O Pai



Um dia eu conheci um guri, um piá, para ser mais sincera. Daqueles que jamais passariam da sala de estar, se é que me entendem. Para mim, pai e qualquer pensamento ou reflexão ligada ao assunto paternidade abria na minha caixinha de memórias um arquivo chamado Bimbo Aranha (meu pai).
Nunca pensei naquele piá como pai. Nem pensava que ele passaria da sala de estar. Mas de alguma forma ele burlou a segurança e avançou em direção a sala íntima. Nessa sala, ele conheceu uma garotinha, em pleno gozo de seus oito anos, mimada e cheia de ciúmes da mãe (essa que vos fala).
O piá e a garotinha começaram a criar um sólido relacionamento, baseado em desenhos japoneses que viam e compartilhavam até altas horas da madrugada. A mãe, achava o piá mais piá ainda e não percebia o quão homem e pai ele se tornava a cada dia da garotinha.
Ele ganhou respeito e um espaço maior. Passou de piá a guri. Podia circular em outro cômodos daquela vida, mas não tinha direito ainda ao quarto. E a garotinha, mesmo se esforçando para manter a fama de má, a cada dia deixava ser um pouco mais conquistada.
O guri tinha que tomar decisões e atitudes que podiam ou não mudar o rumo daquela história e o levariam ou ao quarto ou para fora da casa. Ele cresceu, se tornou homem. Conquistou suas terras, armou-se para uma batalha, foi a guerra e venceu. Conquistou o tão sonhado quarto. E mesmo sem nunca ter sido chamado de pai, agia, como um zeloso, daqueles capazes de matar um leão para defender o seu cordeiro.
E como ele defende… Por mais que as brigas, farpas e fagulhas sejam constantes, nunca, jamais fale mal da sua garotinha. Se ser pai não é isso, então eu não sei o que é. Talvez, seja difícil compreender o que é se tornar pai de repente. Sem a espera, sem os 9 meses necessários para a gestação e o amadurecimento. Ok, foram madrugadas e madrugadas de desenhos. Lições de matemática, brincadeiras e brigas. Tudo para torna-lo o melhor pai que uma garotinha poderia ter.
Tive o privilégio de ver o piá se tornar pai. Tive o privilégio de ver ele se tornar homem, marido, companheiro e amigo.
Aprendemos muitas coisas juntos e também brigamos muito. Tivemos altos e baixos, pensamos em nos separar algumas vezes, nos decepcionamos um com o outro. Mas nunca perdemos a admiração pelo outro.
E de repente, quando a gente não esperava o pai, virou pai ao quadrado. Com direito a acompanhar a descoberta da gravidez, do sexo, o primeiro chute, o primeiro soluço e o nascimento. Vi seus olhos se encherem de lágrimas ao pegar seu filho nos braços. Um amor tão sublime e incondicional para aquele que ele esperou 9 meses para conhecer que não permitia que ele soltasse o bebê no berço.
Foram noites insones. Dias longos distantes, telefonemas com a voz embargada por estar longe. O primeiro sorriso, o orgulho daquele ser tão pequeno ser tão perfeito. A primeira risada, as primeiras engatinhadas. Tanta coisa em 10 meses de uma alegria tão profunda.
Esse não é o primeiro dia dos pais que comemoramos juntos. São 8 anos de dia dos pais que sempre lhe presenteamos, homenageamos e fazemos suas vontades. Mas é o primeiro dia dos pais do Pedro Henrique. E se ele já era o melhor pai do mundo antes agora ele é o melhor pai de todas as galáxias. Desculpem os outros pais, mas quando me falam sobre paternidade a minha caixinha de memórias se abre em um arquivo chamado Paulo Rodrigues.

A descoberta do pinto



Muito antes de pensar em ter um blog sobre maternidade, um dia pesquisando na internet sobre o que fazer com o pinto do meu filho (não me entendam mal, queria saber sobre limpar, a tal massagem pra soltar a pele e tal) acabei caindo num texto fantástico que me arrancou muitas risadas que dizia “ter pinto é muito legal, é como ter um animal de estimação no corpo pelo resto da vida” entre outras frases e micos interessantes sobre ser mãe de menino. O texto estava no blog Conversa de Mãe da querida Fabiana Deziderio, que é uma das melhores blogueiras que já li e que parou de escrever no blog em maio desse ano, mas continua exercendo sua paixão de trabalhar com o universo da maternidade no site Mulher & Mãe. Então, voltando ao assunto do post, o que eu quero falar mesmo, é sobre essa descoberta do pinto que é muito legal.

