Depressão pós parto na machete do jornal

No meio da noite o telefone parecia anunciar a tragédia. Demorou alguns minutos até que ela entendesse que estava tocando aflitamente. Seu coração disparou pensando no que poderia ser. De tantas coisas que passaram em sua cabeça, entre os segundos que levantou da cama e correu até a sala, nada se comparava ao que acabava de ouvir. 
– Estou vivendo com ele há um ano e meio e cansei dessa história. Por isso estou lhe ligando.
Desligou o telefone e espiou o berço de sua filha. A menina, recém nascida, ainda não completará um mês de vida. “Um ano e meio” ressoava em sua cabeça como um sino. Obviamente ele não estava em casa. Mais uma vez tinha lhe dado uma desculpa, que ela sempre acreditava, para não estar ali. Então, como se alguém a sacudisse entendeu: um ano e meio que ele dava desculpas, que estava sempre atarefado, viajando, trabalhando e ausente. Um ano e meio que ele a traía. Como não desconfiou de nada. 

Esperou ele chegar em casa no outro dia. Ele disse que tinha acabado tudo com a outra que viveria com ela e que a reconquistaria. Ela acreditou. Mas ele continuou ausente. Então, num dos dias que ele não voltou, criou coragem e foi atrás dele no serviço. Ao chegar lá, todos a olhavam com cara desconfiada. Até que alguém lhe disse “mas ele acabou de sair daqui com a esposa”. Ela voltou pra casa, tentando fingir que havia sido um engano. Apenas um colega de serviço distraído que se confundiu. Mas no fundo, mesmo não querendo acreditar, sabia que ele estava com a outra. 
Mais uma vez resolveu perdoar. Ele dizia que a outra o havia procurado e só saíram para conversar. Apesar dele só ter chegado em casa no outro dia a tarde, ela entendia que essas conversas poderiam ser bem complicadas e longas. Então a outra bateu em sua porta. Com um sorriso malicioso, uma criança um pouco maior que sua filha nos braços e outra na barriga. E ela, ficou tão espantada, que a deixou entrar. Ele disse que os filhos não era dele, que a outra era puta, tinha muitos amantes e ela acreditou. A outra disse que ele queria largar ela, mas tinha pena por ela ser assim, tão inocente, e que por isso ainda continuava com ela. E ele continuou ausente, a outra continuou a frequentar sua casa e até deixava a criança para ela cuidar enquanto precisava conversar com ele trancada no quarto.  
Até que um dia, ela não lembra exatamente como tudo aconteceu até a polícia chegar. Lembra-se da faca em sua mão enquanto preparava o almoço. Lembra-se de ouvir a outra gemendo de prazer e rindo, lembra-se de abrir a porta do quarto onde eles estavam, lembra-se da cara de pavor da outra enquanto rastejava para sair da casa. Lembra-se de estar segurando o coração do marido na mão e do gosto que tinha tanto sangue em seu rosto. E da polícia. Na capa do jornal sensacionalista da cidade estava uma foto dela coberta de sangue, algemada e com o coração dele na mão. A machete dizia “Mulher com depressão pós parto arranca coração do marido e mata amante”.

