Virou rotina

Todo dia antes de dormir eu penso no marido da minha prima. Calma! Não é nada do que a sua mente poluída imaginou. Acontece que o marido da minha prima até admitia que ela fosse dormir sem tomar (principalmente no inverno da serra gaúcha onde eles moram e as temperaturas ficam muito baixas) mas ele jamais admitiria ela na cama sem lavar os pés. 
Aqui em Manaus o calor é absurdo. Tem épocas do ano que é tão abafado que nem um banho gelado abaixa a nossa temperatura corporal. Por isso sempre que a gente está em casa está à vontade com roupas leves e confortáveis (pra não dizer praticamente pelados) e de pés descalços. Pelos pés descalços, sempre antes de dormir eu lavo os pés e aí lembro do marido da prima dizendo que os pés tem que estar limpinhos e macios pra poderem se encontrar a noite. 

O engraçado é que isso virou um ritual, mesmo que eu tenha tomado banho a pouco e os pés estejam limpos. Parece que se eu não passar uma água neles não vou conseguir dormir.  E me dando conta disso comecei a observar quanto rituais e costumes colocamos em nossa rotina sem nem nos darmos conta e fazemos disso algo mecânico, automático e que funcionam de gatilhos. 
Por exemplo, eu acordo de manhã, tomo café, medito, me exercito por 20 minutos, preparo um chimarrão e sento no computador para trabalhar. Outro dia acabou a erva e eu simplesmente não consegui trabalhar. Perdi o foco, a concentração e não teve santo que me botasse no rumo. Sair e comprar erva pra fazer o mate e aí engrenar o dia também não resolveu, pelo simples fato de que eu já tinha quebrado a tradição. Eu não sou movida a chimarrão. Poderia muito bem ter feito a minha manhã render como qualquer outro dia. Mas ao invés disso eu usei a falta do chimarrão para procrastinar (já falei desse péssimo hábito aqui).
A mesma coisa ocorre quando eu não lavo os pés antes de dormir. Eu não consigo relaxar e pegar no sono até levantar da cama, lavar os pés e aí poder dormir feliz. Mas que diabo que uma poeirinha no pé pode influenciar o sono de alguém? O fato é que eu criei um gatilho, uma sensação de bem estar pra poder dormir e sem aquele momento todo o resto desanda. 
Quantos gatilhos a gente cria, quantas armadilhas montamos para nós mesmos, para nos confortar dos problemas que temos. Quantas vezes deixamos de fazer algo importante porque não temos a nossa bengala emocional. Você já deixou de ir a uma festa se divertir porque a roupa que você tinha idealizado para aquele momento não ficou tão bem no espelho quanto na sua imaginação? Com certeza já. Agora você realmente acredita que se tivesse ido a festa com qualquer outro traje alguém ia perceber e na festa não aconteceria exatamente a mesma coisa que iria acontecer se você fosse com a roupa que idealizou?
E assim vamos criando as nossas prisões, colocando cada grade que nos torna dependente de algo para que tudo dê certo em nossas vidas. O dia que eu tiver que escrever um texto fodástico eu irei escrever, com ou sem o meu chimarrão. Ou sem qualquer um dos outros rituais que faço todas as manhãs. As coisas acontecem quando têm que acontecer, independente do que a gente faça. 
A gente reclama tanto da rotina e das coisas amarradas da vida, mas não percebe que quem cria elas e se aprisiona somos nós mesmos. A gente quer liberdade, mas não nos damos o direito de acordar mais tarde, não meditar, não tomar o mesmo café da manhã. E se eu acordar com vontade de comer manga com leite ao invés de pão integral com requeijão? E se eu não estiver a fim de ligar o computador, responder os e-mails e depois produzir? Se eu apenas quiser acordar e passar o dia vendo séries? 

De vez em quando a gente precisa quebrar as regras, mudar a rotina, dormir quando o sol nasce e acordar na metade da tarde. Ficar de pijama o dia inteiro e só comer bobagens. Nem que seja pra gente se sentir livre, vivo e dono do nosso destino. Pra no outro dia voltar à rotina e começar tudo de novo outra vez.

Jogue limpo sempre!

Umas das coisas que mais me incomoda no ser humano é a mania de menosprezar tudo que antecedeu a ele. O exemplo mais comum disso é na política (apesar de que esse texto não tem nada de político). Entra governo e sai governo, tudo que o antecessor fez, se for de partidos opostos, foi ruim. Então tudo é desconstruído e depois construído com as mesma essência e outros nomes.  
O problema é que não é só na política que isso acontece. É em toda e qualquer situação em que colocamos o antecessor como ameaça.  A necessidade de ser superior ao outro junto com o fato de que sempre queremos ser os melhores, nos coloca nessa situação e, se não cuidarmos, acabando praticando isso sem o menor pudor.