No dia da ultrassonografia que descobrimos o sexo do PH foi uma festa da vergonha alheia. Ao entrar para o exame, meu marido já saiu falando que a gente só queria saber o sexo do bebê. A médica, disse para ele que iríamos ver, mas antes ela ia dar uma examinada se tudo estava bem. Fez as “vistorias de rotina”, estimativa de altura, peso, tamanho da cabeça e disse “agora vamos ver o sexo”. Marido que estava apostos começou a gritar antes da médica falar: “é um guri, é um guri, olha ali o tamanho do pintão!” a médica mal teve tempo de concordar com ele e ele já saiu pegando celular e ligando para todos os amigos gritando: “avisa ai que meu leite não é fraco, eu falei que era um guri!!! Meu filho tem um pintão!!!” e por aí foi a baixaria. Não preciso dizer que eu morri de vergonha ainda mais quando sai da salinha do exame e todos da clínica ( e quando eu digo todos, eram TODOS mesmo: médicos, pacientes, enfermeiros e secretárias) me davam parabéns pelo guri! Vergonha alheia master!

Não sei qual o significado para alguns homens de terem um filho homem. Mas é algo muito primitivo, animal e muito engraçado. Só sei que daquele em dia em diante, todo o meu universo começou a girar em volta do “pintão” que crescia dentro de mim. Não era mais um bebê e sim um pintão que crescia a cada mês.

Meninos, vem com detectores de fábrica, para sempre que você abrir a fralda, eles levantarem o tico e fazerem xixi em você. Quando começam a rir, então, você tem certeza que eles estão entendendo o que estão fazendo, porque basta te dar aquela mijada para cair na gargalhada. Na hora do banho é fato, comece a jogar uma aguinha quente neles, que pronto, lá vem aquele pintinho se levantando de mansinho e mirando em você ou na toalha!

Todo o bebê descobre a mão e passa horas olhando para ela, analisando e provando seu gosto. Depois eles descobrem o pé e tentam, de todas as formas, mastiga-lo, para ver que sabor tem o chulé. E quando, finalmente, conseguem colocar ele na boca, é como se tivessem conquistado o grande prêmio de fórmula 1 ou a Copa do Mundo. Até ai não importa o sexo dos bebês, todos fazem. Acontece que meninos, depois de fazerem essas duas descobertas, descobrem outra coisa interessante no próprio corpo: o pinto (ou pênis, se preferir o nome correto) e depois dessa descoberta, sempre que estão livres da fralda a mão vai imediatamente para a torneirinha! (Será que isso explica porque homem não consegue tirar a mão do saco???).

É só ter uma chance e a mão já está ali, operando o brinquedinho, manipulando e puxando, puxando e puxando. Chega a dar um nervoso na gente que não tem o instrumento, afinal tantas esticadas podem doer e machucar. Mas parece que não, pois quanto mais ele puxa, mais divertido parece. Na hora do banho, que tem mais tempo então é hora da festa do estica e puxa!

Aqui em casa não realizamos a tal massagem para soltar a fimose. O pediatra do PH disse que não era necessário. Existe uma corrente de pediatras que aconselham desde o início e outra que não. Se mais tarde for necessário, usaremos a pomada e a massagem, mas por enquanto deixa a coisa do jeito que está (até porque parece meio engraçado ficar massageando o pinto do filho, não?)

Ter um filho menino é uma forma de compreender o universo masculino e parafraseando mais uma vez a Fabiana Deziderio “Nessa época eu entendi um pouquinho porque meninos demoram para crescer. Com tanto entretenimento, fica difícil olhar para o resto do mundo…”

O engraçado é que o PH só tem 9 meses, fico me perguntando o que virá pela frente quando ele começar a entender que “meninos tem pênis e meninas tem vagina” (quem nunca viu esse filme???)

Carta para meus filhos lerem no futuro



Meus filhos,

O que posso dizer para vocês? Hoje, enquanto escrevo, olho para vocês e meu coração se enche de alegria. Enquanto o PH brinca, rola de um lado para o outro em seu tapete colorido e ensaia as primeiras engatinhadas, a Duda estuda, fuça o notebook e se prepara para o futuro. Ah, o futuro. Algo tão incerto, tão longe e os mesmo tempo tão próximo. O futuro que atropela o presente e transforma o hoje em ontem rapidamente. Não tenham medo do futuro. Ele é a renovação. Mas também não esqueçam que suas ações no presente é que conduzem para um futuro melhor. E que seu passado é sua bagagem, uma bagagem que deve ser honrada e carregada como um tesouro.