Meu universo e os universos paralelos

Desde que as coisas deram uma reviravolta na minha vida tenho tentando mudar muitas coisas que me incomodam em mim mesma. Isso exige um grande sacrifico já que sofro constantemente do mal de procrastinar (já falei dele por aqui) e normalmente as coisas que mais nos incomodam, em nós mesmos ou nas outras pessoas, estão enraizadas em nosso inconsciente e são as mais difíceis de se perceber.
Toda a mudança exige sacrifício e disciplina, mas é muito mais tranquilo fazê-las quando estão visíveis ou são coisas práticas. A questão é mudar o que se não percebe, não se enxerga e nem se apalpa. E algumas vezes para poder fazer uma mudança você precisa ir fundo, bem fundo no que está por trás daquele hábito, sentimento ou reação. 
Então para conseguir ir tão fundo quanto eu quero ir pra realmente mudar, tenho tentado ser uma pessoa mais observadora. Observadora de mim mesma, das coisas a minha volta e das outras pessoas. Tenho me esforçado para ouvir com atenção o que meu corpo e minha mente falam e qual a mensagem que está subentendida em cada universo paralelo ao meu. 
E quando a gente começa a observar tantos universos, constelações e sinfonias acabamos, de certa forma, entendendo a complexidade de tudo qu nos cerca e faz com que a gente seja quem a gente é. 
Cada um de nós é um universo. Alguns universos são raso, pequenos e ficam bem assim. Outros são tão complexos que se perdem dentro de deles mesmo e existem ainda os que não cabem em si é precisam se expandir pra não implodir.
E então descobrimos que todos esses universos são paralelos e podem se fundir criando outros universos que coabitam. Às vezes se chocam tentando permanecer na mesma órbita é pode também acontecer de se tornarem um só. 
O que importa é como é o meu universo, onde eu quero que ele flutue e como eu quero expandi-lo. Só quando a gente entende a complexidade do que somos é que nos tornamos capazes de mudar o que é necessário.

Se der medo, vai com medo mesmo…

Eu tenho o dom de transformar as coisas de uma maneira que nem eu consigo entender. Sabe aquela coisa de se auto-sabotar? De dificultar tudo de um forma que fica impossível depois achar uma saída viável. Muitas vezes as coisas são simples, mas aí vem aquele monstrinho interno e começa a pensar em um bilhão de besteiras para tirar toda a simplicidade e colocar mil amarras e dificuldades no caminho. E no final o monstro deixou tudo tão enrolado que não sei onde foi parar a a ponta pra desembolar. 
Muitas vezes tenho a sensação que sou a única pessoa no mundo assim, que transforma tudo em bola de neve, que faz tempestades com direito a raios, trovões e muito vendaval por qualquer motivo e depois deixa tudo desaguar por ai, sem conseguir conter e  inundando o rosto de lágrimas e as ruas da vida  de lama.  Parece que sempre me conduzo para encruzilhadas, onde matar ou morrer é a única saída.  E matar os monstros internos, pode ser mais complicado até que matar baratas ( e se você acha fácil matar baratas não tem noção do que é o desespero de alguém que tem pânico delas). 

O problema é que o monstro interno faz parte de nós. Ele é um pedaço seu, que carinhosamente você cultiva, alimenta e ama. Mesmo que inconscientemente. Então, mata-lo é matar um pedaço de você. Um pedaço que não lhe faz bem, mas que é seu. Com o qual você convive há muito tempo. É como um amigo imaginário, mas está mais para um inimigo real. O seu monstro interno, tenha ele o nome que você quiser dar, foi você que criou, mais ninguém. 
Então a gente chega naquela encruzilhada. É matar ou morrer. Ele te paralisa, te deixa sem saber o que fazer. Te coloca um monte de minhocas na cabeça e se você der ouvidos para ele ele te mata. O jeito é você matar ele. Lutar contra a sua incrível capacidade de te fazer mudar de opinião sobre aquilo que você tinha total certeza que era o caminho. É você ou ele. Num duelo interminável em que só pode ter um vencedor. Matar ou morrer. Sufocar ou ser sufocado. Você ou seu monstro interno. 
Todos temos monstros internos. Nossos medos, nossas certezas, nossas escolhas e suas consequências. Monstros. Monstros que criamos, que deixamos tomar conta, que sempre estiveram por ali, esperando o momento certo para colocar suas garras para fora e fazer a festa com nossa mente e nosso corpo. Monstros que precisamos derrotar. Na minha casa tem uma plaquinha na parede que diz “se der medo, vai com medo mesmo”. Ela está lá para me lembrar, que se eu não controlar o meu monstro nada vai sair do lugar.  
Se der medo, vai com medo mesmo. Se você tiver a chance, se jogue de cabeça. Se quebrar a cara, não vai ser nem a primeira nem a última vez. Se puder, faça tudo de novo e faça igual ou diferente, mas não deixe de fazer. Não importa quantas vezes a gente erra, importa quando a gente acerta. Não importa quantos medos tolos a gente tenha. Importa quando a gente tem a coragem. É matar ou morrer. É fazer com que cada agora seja feliz e os que não forem não forem tão felizes assim, que sirvam de aprendizado, não de alimento para o monstro. E se no meio do caminho o monstrinho resolver segurar as suas pernas, se esforce, procure dentro de você a força pra dar um pé na bunda dele e seguir em frente. 