“Nossa sua ex namorada cortava suas unhas do pé? Eu corto, lixo, esfolio e ainda faço massagem no seu pé”. Ok! Peguei pesado. Mas a teoria é essa. Eu preciso ser melhor que a ex então em vez de cortar as unhas do pé ou simplesmente dizer que isso é nojento pra caramba  a gente precisa superar a ameaça e nos sujeitamos aquilo. (desculpa quem corta as unhas do pé do namorado mas eu tenho nojinho assim como não lavo cueca também. Até a intimidade precisa de um limite.)
Passei por uma situação profissional recentemente que me fez perceber o quanto as pessoas necessitam disso. Elas não conseguem ser honestas a ponto de dizer “olha eu quero o cargo dela porque acho que posso fazer melhor” ou “seu trabalho é bom, mas tenho sugestões incríveis que quero colocar em pratica então por isso almejo o seu lugar”. Talvez essa pessoa realmente seja melhor do que você e possa exercer a sua função de uma forma mais eficiente. Mas ela já perdeu todos os pontos de partida quando para construir no seu lugar precisa desconstruir tudo o que você fez. 
Assim vi algo que formatei ser totalmente desconfigurado e perder o rumo. E isso baseado em mentiras, em meias verdades, em manipulação de ideias e informações. Não foi fácil. Foi bem triste e me jogou num buraco negro que por algum tempo pensei que não ia sair. Mas eu saí. Sai e percebi que, no final, aquilo me fez mais bem do que mal porque eu me reencontrei com um eu que já estava cansado demais pra tentar reagir e que eu tinha deixado para trás em alguma gaveta da minha memória. 
E hoje mesmo ficando, às vezes, com muita raiva de tudo que aconteceu, eu estou muito mais feliz do que estava naquela posição. Eu voltei a ser eu mesma, a ter tempo para mim, a ouvir mais meu coração, a dormir melhor e principalmente a fazer o que eu quero. Fortaleceu em mim um sentimento que eu já tinha de ouvir mais, criticar menos e buscar soluções. Me fez crescer e ter certeza que eu não quero e nem preciso desse tipo de coisa na minha vida. 
Quanto a pessoa que ocupou o meu lugar, no fundo, eu um dia espero que ela me peça desculpas, mesmo que seja pra ela mesma no seu travesseiro, por tudo que precisou fazer para chegar lá. Sei que não está sendo fácil e que a cada dia seu mundo desmorona um pouco. Sei que já está pagando um preço alto por desconstruir o que eu havia feito e não saber como colocar as peças na engrenagem agora. Eu só desejo que ela supere, me peça desculpas e consiga ser melhor do que eu na posição, porque como pessoa, como ser humano, eu sei que ela nunca chegará aos meus pés. E como eu tenho tanta certeza disso? Pelo que ela precisou fazer para chegar lá. 
Então o que eu posso dizer com o que eu aprendi? Posso garantir que se a gente almeja alguma coisa, a gente busca, corre atrás e usa do nosso potencial pra atingir sem precisar passar por cima de ninguém, mentir ou difamar outra pessoa. Jogar limpo é a melhor forma de descer pro play, porque de outras formas o universo vai cobrar caro de você. 

Carta pro ex… A que eu nunca vou mandar (mas queria muito)

Eu queria entender quando foi que a gente ficou assim, tão distante e indiferente um com o outro. Eu sei que nossas vidas mudaram, passamos a ter outros parceiros, mas que regra é essa subentendida que ex não pode ser amigo? Por que simplesmente negamos que um dia nos gostamos e tivemos uma linda história que acabou? 
 
Todos os dias histórias acabam. Todos os dias pessoas se magoam. Vivemos em um mundo assim. Você me magoou e mesmo depois disso, depois de termos superado, ainda rimos juntos. E o tempo passou e ficamos frios. Eu queria poder ter te ligado, mil vezes durante todos esses anos, só para te dizer que eu sinto um carinho por ti. Para saber se você está bem, para poder dizer que nossa história foi linda. Não porque eu quero você de novo. Não quero, nunca quis. Mas porque você foi parte importante da minha história.  Eu te amei tanto. E sei que você me amou, não ficamos juntos por acaso na vida. Mas hoje, quando penso em nós, carrego essa dor da indiferença e confesso que tenho medo de simplesmente te mandar uma mensagem e você achar que estou louca ou louca por você ou ambas as coisas. 

