caminho certo. Que ensinou seus filhos a pescar, em vez de dar-lhes o peixe, mascarando os reais problemas. Que o Brasil deu educação e cultura a seu povo. Sim. Porque só a educação e a cultura serão capazes de mudar a nossa realidade. Aí quem sabe essas lembranças não me assombrarão mais e os jornalistas parem de vender o sofrimento.



Eduardos & Mônicas

Não costumo publicar no blog coisas alheias. Abro algumas excessões. E hoje é dia de excessão. Eu passei minha adolescência ouvindo Renato Russo. Sendo embalada pela sua voz e inspirada pelos seus poemas. De certa forma torcia para um dia conhecer meu “Eduardo” e ter um romance estilo “Eduardo e Mônica”. Sonhei inúmeras vezes e criei um filme imaginário da música. 


Ainda hoje, quando me refiro a uma balada estranha uso a frase do Russo: “festa estranha com gente esquisita”. E acredito profundamente em “quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração. E quem irá dizer que não existe razão”.


E conheço vários casais “Eduardo e Mônica”, cada um com suas particularidades e nomes próprios, mas que “se completam igual feijão com arroz”. Então minha emoção foi grande  quando vi a iniciativa da Vivo. De uma forma extremamente sutil faz a sua propaganda e   com ela emociona milhares de pessoas, de uma geração inteira, que encontraram, ainda buscam ou que perderam seus Eduardos ou suas Mônicas.


De presente de dia dos namorados, o Causos & Prosas, homenageia a Vivo, Renato Russo, Legião Urbana e todos os “Eduardos & Mônicas” do mundo!


E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?


A nossa sala de estar

Quando dói fundo no peito a tua ausência me encerro na sala de estar de minha memória e de lá acompanho um vídeo de nossos momentos felizes. Revejo cenas várias vezes seguidas. De trás para frente. De frente para trás. Não me canso. Fico por ali ouvindo nossos diálogos sem pé nem cabeça. Repito as frases feitas, que na tua voz eram perfeitas. Escuto tuas canções e declarações. Procuro os arquivos de texto e releio todas as cartas de amor. Lembro de cada detalhe do teu corpo, como um filme em 3D sinto teu toque, percebo as vibrações do ambiente e recorro ao olfato para me embriagar com teu cheiro.


Na sala de estar da minha memória só existe eu e suas lembranças. Todas arquivadas. Vez ou outra assisto uma de nossas brigas e dou risadas sonoras lembrando dos motivos bobos de cada uma delas. As vezes, consigo sentir o gosto dos teus lábios. Em outras sinto o peso do teu corpo. Consigo até ficar vermelha revendo cenas nossas de amor. Está tudo ali, catalogado, com datas, sentimentos, cheiros e gostos. Em uma ordem absurdamente desordenada que sem sentido nenhum faz todo sentido para mim.


Não sei porque você se foi. Não entendo dos planos divinos. Não conheço as regras do jogo. Fiquei com as lembranças. Me contento com elas. Aguardo o momento do acerto de contas e do nosso encontro pacientemente. Enquanto isso, sobrevivo, na sala de estar de minha memória. Essa sala que permite nossos reencontros. Este lugar tão meu que se tornou sua morada. Um pequeno espaço, iluminado com luzes mágicas, cheio de livros com nossas histórias e com aquele sofá, o nosso preferido. 


Sei onde você está. Por que basta eu entrar na sala de estar para te encontrar. Só não sei porque você somente está lá. Você acabou sumindo em seu mundo ou neste mundo e de alguma forma nunca mais se encontrou. Se perdeu em planos, ideias e vidas que de nada acrescentaram em uma vida real. Assim, você partiu, indo embora, cedo demais. E agora vive somente na nossa sala de estar.