Um parasita habita em mim

Eu não conseguia olhar nos olhos dele. Passava um filme na minha cabeça de todas as outras vezes que me machuquei, me magoei, chorei e me senti um lixo. Ele estava ali, na minha frente, com a mão estendida e tudo que eu pensava era “preciso sair daqui”. Nenhuma das palavras que saiam da sua boca, tocavam meu coração. Era como se parasita, que vive dentro de mim, ouvisse tudo e transformasse em coisas negativas. 

Aquele parasita, que foi alimentado por tantos outros relacionamentos frustrados, sugava minha alegria, minha energia e me apontava para um caminho onde eu seria para o resto da minha existência sozinha e infeliz. O parasita não deixava eu me iludir que poderia ser diferente. Não permitia eu imaginar momentos bons. Ele estava ali para me lembrar de que eu seria magoada novamente. Eu não sentia nem medo porque o parasita já havia tomado a decisão por mim.
A mão continuava estendida. Ele esperava uma resposta, esperava que eu segurasse sua mão e fosse embora com ele, para o felizes para sempre, mas o parasita afirmava “preciso sair daqui”. Sem dizer uma única palavra, eu dei as costas e fui embora. Não olhei para trás. Se eu olhasse, o parasita não me perdoaria por hesitar. 
Sai caminhando e pensando até quando eu deixaria que outra coisa controlasse minha vida, meus desejos, vontades ou sentimentos. Por que? Por que eu deixei o parasita se instalar e nunca lutei contra ele. Por que eu seguia deixando ele dominar minha vida. E se fosse diferente? E se realmente a história com Pedro pudesse dar certo? E se realmente existe um “viveram feliz para sempre?”. Claro que eu sabia que o para sempre é modo de dizer e que ninguém é feliz para sempre, o tempo todo. Mas eu poderia ser feliz a maior parte do tempo, ao contrário do que o parasita fazia comigo me deixando triste em período integral e não permitindo que eu sequer imaginasse momentos felizes. O para sempre poderia ser feito de agoras, de momentos e de situações. Mas o parasita não deixava.
Realmente era isso que eu queria. Viver triste para sempre com o parasita. Deixando ele dominar minha vida e sendo o meu rumo. Se não fosse isso, por que eu não expulsava ele de dentro de mim? Era só reagir. Era só dar uma chance ao Pedro. Apenas deixar com que eu me permitisse sentir, qualquer coisa que fosse, e viver. Mas mais uma vez eu escolhia o parasita. Se eu tentasse com o Pedro e ele não me fizesse feliz, o parasita me atacaria com mais força e, talvez, fosse o fim de tudo. Ele me destruiria e ai não haveria mais chance para mim. 
Mas por que o Pedro teria que me fazer feliz? Porque eu não poderia ser feliz com o Pedro? Existia uma diferença ali, que eu não enxergava. Eu não precisava de outra pessoa para ser feliz. Eu precisava apenas de mim. O Pedro deveria ser um complemento da minha felicidade. Estava tudo errado. A minha vida toda fiquei esperando pelos outros para ser feliz, para que me amassem, para que transformassem a minha vida. Há quanto tempo, quantos relacionamentos, eu esperei por isso? Quantas vezes me deixei iludir que aquele era o cara que me faria feliz, mas eu estava procurando no lugar errado. Talvez o parasita sempre morou dentro de mim. Sempre se alimentou dos meus sentimentos, das minhas inseguranças, minhas risadas e vitórias. Talvez ele sempre tenha me mantido cega.  Definitivamente não era o amor de outra pessoa que me faria feliz, era o meu amor próprio.
Me virei para trás. Pedro seguia sentado na mesma mesa, me olhando partir, com os olhos marejados, sem entender o que tinha acontecido. Comecei a correr em sua direção. O parasita tentou me paralisar. Mas eu não queria mais deixar ele me dominar. Pedro se levantou e eu cai nos seus braços. Sem entender nada, apenas me abraçou forte e enquanto o parasita se contorcia dentro de mim, tentando se libertar daquele abraço eu senti uma euforia gigante e, em um segundo, eu entendi que  se eu seguisse naquele abraço o parasita adormeceria, mas eu precisaria todos os dias, reafirmar, que eu queria ser feliz com as pequenas coisas e, nunca, mais nunca mais mesmo, deixar ele me dominar. Mesmo que eu chorasse, me decepcionasse ou me frustrasse na vida, com qualquer coisa, quem acordava e alimentava o parasita era eu. 