Mais do que para onde vão, de onde vocês vem é que importa. Não esqueçam o quão importante é isso. Lembrem-se sempre dos momentos de amor, dos abraços gostosos, das coisas que passamos juntos. Das brincadeiras que fortaleceram, do gosto da torta de maçã, das casas onde fomos felizes, dos amigos que conquistamos, das dificuldades que enfrentamos. As conversas que tivemos e os “nãos” que muitas vezes eu disse e foram incompreendidos.

Não sei se vocês notaram o quanto o mundo está diferente. Ele muda tão rapidamente quanto vocês crescem. E os conceitos também. As teorias evoluem e cada coisa parece ficar mais independente assim como vocês. Crescidos e trilhando seus próprios caminhos.

Nunca esqueçam as coisas básicas que sempre ensinamos a vocês. Amem os bichos, respeitem os mais velhos. Sorriam para as pessoas e estendam suas mãos a quem precisar. Gentileza nunca é demais e se queremos um futuro melhor, depende de nós começarmos a plantar essa semente. Não importa o que seu amigo diga. Não importa o que os outros fazem, só importa quem você é e como você dorme a noite. Não deixe que ninguém diga que você não é capaz ou não pode. Mas prestem atenção nos conselhos daqueles que lhes querem bem.

Aproveitem tudo que a vida oferece. Amem intensamente, festejem, brinquem, comemorem. Mas não esqueçam que a cautela é sempre amiga dos que prezam a vida. Não esqueçam o cinto de segurança, não esqueçam que quem bebe não dirige e que nunca devemos entrar no carro com alguém que ingeriu alguma bebida alcoólica. Pensem antes de agir, mas de vez em quando ajam por impulso.

Sejam sempre felizes e quando tudo estiver cinza, pensem em meu abraço. No cheiro da torta de maçã e nas cantigas de ninar. A coisa mais reconfortante é saber que sua mãe está ali, na hora que você precisar.

Com amor,

Mamãe

Quando o cansaço invade

Tem dias que o cansaço bate. Quem tem filho pequeno, totalmente dependente, sabe bem disso. Apesar de ninguém quase admitir, mãe é um ser humano e cansa sim. Cansa, se irrita, perde a cabeça e perde a linha e não sabe o que fazer. No universo cor de rosa da maternidade ninguém fala que ser mãe é ultrapassar seus limites, até chegar ao seu extremo e encontrar uma forma de sorrir e deixar tudo de lado. Muitas dizem que basta ver o filhote sorrindo que tudo passa.

Eu não acredito nisso. Ou melhor, para mim isso não funciona. Quando estou no meu extremo limite, nada me faz encontrar a paz de espiríto a não ser dormir. E dormir, também é artigo de luxo na vida de uma mãe. Mesmo no meu caso, que o PH dorme lá pelas 9 da noite até o outro dia pelas 7:30. Primeiro porque a gente nunca dorme ao mesmo tempo que eles. Segundo porque mesmo que ele acorde e tire mais uma sonequinha nosso sono já foi para o espaço e terceiro porque sempre se tem muita coisa para fazer.

Quem é mãe em tempo integral, por opção, vocação ou falta de opção, sabe que além do bebê, tem a casa, a comida, a vida para organizar. E a rotina pesa. E parece que o dia sempre é pequeno para tudo que se deve e quer fazer. Sim, porque tem uma diferença muito grande entre dever fazer e querer fazer. Eu, por exemplo, faço milhares de coisas durante o dia que tenho que fazer para a vida seguir organizada aqui em casa. Acorda cedo, da a mamadeira pro bebê, troca a fralda, coloca ele no berço para mais uma sonequinha, coloca a roupa na “maria” pra ela bater, descasca legumes, coloca para cozinhar, prepara a fruta do bebê (opa! preciso tomar café da manhã), arruma as camas, passa vassoura na casa. O bebê acordou, da a fruta pra ele, brinca com ele, coloca ele para olhar a “Galinha Pintadinha”, faz o almoço pro outro bebê grande, serve o almoço pra todos, da almoço pro bebê, troca a fralda, coloca ele pra tirar uma soneca, arruma a cozinha (opa! esqueci de almoçar). O bebê acordou, troca a fralda, brinca com ele (tem que pendurar a roupa que a “maria” bateu). Da mamadeira pro bebê, coloca ele pra tirar uma soneca, termina de arrumar a casa. recolhe a roupa, bebê acordou. Brinca com ele. Da a janta pra ele, faz janta pra todo mundo, serve a janta, arruma a cozinha (esqueci de jantar novamente), da banho no bebê, mamadeira, conta uma histórinha, coloca ele pra dormir. Ufa! Hora de dormir! Mas e o livro que eu queria ler? E a minha sobrancelha que parece mais uma taturana? E as roupas para passar? E aquele filme que eu queria olhar? “Quem sabe amanhã”, a gente pensa mas parece que o amanhã nunca chega.