Cartas – Aquela que um dia enviei…

Fulano,


Eu sempre tive vontade de dizer um monte de coisas mas nunca tive coragem. Parece que quanto mais o tempo passa, mais o destino nos afasta, mais a memória nos trai, mais eu te amo. E se é estranho para você ouvir isto é mais estranho para mim escrever. Escolhi caminhos, mudei estradas, abafei sentimentos e escrevi canções. Viajei por galáxias, planetas, mundos, países, estados e cidades, tentando de alguma forma esquecer. Mas para todos essse lugares tu me acompanhou. Foi em meu pensamento  e mesmo que ao meu lado esteja outro homem não consigo deixar de amar você. 

Engraçado de tudo é que quando estavamos juntos eu não te amava. Pelo menos achava que não. Talvez seja apenas uma obsessão. Ou quem sabe orgulho ferido. Talvez. Mas seria muito pouco para me fazer sonhar com você, desejar você e principalmente querer o teu bem. De uma forma poética não te quero para mim, simplesmente te amo e te quero feliz. Não  imagino minha vida contigo. Nem concebo a hípotese de ficarmos juntos, algum dia, novamente. Mas te amo. Sinto isso a cada dia, que o tempo se afasta mais do dia que fomos nós dois, mais forte. Não sofro. Não choro. Não imagino. Apenas amo. 


E eu tenho plena consciência que não existe recíproca. E sei que não represento nada além de um casinho complicado em tua vida. Talvez até eu seja uma maluca que queres afastar. Mas mesmo assim ainda te amo. Se isso não é amor eu não sei o que é. Engraçado que eu não sabia o que era ele quando estavamos juntos e foi você que me ensinou a praticar. O mundo deu tantas voltas, mudou tanto para nós dois. Aconteceram tantas coisas e quem sabe eu nem ame mais o seu você agora. Mas amo aquele você que de uma forma tão especial entrou na minha vida e ficou em meu peito para sempre. O amor não é isso? Então o que ele é?! 


Não questiono os pôrques. Aceito. Se era desse jeito que era para ser. Então que seja. Mas cansei de esconder que na verdade não te esqueci. Que o amor aumentou todo este tempo distante e que ele é algo belo e sutil. Que não me torna infeliz, por não estar contigo. Que me acalma a alma e me torna melhor por saber que tenho esta capacidade de amar sem precisar de qualquer coisa em troca. E eu que sempre achei que para amar era preciso ser amada, descobri pelas tuas mãos que não. 


Ainda és minha fonte de inspiração. Meu personagem imaginário mais real. Meu herói e mocinho.  Meu sorriso, minha emoção e meu sentimento. 


E o fim não foi o fim…

Acordei hoje e pensei: ” enfim não foi o fim. O mundo realmente não acabou”. Isto porque ontem seria o fim do mundo de acordo com uma seita cristã, muito doida que já tinha anunciado o fim do mundo em 1994.
Ontem passei o dia pensando ” E se realmente for o fim?” E tudo que eu consegui pensar em seguida é que ficaria muito de cara se o mundo acabasse agora. Porque sabe, eu sou assim, intensa, impulsiva e sinto muitas saudades de coisas que eu ainda não fiz e não vivi. Imagina então se tudo acabasse, de uma hora para outra, sem eu ter feito todas essas coisas. Iria ser muita sacanagem.
Mas todos os dias é o fim para alguém. E o começo também. Nossos mundo acabam milhares de vezes ao longo da vida e começam mais uma vez. Sempre existe um fim. E sempre existe também um início. Um recomeço. Até o dia que é o fim definitivo para alguém. Ou não. Porque ainda ninguém realmente comprovou que exista algo depois dessa vida. Sendo o fim ou não o importante é que sempre pode se começar tudo de novo. E isto quantas vezes for necessário.

A história de nós dois

Gosto do teu sorriso quando ilumina a casa e deixa a noite estrelada. Gosto das tuas lágrimas que regam as flores e trazem esperança de vida. Gosto do teu olhar que me acaricia e reflete meus anseios. Gosto da tua voz que me embala pela dança da vida e traduz em palavras sentimentos. Gosto do teu beijo que me adoça a boca e me faz delirar. Gosto do teu cheiro que se mistura aos aromas naturais do mundo e exala orgulho de se ser o que é. Gosto do teu jeito que me alegra os dias e que seduz de longe.Gosto do teu sexo que me faz ver estrelas e até sussurrar.