——
Gostou? Então aproveita e adquira meu livro de contos e crônicas “Noites de Verão” aqui http://bit.ly/29WmmPu

Medos…

Eu não tenho medo da morte. Eu tenho medo da vida. Tenho medo das pessoas, das coisas que acontecem, do que foge ao nosso controle, dos pensamentos sombrios que invadem a nossa mente e não dão licença para mais nada. Tenho medo dos medos que tomam conta, que deixam tudo cinza, que fazem com que a gente não diferencie mais nada. Tenho medo do que eu não posso fazer, do que eu não posso prever, do que eu não consigo enxergar. 
Tenho medo dos rompantes de raiva, das inundações de lágrimas, da falta de luz no beco sem saída. Tenho medo de demonstrar minha fraqueza, de ser vista de verdade, de não conseguir me esconder. Tenho medo do bloqueio criativo que me assola, da mão que não consola, dos dedos que apontam sem direção. Tenho medo de ficar sem ar, de não mais respirar e nem inspirar. 
Tenho medo das coisas não ditas, das palavras esquecidas, das histórias não vividas. Tenho medo da falta de diálogo, da falta de contato, de carinho e de abraço. Tenho medo do que ainda não aconteceu, do que já passou e do que nunca ocorreu. Tenho medo da angustia que aperta meu peito, que contorce minha alma e descolore minha aura. Tenho medo de tudo, de todos, dos daqui e dos de lá. Tenho medo do nada, do vazio, do inerte, do inespressivo. 
Tenho medo de ter medo. Medo de não ser o que sou, o que quero ser. De não ter a chance de consertar, de brigar, de chorar e de viver. Tenho medo de não sorrir, não amar e não sentir. Tenho medo de viver, em constate coma lúcido, arrastando os dias e esperando, de alguma forma, chegar ao fim. Tenho medo de não superar, de não aprender, de não mudar e não voltar. 
Tenho medo de chorar, de falar, de gritar e de demonstrar. Tenho medo de não saber o que aconteceu, depois que o inevitável chegar. Tenho medo simplesmente de existir. De continuar, de seguir e de parar. Tenho medo de mudar e não modificar. Tenho medo de não ter medo de morrer. 
——
Gostou? Então aproveita e adquira meu livro de contos e crônicas “Noites de Verão” aqui http://bit.ly/29WmmPu

A onda perfeita

Quando eu tinha 12 anos fui passar as primeiras férias de inverno na cidade em que meu pai estava morando. Uma cidade muito pequena, com menos de 20 mil habitantes, cercada de água e onde tudo remetia a outro século. Meu pai morava na praia, que ficava 7km do centro, por uma longa estrada de areia. A gente não ia muito pra cidade e poucas pessoas moravam na praia. O movimento era quase zero naquela época do ano ali. 