E ainda tem gente que diz que é fácil passar o dia todo dentro de casa e não sabe do que a mãe de casa tanto reclama. No meu caso estou em casa por falta de opção, sou jornalista e estou morando numa cidade de 20 mil habitantes onde não consegui emprego. Curto muito ficar com o PH em período integral, já que com a Duda eu precisava estudar e não tinha essa possibilidade. Mas eu queria sim trabalhar fora, queria poder me arrumar todo o dia para trabalhar, vivenciar um outro mundo e voltar para casa cheia de saudades. Admiro muito as mães por vocação, aquelas que se dedicam e se entregam 24 horas para seus rebentos e fazem isso por opção.

A rotina de quem trabalha fora também é absurdamente puxada, afinal, algumas, fazem tudo que eu faço e ainda trabalham fora. Mas o fato de ter aquelas horas em outro universo, que não o da maternidade, pode servir como terapia ocupacional. Ainda mais quando elas trabalham no que gostam.

Mas enfim, voltando ao cansaço e a estar no limite extremo, me questiono o que eu poderia fazer para desopilar (dormir por umas 48 horas seguidas, seria o meu sonho de consumo no momento). A questão é que é preciso muito jogo de cintura para não pirar de vez, não ter um surto e jogar tudo pro alto. É preciso encontrar uma válvula de escape, que não seja o chocolate, se não a gente vira uma bola, e que supra todas as nossas necessidades pessoais. Sim! Mães também tem necessidades pessoais! Aqui em casa, tentei instituir o “dia da mamãe”. Normalmente um domingo, em que quem acorda é o pai e quem deveria fazer tudo o dia todo é o papai. Mas o “dia da mamãe” só funciona até a hora que eu acordo, um pouquinho mais tarde que o costume. 

Estou ainda procurando minha válvula de escape, a terapia ocupaconal, o jeito de entrar no universo cor de rosa e não sair mais de lá. Se alguém tiver alguma sugestão, eu aceito! Por enquanto, sigo no limite, mantendo a rotina do lar e tentando dividir um pouco disso com vocês. É frustrante chegar no final do texto e não achar a receita mágica, mas a verdade é que não existe fada madrinha, receita pronta ou manual de instruções (apesar de que sou da teoria que todo bebê deveria vir acompanhado de um e de botões de liga e desliga) e cada uma de nós precisa achar a sua fórmula de resolver as coisas. Agora deixa eu correr que o bebê acordou!

Amada Helena



Quando Helena nasceu, no dia 31 de janeiro de 2012, um sonho se realizava para Tatiana e Giovane. Ambos na faixa dos 30 anos, juntos há 15 anos, moradores de Morungava, zona rural de Gravataí, cidade que faz parte da Grande Porto Alegre no Rio Grande do Sul. A espera de Helena ocorreu tranquila, uma gestação sem nenhum problema. Mesmo em condições simples de vida, compraram o enxoval, decoraram o quartinho e aguardaram o momento de ter nos braços sua princesa. Fizeram filmagens desde o quarto mês da gravidez. Quando ela nasceu, filmaram e fotografaram tudo. Queriam que quando ela crescesse ela soubesse o quanto foi esperada e amada.Helena nasceu de cesariana. E num primeiro momento foi considerada absolutamente saudável. O sonho da maternidade tinha se concretizado com sua filhinha. Helena e os papais foram para sua casa.

No dia 17 de fevereiro, Helena foi arrancada dos braços de seus pais. Faleceu por não conseguir uma vaga numa UTI Neonatal, realidade muito triste desse nosso Brasil e do Sistema Único de Saúde.





Com dez dias de vida ela foi diagnosticada com um problema no coração. Cardiopatia congênita, o que fazia o sangue entrar e sair rapidamente do seu pequeno coração, havia canais que não haviam se fechado totalmente. Foi medicada e recomendado aos pais que se ela vomitasse toda a mamada ou tivesse dor de barriga procurassem o hospital.

Foi o que aconteceu no dia 17 de fevereiro. Quando chegaram ao hospital Dom João Becker, Helena foi examinada e seria preciso uma cirurgia para resolver a situação. Porém para a cirurgia era necessário uma vaga em uma UTI Neonatal. Só que não havia vagas disponíveis.