Eu gosto porque gosto. Sem motivos, explicações ou respostas aparentes. Gosto porque vai além dos meus sentidos, dos meus anseios e desejos. Gosto assim. De uma forma simples e complexa que me permite sorrir, chorar, entender e ser feliz.


Não é tua presença que faz a diferença. É tua distância. Não é aqui ao meu lado. É de longe que percebo a falta que me fazes. E mesmo que o tempo, Senhor de Tudo, insista em tentar provar ao contrário é ele, sagaz e rápido, que me mostra que eu gosto porque gosto.


Se as vezes um segundo parece uma eternidade ao mesmo tempo uma década parece um suspiro. Foi ontem ou foi hoje? É agora ou amanhã. Não importa. Tanto faz. Eu gosto igual. Com a mesma forma, intensidade e calor.E se gosto porque gosto, gosto mais porque não me é permitido escolher. São coisas que vem do coração. Começam não sei como, vem não de onde e se instalam não sei porque. Apenas eu gosto porque gosto.


Assim é a história de nós dois. Sem perguntas ou respostas. Sem explicações ou enrolações. Sem mistérios ou dúvidas. Sem espaço ou brechas para a distância pois foi ela que sempre nos fortaleceu e ensinou. E se tudo pode o tempo, e se dele somos reféns, porque não. Eu gosto porque eu gosto. Simples assim. Franco assim. Mesmo que o segundo dure a eternidade e a década dure um suspiro.

Quando ninguém entender os meus motivos eu explico

Quando ninguém entender os meus motivos saibam que eu tive muitos. O primeiro deles foi a falta de amor. Eu esperei demais dele. Esperei os contos de fada e eles não aconteceram. Esperei, depois, os amores mais serenos e eles também não aconteceram. Por fim, me contentei com um gostar, como se gosta de sorvete ou de refrigerante. Assim passei pela fase do amor. Sendo gostada e não amada. Mendigando carinhos e atenções. Implorando afetos e demonstrações. Surrupiando sentimentos de folhetins para me sentir melhor. Fechei-me em um mundo que não existia, para amenizar a dor de estar só.. E por fim, acabei vivendo mais de histórias do que das estórias. Quando fui obrigada a abrir os olhos me deparei com a cruel realidade da solidão. E ela pesou, doeu, sangrou e jamais cicatrizou.


Se os amores foram assim, os amigos, talvez, foram piores. Decepções. Sorrisos falsos. Aprendi a me proteger em uma armadura forjada a aço, impenetrável. Não confiava meus segredos a ninguém além de meus amigos imaginários. Não tinha coragem de falar das minhas desilusões. Só dividia alegrias, porque ser infeliz era inacreditável para alguém como eu. Quanto mais tentava mais me afastava de poder chorar em um ombro amigo. Mais me decepcionava com as fofocas, intrigas e maldades do ser humano. Mais perdia. Na busca pela amizade verdadeira me deparei com milhões de derrotas e fracassos. Com muita mentira e desilusão e no fim me restou apenas a solidão.


Mas a vida não é feita de amores e amizades. Existe mais. Mas mais o que? Mais do que? Nada mais me restou. Tudo que vem da harmonia de amores e amigos me faltou. E ao faltar fez com que todo o resto fosse triste e vazio também.


Se não entendem meus motivos. Eu explico. De tantas rasteiras e desilusões pouco me restou. E esse pouco nada tem haver com amor próprio. Nem ele consegui cultivar. Se a vida me foi tão ingrata e severa em termos de sentimentos, como posso ter sentimentos por ela?


Não. Não existe mais possibilidades. Os caminhos levam ao mesmo  fim e esse fim não me interessa. Prefiro que se finde tudo agora do que seguir dessa forma. O que é a vida sem sentimentos? O que é a vida sem amores? O que é a vida sem amigos? Quando ninguém entender os meus motivos eu explico: foi tudo a falta do amor.