Então eu conheci um menino. Ele se apresentava como Joca. Não sei qual era o nome dele de verdade, pois nomes e sobrenomes eram apenas rótulos e, naquela época, importava apenas os que a gente se intitulava. Ele era um menino quieto, 15 anos, cabelos longos, tinha um rosto lindo e um sorriso triste. Olhos que tinham uma profundeza e ao mesmo tempo uma opacidade sem vida. Não consigo lembrar a cor dos olhos dele mais. Não sei dizer se eram azuis, verdes ou castanhos. Só me lembro de nunca ter visto olhos tão sem vida. Pelo menos em um adolescente. Ele não tinha amigos, não tinha namoradas e morava sozinho em uma casa, na praia ao lado, que talvez nem fosse dele ou da família. Ninguém visitava ele e ele não visitava ninguém. 
Enquanto eu passava os dias lendo e escrevendo nas minhas agendas, ele passava os dias surfando. Queria pegar a onda perfeita. E quando ele saia da água, ficamos conversando, na beira da praia, enrolados em cobertores até a hora que desse fome ou sono. Então cada um ia pra sua casa. A gente tinha histórias parecidas. Pais divorciados, embora os deles tivessem se separado recentemente e os meus eram separados desde que eu me conhecia por gente. Pai que tinha ido morar em outra cidade. Mães que não nos compreendiam (pelo menos na época era o que a gente pensava) e com quem a gente brigava muito. 
Eu estava ali passando umas férias, eles estava ali eternizado. Com um único objetivo: a onda perfeita. Todos os dias ele perguntava se eu achava que o dia seguinte seria o dia. O dia da onda perfeita. E eu, no auge da minha grande maturidade dos doze anos, respondia que com certeza. E perguntava pra ele o que significava a onda perfeita e ele sempre respondia: um novo começo. Eu só nunca tinha entendido o que a onda perfeita realmente significava pra ele. Até hoje. 
A onda perfeita do Joca aconteceu no dia 01 de agosto de 1992 por volta das 14 horas da tarde. Eu só o vi boiando, entre as pedras, as 15:30, quando me sentei pra ler “A marca de uma lágrima” na guarita desativada. Não sei o que se passou exatamente depois disso, pois os fatos são confusos nas minhas lembranças. Mas o Joca se foi. Morreu afogado. “Foi acidente”, as pessoas da praia falavam. “Uma fatalidade”.
As minhas férias acabaram. As aulas retomaram e eu guardei o Joca por alguns anos em meu coração. Depois ele foi pra uma caixinha de recordações que ficou esquecida em algum canto da minha memória. Confesso que eu nunca parei pra questionar ou não se havia sido realmente um acidente. Bloqueei da minha memória. Até hoje. Até ler um livro incrível que fez todo sentido pra mim. E então o Joca voltou. Com seu sorriso triste e meu medo de que a culpa tinha sido minha. Se eu tivesse ido para praia mais cedo, se eu tivesse entendido o que era a onda perfeita… Mas hoje, quando revi seu sorriso triste, em minhas memórias, eu entendi: o novo começo que ele buscava ele encontrou. Não foi acidente. Não foi fatalidade. Foi a onda perfeita que ele buscava todos os dias no mar. Aquele foi o dia que ele escolheu e a culpa não era minha. 

——
Gostou? Então aproveita e adquira meu livro de contos e crônicas “Noites de Verão” aqui http://bit.ly/29WmmPu