Enquanto Tatiana cuidava da sua bebê, Giovane corria desesperadamente contra o tempo para salvar sua filha. Buscou uma liminar na justiça para a compra de um leito (infelizmente algo que acontece mais seguido do que deveria no Brasil), mas quando conseguiram foi tarde demais. Helena já havia falecido.

Não tem como descrever a dor de um casal que perde seu filho. Não existe como abandonar o luto. Helena tinha uma vida pela frente que poderia ter se concretizado com uma vaga em uma UTI Neo Natal. Helena cresceria e seria uma menina linda, sapeca e feliz se os exames feitos na maternidade fossem mais profundos e diagnosticassem esse tipo de situação. Helena entraria numa escola e escolheria uma profissão se todos os nossos hospitais fossem bem equipados. Helena teria uma família, um marido, filhos e quem sabe netos, se nossos postos de saúde estivessem preparados para realizar exames mais profundos. Helena teria uma história para contar se as emergências do nosso país não fossem super lotadas. Mas Helena morreu. Helena não vai crescer mais. Helena não vai dar os primeiros passos. Helena não vai dar o primeiro sorriso e nem falar a primeira palavra. Helena morreu.

Da dor e sentimento angustiante de não poder ter feito nada além de rezar para a boa vontade de um juiz, a boa vontade de um médico ou a boa vontade de um hospital, nasceu uma ideia. Tatiana e Giovane resolveram transformar a dor em algo útil. Criaram uma fanpage “Amada Helena” e começaram a entrar em contato com outros pais que sofreram de uma perda tão absurda e irreparável como a deles. Criaram uma petição pública on line e buscam um milhão de assinaturas.

Tatiana se inspirou na lei da ficha limpa, que lembra de ter visto na TV. Ela quer uma milhão de assinaturas para poder entregar para a Presidente Dilma e exigir que nossa lei proteja as crianças e outros pais não passem pelo sofrimento que eles passaram. Ela quer mais UTI’s Neonatais espalhadas pelo país, com mais leitos disponíveis para que não seja preciso ir atrás de um juiz para garantir um atendimento que está em nossa constituição. “Todos tem direito a saúde e tratamento adequado e de qualidade”.

O que eu quero? Quero que você leia, compartilhe, assine e ajude a conseguir esse um milhão. Quero que você se coloque no lugar da Tatiana e do Giovane por apenas um segundo, e tente, só tente, imaginar o sofrimento de perder seu bebê. Talvez não seja possível, pois a dor é imensurável.

Poderia ser eu, poderia ser você. Poderia ser nossos filhos. Mas foi Helena.

A vida que nasce da superação



Tem histórias que merecem ser contadas. São histórias de superação, histórias que mexem com a nossa imaginação e sentimentos e nos fazem questionar alguns mitos e preconceitos que temos. Quando essas histórias acontecem perto de nós, parece que o cuidado ao relatar fica redobrado e a dificuldade de escrever surge com uma voracidade que parece que você nunca redigiu mais que duas linhas na sua vida.

Me considero uma aprendiz de escritora. Já contei muitas histórias reais e fictícias, já baguncei o sentimento de muita gente com textos de reflexão e desatinos insanos no Causos&Prosas mas esse foi o texto mais difícil de escrever. Procurei várias maneiras de contar, impessoal, pessoal, carregada de emoção, como reportagem e nenhuma dela me agradou. Todas faltavam alguma coisa. Então, resolvi contar, como que conta para uma amiga, uma história da minha vida.



Eu tenho uma prima que sempre foi muito especial para mim. Somos primas irmãs, ou primas gêmeas como brincávamos em criança. Eu nasci no dia 18 de agosto as 21:10 e ela nasceu no di 19 de agosto pelas 4 da tarde (não sei o horário exato, mas o que importa é que não temos nem 24 horas de diferença). Crescemos, descobrindo as coisas da vida juntas. Brincamos muito e também brigamos muito. Nosso primeiro carnaval foi juntas, o primeiro porre ( pelo menos o primeiro que me marcou ), os primeiros namoradinhos sérios e muitas primeiras vezes das nossas vidas aconteceram juntas. O nome dela é Débora Haupt, mas a gente chama ela de Debi, e ela tem 32 anos, uma marido maravilhoso chamado Jair e uma filhinha muito fofuxa chamada Manuela de 1 ano e 3 meses. Eles moram em um distrito do município de Farroupilha, no Rio Grande do Sul, ou seja, moram no interior do interior. E a vista da janela da sala deles é uma imensidão de verde, com uma represa que acalma só de pensar. Até ai não tem nada demais. Ela é uma mulher na casa dos 30, com família que mora num lugar lindo.

Mas a história, infelizmente, não é tão simples assim. Uma semana, depois de fazer 26 anos, em 2006, ela e o marido, iam de moto para Bento Gonçalves, cidade vizinha de Farroupilha, para encontrar uns amigos. Tinham planejado uma viagem, com um grupo da escola de idiomas onde a Debi lecionava espanhol. Eles iam na preferencial da estrada. Em um cruzamento, um carro ameaçou atravessar a pista, porém quando viu a moto freou. Mas o carro que estava ao lado desse seguiu e acertou a moto. Ela, que estava na garupa, voou por cima do marido e caiu de cabeça no asfalto. Quando as primeiras pessoas chegaram em torno dela, ela consciente pediu que ninguém a tocasse, pois não sentia nada do pescoço para baixo. O acidente lhe causou uma lesão medular na cervical. E como consequência Débora ficou tetraplégica. Foram duas cirurgias para estabilizar o pescoço. Muita torcida para que o movimento do diafragma voltasse a funcionar. Muitas noites rezando para que ela saísse do hospital e muitas outras chorando pela incerteza do futuro. Não é fácil de uma hora para outra pensar que todos os sonhos podem não se realizar. Se a gente sofre angustiantemente sem sofrer um acidente assim, imagina como não deve ser a dor emocional de quem, de repente, tem seu estilo de vida roubado por um babaca no trânsito.

Depois do período intenso no hospital era preciso reagir e descobrir formas de se adaptar a nova condição. Minha prima e o marido viajaram para Brasília, ela ficou internada no Hospital Sarah, onde aprendeu a fazer pequenas coisas, com adaptações, nas mãos para que ela pudesse “segurar” os objetos. Comer, escovar os dentes, o cabelo, se maquiar. Aprendeu também por lá a fazer artesanato e produziu muitas coisas lindas para toda a família. Ao todo, Débora, foi seis vezes para lá e cada vez volta com novidades e novas possibilidades para melhorar a sua qualidade de vida. Mas os sonhos de outrora permaneciam. Ser mãe era um deles. Teoricamente não havia problema algum no aparelho reprodutor. A lesão não impossibilitava ela de gerar um bebê. Mas e a pratica? 

Depois de cinco anos do acidente, Debi se sentia preparada para poder superar mais esse desafio. No próprio Sarah teve as orientações necessárias. Realizou os exames devidos e procurou em sua cidade um obstetra de alto risco. Porque apesar de o aparelho reprodutivo não ter nenhum problema, uma grávida tetraplégica tem mais propensão a trombose e infecções urinárias. Agora você imagina que, nessa situação, além de todo o cuidado foi feita uma cesariana para que a a Manu nascesse. Sim, obviamente, não é possível que alguém que não tenha movimentos das pernas e não sente dores tenha um filho de parto normal. Errado. A Manuela nasceu de parto normal.

A obstetra que a Débora procurou, fez várias pesquisas para ver as possibilidades, estudou o caso direitinho e achou uma alternativa. Era preciso um anestesista. Uma pessoa que não tem a sensibilidade da dor pode ter uma disreflexia (reflexo da dor para quem não tem sensibilidade) perigosa e descompensar. O anestesista embarcou no sonho de todos e procurou a melhor analgesia, para que ela pudesse ver sua filhinha ao nascer. O parto da Manu foi induzido. O controle de dilatação era rigoroso para que tudo corresse bem. Antes do parto foi feita a analgesia para que nada desse errado e a força necessária foi feita manualmente por fora da barriga. 

E assim a Manuela veio ao mundo, podendo ter o contato com a sua mamãe nos seus primeiros segundos de vida e minha prima pode ver seu rostinho. Claro que existem dificuldades, mas como ela mesma diz ” A maior dificuldade esta dentro da cabeça do adulto quando não pode fazer determinadas coisas que gostaria e não consegue. A gente sente falta de muita coisa, e às vezes bate uma tristeza por isso. Mas o fato de ter podido ter um filho e a preparação psicológica que e necessária faz com que eu consiga sempre buscar o lado positivo e maravilhosos de ser mãe. A Manuela me encheu de vida e isso não tem preço, preciso superar esses conceitos e curtir aquilo que posso fazer e o que tenho nas mãos”, sorri Débora.

Vontades…

Vontade de comer doce, beber água, tomar uma coca cola, uma cerveja gelada. Vontade de uma mesa de boteco, recheada de amigos, coberta de boas gargalhadas e de preferência bem servida de energias boas.