Eu procrastino, tu procrastinas, ele…

Pro.cras.ti.nar

verbo & transitivo direto e intransitivo
transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair.
Eu não sei vocês, mas eu tenho o dom de procrastinar (ou seria maldição?). Uma prova disso é que poderia ter escrito esse texto (ou o texto que iria ser publicado na sexta) durante toda a semana. Mas em vez de fazer isso, deixei para a última hora e estou fazendo caindo de sono e de mau humor, porque mais uma vez, eu deixei para a última hora. 
O que mais me incomoda é que eu sou extremamente organizada. Eu planejo, faço lista de tarefas, organizo ideias, tenho calendários com tudo que deve ser feito, quando e como. Gosto de planejar, de organizar. Mas na hora de fazer eu vou enrolando, enrolando, enrolando até que está no último segundo do segundo tempo e vou lá e faço. E todo o planejamento? Toda a organização? Todo o tempo que eu teria para ter feito isso antes e que poderia ter deixado tudo melhor, mais perfeito e harmônico? Ai eu fico assim, me sentindo culpada e arrependida de não ter feito o que deveria fazer a tempo. 
E o pior é que eu não procrastino por que a tarefa é chata, porque eu não gosto de fazer isso,  porque não consigo fazer ou porque eu tenho algo mais importante e urgente para fazer. Eu só enrolo porque eu resolvo ler um livro (por sinal estou lendo um livro excelente “Por Lugares Incríveis”da Jennifer Niven,  Editora Seguinte que realmente é incrível e vale a pena), resolvo ver um filme, olhar um vídeo no facebook ou fazer qualquer outra coisa. E ai… Ai eu estresso. 
Estresso porque procrastinei mais uma vez mesmo jurando que não iria fazer isso essa semana. Sabe como aquela dieta que a gente sempre vai começar na segunda feira mas ai chega a segunda e ainda tem sorvete na geladeira e a gente resolve deixar para a outra segunda? É exatamente isso. É inconsciente. Vai além do que a gente pode racionalizar. Quando fez… Pá! Você já procrastinou novamente. 
E ai? Faz o que? Porque sei lá, penso que é como um vício. Quando me dou conta já estou repetindo mais uma vez e me deixando levar por qualquer mosquinha que passa na minha frente. Tive uma professora na terceira série que dizia isso. “Qualquer mosquito que passa te distrai”. E é verdade. Agora passei 15 minutos olhando para a televisão e esqueci o que estava fazendo.  E sabe o que é mais estranho? Minha cabeça fervilha de ideias! São tantas, tantas coisas para fazer, tantas histórias para escrever e no entanto eu procrastino mais uma vez. Ah, se eu tivesse como da minha imaginação tudo ir para o papel apenas com um piscar de olhos…
Enquanto isso, eu tento seguir me mantendo no foco, longe do vício. Tentando seguir nos objetivos e no que deve ser feito. Mas tem tantas coisas para serem vividas, tantos livros para serem lidos, tantas coisas para aprender. Como não desviar do caminho? Talvez os procrastinadores compulsivos como eu, precisem de um grupo de ajuda, tipo um Procrastinadores Compulsivos Anônimos. Descobrindo métodos para não perder o foco. Só de vez em quando, talvez. Afinal ninguém é de ferro…
——
Gostou? Então aproveita e adquira meu livro de contos e crônicas “Noites de Verão” aqui http://bit.ly/29WmmPu

No divã

– O que eu faço, Doutor?
Minha voz ecoava pela sala enquanto eu analisava pela milésima vez as rachaduras do teto daquele consultório. A resposta vinha como eco:

– O que você quer fazer?
Respirei fundo. O que eu quero fazer? O que eu quero fazer? Eu quero dizer que meus pais não pagam 200 pila por cada consulta para eu vir aqui e você simplesmente responder minhas perguntas com outras perguntas. E eu venho aqui duas vezes por semana há quase um ano e até hoje eu nunca sai de uma consulta com alguma resposta. Eu quero dizer que com o dinheiro que eu te dou de presente todo mês você deveria, pelo menos, pintar o teto e trocar esse sofá horrível que está com as molas saltando. Se o sofá fosse mais confortável quem sabe durante esses 45 minutos eu tiraria um cochilo e pouparia nós dois dessa baboseira e cansativa farsa de que você está me ajudando e eu melhorando. Pensei tudo isso. Mas respondi apenas ” não sei”. E a resposta que eu tive foi 
– Nos vemos na quinta.
Sim. Mais uma sessão havia acabado e eu sai do mesmo jeito que entrei naquele consultório pela primeira vez a cerca de 11 meses atrás. Sem saber o que fazer. Eu não sou um menino problemático, pelo menos a maioria dos pais dariam graças a Deus por ter um filho como eu. Quieto, estudioso, sem vícios, caseiro e sem namoradas. Mas os meus pais não. Eles acham que eu tenho problemas.
Eles não poderiam ter um filho assim. Minha mãe a garota mais popular do ensino médio. Meu pai o cara mais encrenqueiro. Como? Como eles teriam um filho como eu? Não dava para aceitar. Uma vez ouvi minha mãe falando que eu só poderia ter sido trocado na maternidade. Eu sei que eles me amam, que querem p melhor pra mim, que eu tenha amigos, namoradas e histórias para contar depois aos meus filhos. Meu pai repete isso sempre ” como você vai ensinar seus filhos se não viver agora”. Mas gente, eu gosto da minha vida assim. 
Eu tenho 16 anos, estou indo para o último ano da escola e quero fazer faculdade de direito. Serei desembargador um dia. E que mal tem isso? Quando eu terminar a faculdade e começar a trabalhar, vou conhecer uma garota e me casar com ela. Mas meus pais não aceitam. Eles acham que eu já deveria ter conhecido uma garota e fazer direito? Com um pai jornalista é uma mãe publicitária? ” não é possível que esse menino não tenha nenhuma criatividade”, eles repetem. 
Então, por isso eu comecei a frequentar o consultório do Doutor Chibata. (Isso é nome de psiquiatra que se preze?). A intenção dos meus pais era que com a terapia eu passasse a ser “normal” e frequentasse festas, fizesse amigos, tivesse namoradas e largasse os livros. Eles nem se importariam se eu repetisse de ano, para fazer festas.
Eu juro que eu tentei. Juro! Mas quando os meninos começavam a ficar embriagados e as meninas a chamar a atenção desesperadamente, meu estômago embolou. Mesmo sem ter tomado nenhum copo da tal batidinha do capeta. Não era para mim. Tentei fazer amizade com os outros considerados esquisitos da escola. Mas era tão deprimente a situação deles, pois eles eram esquisitos, excluídos e não se aceitavam. Passavam o tempo todo falando dos ditos normais. Eram derrotados. Eu não sou derrotado. Eu não sou esquisito. Eu sou normal. Só tenho gostos diferentes da maioria dos jovens. Eu tenho amigos, mais velhos, que compartilham comigo conhecimentos. 
A pergunta do Doutor Chibata respondendo a minha pergunta, voltou a minha mente “O que você quer fazer?” E de repente a pergunta ficou tão clara e óbvia na minha mente. Eu quero ser eu!

——
Gostou? Então aproveita e adquira meu livro de contos e crônicas “Noites de Verão” aqui http://bit.ly/29WmmPu

Dias difíceis

Ontem foi um dia difícil. Daqueles que da vontade de chorar várias vezes, pelos mais bobos motivos,  como quando o pão cai no chão com a margarina virada para baixo. Aqueles dias que a paciência não existe e que até uma formiga passando na sua frente te deixa irritada. Sabe aqueles dias em que um gota é uma tempestade em um copo de água? Pois é. O dia foi assim.
E por mais que a gente queira reagir a dias assim, as vezes, o único jeito de superar é deixando o dia findar. O próximo dia, com certeza será melhor. Alguns atribuem dias assim a passagem dos astros na sua vida, outros a tensão pré menstrual e ainda tem os que digam que é um espirito que se encostou em você. Eu não sei. Talvez seja os 3 juntos e milhares de outros motivos que a gente nem desconfia. Só sei que existem dias assim e que por mais que a gente não queira vive-los eles acontecem na vida de todo mundo. 