Vontade de sorrir, de chorar, de viver, de parar, de andar. Vontade de sair da rotina. Rodar o mundo, ficar quieta no meu cantinho. 


Vontade de meditar. De ver o sol se por no Guaíba, de ver o sol nascer na praia. De olhar o mar, de sentir a brisa, de sorrir pra vida. Vontade de não pensar em mais nada, de não ter mais vontades. De seguir as vontades.


Vontade de mudar. De acontecer, de ser, de estar, de ficar, de partir. Vontade de acreditar, de fugir, de me entregar. Vontades antagônicas em si, superficiais em mim, estagnadas na vida e serenas num dia.


Vontades…

As caçadas de Pedrinho

Em quarenta dias de vida descobrisses muita coisa. Tuas mãozinhas são partes do teu corpo, que podem servir de consolo quando a chupeta não está perto ou o teu “tototo”.Também sabes que elas servem para agarrar e apertar com força quando estás descontente com algo. Sabes diferenciar música de qualidade. E tens um gosto bem eclético, dormes tanto com musiquinhas de ninar, próprias para tua idade, como com metálica, Lulu santos, Steve Vai. 

Tens uma fome desproporcional ao teu pequeno tamanhinho. Fome tanto de leite quanto de conhecimento, em cada ambiente arregalas os olhos, prestas atenção em tudo e por um minuto até para com a manha para saber o que está acontecendo e onde estás.Olhos esses que parecem azuis, como os meus e que são pequeninos e apertadinhos, típicos da minha família.
Mas por enquanto não negas teu pai, a careca, as entradas, as enrugadas na testa e deixa-la franzidas. Como são parecidos. Nestes teus 40 dias de vida, aprendestes direitinho como é bom um colinho, sabes quando precisas de algo e grita a plenos pulmões e quando é apenas uma manhasinha, tipíca de quem só quer uma atenção. E já descobristes que és lindo, afinal os espelhos exercem uma força sobrenatural sobre ti.
Preguiçoso para mamar, manhoso para ganhar um colinho, briguento quando queres algo de verdade. Assim foram os teus 40 dias de vida. Assim espero que sejam os próximos milhares, mesmo que eu fique acordada outros tantos deles, cheios de vida, de energia, e de grandes descobertas e caçadas nesse mundão que ainda vais descobrir.

O Pequeno Príncipe de minha vida

Faz horas que devo ao blog um pouquinho de atenção, mas eram tantas coisas ao mesmo tempo que faltava tempo para chegar até aqui. Talvez nem fosse o tempo que faltasse, mas a dedicação e sentimento necessário para me encontrar aqui.
Depois fiquei negando, achando clichê e porque não dizer um pouquinho brega o que eu realmente queria dizer. Mas agora é o momento certo.

Desde que me conheço por gente eu queria ser jornalista. Escrever, mudar o mundo e desvendar mistérios. Quando criança adorava essas coisas e pelas estradas tortuosas da vida me desviei do rumo, peguei bifurcações que me afastaram e foi custoso voltar ao ponto inicial. Mas eu sempre acreditei que na vida tudo tem um sentido e que, mesmo que leve um tempo, a gente sempre chega nos mesmos lugares porque está escrito no destino.
Eu cheguei. Mas tiveram inúmeras pessoas que me fizeram chegar lá. Amigos, familiares, professores e mestres. Pessoas pra quem dediquei e agradeci cada passo que dei no percurso.
Como acredito que nada é ao acaso no meio do caminho conheci a personagem mais importante desse trajeto. Se para ele eu sou a Miss Marple de Agatha Cristie para mim ele é a personificação do Pequeno Príncipe de Saint Exupéry. Se parar pra pensar até semelhanças físicas os dois tem. Loirinhos, com olhares de criança, que não se intimidam diante dos sentimentos e transparecem o que sentem. Correndo atrás de seus objetivos, que são simples, diretos, humildes e que ensinam lições gigantes a todos que cruzam pelo seu planeta  ou pelos planetas que eles visitam. Planetas que tem donos diferentes, que tem aspectos diferentes, mas que ele por seu olhar singular sabe admirar e evidenciar tudo de melhor.
O Pequeno Príncipe de minha história lembra de mim em uma balada, logo que chegou a cidade, me descreveu como a simpática que ficou dando dicas da cidade. Eu lembro dele, antes de nossos caminhos se cruzarem, quando em um trabalho de faculdade, recebi um trecho da dissertação de mestrado para ler.
Quando na bifurcação da vida nos encontramos me identifiquei fácil com sua trajetória,  na primeira aula em que se apresentou e fez questão de apontar seus erros e seus defeitos, e como um sábio, um pai ou irmão mais velho, dizia subjetivamente para a gente não seguir aquele caminho que percursos melhores existiam.
Eu era nova, recém chegada, uma estranha em turmas que já tinham seus grupos fechados e que tinham limitações para aceitar estranhos. E eu não era mais uma menina. Ele também, mesmo dentro de seu grupo sendo considerado um menino.
Não foi naquele dia, mas foi nesse momento que decidi ou que ele decidiu que seria meu orientador. E o que se seguiu depois foi obra do destino. 
Poucas pessoas tem o dom de encantar outras e ele tem. Poucas pessoas são capazes, de conduzir outras e ele é. Poucos são os generosos que doam seu tempo, suas horas de sono, de lazer e de vida para os outros. Ele faz isso. Ele compra as brigas por nós, nos defende, puxa as orelhas e ensina. Não se contenta em passar conteúdos, ele quer passar vida. Divide agonias, nos acalma nas horas certas e nos deixa na adrenalina quando é disso que precisamos.
Engraçado que ele falava para mim de como eu me doava para os outros, como eu sempre estava disposta a ajudar e ajudava, de como eu era capaz de ser uma executiva e enquanto ele falava tudo isso eu pensava “e você?”. Você é tudo isso também.
Um humor peculiar, que causa estranheza num primeiro momento e que depois diverte. Uma pessoa humilde, ingênua, decidida, metódica, perfeccionista e amiga. Nossa e como é capaz de ser amigo. De estender a mão, de olhar para frente e enxergar o que as vezes mais ninguém vê. Um leitor de almas. 
Foi uma grande honra ter dividido com você esse meu ano. Um ano tumultuado com tantas coisas, um ano sofrido, angustiante e decisivo. O ano em que me tornei a jornalista que queria ser desde criança. Você me conduziu pelo caminho, me ensinou cada passo, aguentou minhas indecisões, minhas dúvidas e até as TPM’s e ainda assim sorriu para mim. Você se tornou um amigo, um amigo que com certeza, mesmo que os quilômetros separem  estará sempre num cantinho muito especial do meu bau de memórias, porque além da honra de ser sua orientanda tive a honra de conviver com você. Porque você é uma pessoa incrível.
E para terminar quero dizer que se eu tenho a veia jornalística como um dom você tem a docência. São poucas as pessoas que passam pela vida acadêmica das outras e que conseguem deixar para sempre gravadas o seu nome, não como mais um professor, mas como como um verdadeiro mestre. Você é o mestre, você é o cara e todo o seu tesão por ensinar passa pelo seu olhar na sala de aula. E todos aqueles que passam pelas suas aulas e são capazes de perceber isso se apaixonam e percebem a diferença entre ser professor e ser mestre. Você muda e transforma, com todas as dificuldades e resistências daqueles que tem medo e te enxergam como um inimigo, as salas de aula e a maneira como deve ser conduzida a faculdade. O teu sucesso nessa importante missão na vida é o nosso sucesso. E se existe alguém que duvide dele é porque não tem a capacidade de viver feliz com a conquista dos outros.
Você, Marco Antônio Bonito, é o pequeno príncipe da minha história, que de pequeno não tem nada, porque és grande como poucos conseguem ser.

Chega uma hora na vida da gente

Chega uma hora na vida da gente que não se acredita mais em milagres. Nem em contos de fadas. Muito menos em pessoas. Se perde a fé por completo e acaba-se ficando rude, descrente e pessimista.


Chega um momento na vida da gente que não se acredita mais no amor. Nem em relacionamentos. Muito menos em alma gêmea. Se perde a auto estima por completo e acaba-se ficando racional, triste e amargo.


Chega um dia na vida da gente que não se acredita mais em palavras. Nem em frases de efeito. Muito menos em pensamentos. Se perde a sensibilidade por completo e acaba-se ficando frio, insensível e vazio.


Chega um segundo na vida da gente que não se acredita mais em nada. Em absolutamente nada e perdemos todas as chances de seguir em frente.


Mas chega uma hora em que o milagre acontece. Uma momento em que o amor acontece. Um dia em que as palavras sensibilizam. Um segundo em que tudo acontece. E aí são os contos de fadas, as pessoas, os amores, os pensamentos  e as chances de seguir em frente que lhe mostram o quanto ainda temos a caminhar, a amar, a sorrir, a acreditar e principalmente a ser feliz.