Nesses dias o melhor é se fechar. Entrar para dentro do seu mundo interior e refletir o que está te deixando tão aborrecida. Normalmente os motivos estão dentro de nós e a gente nem percebe isso. Uma frustração, uma história mal resolvida. Uma mágoa algo que você queria muito e não deu certo. Ou simplesmente o pão que caiu com a margarina para baixo e o papel higiênico que acabou. 
Então ontem, nesse meu dia difícil, eu tentei fazer exatamente isso. Viver o meu dia, com todas as coisas que estavam acontecendo nele e refletindo sobre o que estava me fazendo tão mal. Eu sei exatamente o que tem me deixado assim. Inquieta, impaciente, com raiva de mim. Uma raiva tão absurdamente grande e intrínseca que muitas vezes me cega e faz com que eu vá levando as coisas, sem reagir, sem realmente mudar o que me incomoda. 
Porque essa é a grande questão. Se me incomoda eu devo mudar. Devo reagir. Mas é mais cômodo viver assim, me transformar em vítima e   simplesmente deixar as coisas seguirem. Torna-se mais difícil que viver os dias ruins, tomar as rédeas da vida e dar uma volta por cima. É mais trabalhoso. Exige mais paciência. Mais força de vontade. 
Não da para fugir dos dias ruins. Mas também não da para ficar esperando eles se multiplicarem, com pena de si mesmo e sem reagir. É preciso que dos dias difíceis lições sejam tiradas para que  o dia seguinte seja o início de um novo começo. Mesmo que você saiba que outros dias ruins virão. Porque você também sabe que está em suas mãos transforma-los na sua mudança de vida.  
————-
Gostou? Então aproveita e adquira meu livro de contos e crônicas “Noites de Verão” aqui http://bit.ly/29WmmPu

Eu posso ser…

Eu nunca me considerei bonita. Tão pouco gostosa. Nunca me vi como sexy. E enquanto todas as garotas do colégio sabiam se vestir eu gostava das roupas confortáveis. Nunca fui vaidosa e nem dava bola se eu era magra. Tão pouco eu fui a mais inteligente da classe. Não queria ser a CDF ou a nerd. Apesar de me dar bem com esse grupo.
Eu sempre fiz a linha aventureira, parceira, festeira. A engraçada, a misteriosa, com as melhores histórias. Sempre fui um zero à esquerda nas aulas de matemática e nunca gostei de gramática. Levei bomba em física e química e até hoje entendo pouco dos reinos animal e vegetal.  Eu gostava de ler e de redação. Ponto final literalmente. Eu era a amiga. Sempre fui. De todos os garotos legais.  Aquelas que eles pediam conselho, perguntavam das meninas e pediam pra “fazer a ponte”. 
E eu criei essa imagem de mim mesma e mantive ela assim por muito tempo. E quem disse que eu não me apaixonei inúmeras vezes pelos meninos legais? Quem disse que eu não fantasiei, como em milhares de livros que eu lia, que um dia eles percebiam que a melhor garota era eu? Mas eu cresci. E mantive a minha máscara de menina descolada.
Mesmo no início da vida adulta eu ainda era a melhor amiga. A melhor amiga das minhas paixões. E eu sofri com isso. Demais. E eu não queria ser mais vista como a amiga. Eu queria ser desejada. Queria que os homens me notassem, mas não sabia como fazer isso. Então eu dançava. 
Eu criei um rótulo para mim mesma, para me proteger da minha baixa auto estima. E ele funcionou tão bem que demorei décadas para me dar conta do quanto ele me fez mal. Quem disse que eu não sou bonita? Não sou gostosa ou sexy? Quem falou que eu não era a mais inteligente da turma? Quem me bloqueou a vaidade? Eu. Eu e os significados que eu mesma dei para a minha vida.
Eu demorei 35 anos para aprender a me maquiar. Nunca aprendi a andar de salto, mas já sei me vestir melhor. Eu demorei todo esse tempo para perceber que eu sou muito mais que a amiga legal. Que eu tenho uma série de atributos físicos e mentais que fazem de mim a pessoa mais bonita e inteligente do universo. Demorei todo esse tempo para entender o significado de auto estima e entender que a única inimiga dela sou eu mesma. E hoje eu me perdoo por isso. E hoje eu sei que eu posso ser o que eu quiser.

———–

Gostou? Então aproveita e conhece o meu livro de contos e crônicas  aqui:
http://bit.ly/29WmmPu