Eu não sou louca. Eu apenas queria que as pessoas especiais da minha (e você foi muito especial em algum momento) pudessem estar sempre perto de mim. Até você que me magoou. Eu superei então por que não podemos ser amigos?
Como pode que pessoas como nós, que dividiram a cama, os sonhos e planejaram um futuro juntos não possam ser amigos? Eu concordo que o amor acabou, que houveram mágoas, cicatrizes e mais um monte de coisas que nos afastaram, mas não restou nada depois de superadas  as coisas ruins? Não é possível que todo o amor que sentíamos um pelo outro se transforme em nada. Algum sentimento fica, no meu caso foi o carinho.
Eu sinto saudades do que fomos um dia. Não a ponto de ser de novo mas pelo simples fato de que me marcou. Marcou você também? Às vezes você pensa em mim? Se eu te convidar para tomar um café você vai? Sei que um mate não iria porque até hoje repito “que de amargo basta a vida” e me vem seu sorriso na memória. Mas um café? Um por do sol? Uma volta na praça?
Não se preocupe. Eu não quero entrar na sua vida mais uma vez. Eu quero apenas conversar honestamente e com mais maturidade do que quando estávamos juntos. Quero saber se você sentia o mesmo, quando foi que você decidiu que não tinha mais um caminho a seguir do meu lado. Quero saber como você está, sorrir contigo e rir de alguma de nossas histórias. Lembra quando a vida era leva e a gente só sorria?
Vamos tomar um café? Ver um por do sol? Dar um volta na praça? Vamos, por favor, nos cumprimentar com um abraço gostoso e com a cumplicidade de quem dividiu um doce? Eu sinto sua falta em minha vida. Não como namorado, mas como amigo.

Incontinencia urinária e outras vergonhas

Outro dia eu fiz xixi na calça e preciso confessar com um pouco de vergonha que isso não é algo tão raro na minha vida. Acontece se estou rindo muito, se estou com a bexiga cheia e algo me distrai e esqueço da vontade de ir no banheiro ou apenas pelo banheiro estar perto demais e a vontade grande demais que a ansiedade de chegar até o vaso sanitário se torna maior que a atenção em prender o xixi. É, isso não deveria ser comum numa pessoa de 36 anos e muito menos deveria ser comum quando eu era adolescente ou com 20 e poucos anos. Mas posso ficar feliz, controlo o problema melhor aos 36 que aos 20 (sinal de quanto mais velha, mais poder terei sobre o xixi nas calças).

Uma vez estava voltando para a casa de um churrasco, num bairro longe demais, com cerveja demais e quilômetros de distância do próximo banheiro. Então, mesmo depois de ter ido ao banheiro antes de ir embora, na metade do trajeto eu já estava apertada. Muito apertada. A rua estava bastante deserta pelo horário da noite e a sinaleira fechou. Parei o carro e me concentrei em segurar meu xixi na bexiga. Enquanto eu colocava toda a minha energia naquela tarefa, um louco veio a mil freando com o carro e jurei que ele ia bater em mim e com a velocidade me jogar no meio do cruzamento. Merda! Perdi a concentração e quando me dei conta estava ensopada de xixi no banco do carro. O bacana era que meu namorado estava me esperando em casa para a gente ir à uma festa. Vergonha em dose dupla. 
Teve outra vez, no início da adolescência, em que estava com as minhas primas no meio do mato no interior. Eu já tinha dito para as gurias que estava louca pra fazer xixi e que não ia conseguir aguentar até chegar em casa.  Tentei fazer xixi atrás de uma árvore (o que nem precisava porque não tinha absolutamente mais ninguém ali além de nós três), mas travei. Mesmo com toda a vontade o xixi não saia. Continuamos caminhando, rindo, brincando e quanto mais eu ria, mais vontade dava. Até que eu enfiei o pé num buraco,  cai e sai rolando. Rolando e me mijando. Nada legal. 
E foram tantas as vezes que chegando em casa a distância da garagem até o banheiro era sofrida demais, distante demais e com degraus demais, que o jardim ao lado da porta era regado involuntariamente. Desse tipo de xixi nas calças eu perdi as contas. Claro que fatores como cerveja demais a noite contribuíam para que isso acontecesse mais seguidamente. 
Hoje, não tomo tanta cerveja, não tem tantas crises de riso e me controlo melhor. Os episódios de falta de controle urinário são mais escassos. Mesmo assim, outro dia estava bem apertada, sentada confortavelmente lendo um livro e não queria parar de jeito nenhum, por nenhum motivo do mundo, muito menos por um simples xixi, só que eu comecei a rir, rir de chorar, com as conclusões da autora sobre uma das crises que ela narrava, e quando eu percebi, tentei correr pro banheiro, mas já era tarde. Ninguém está livre disso. Eu pelo menos não estou. 
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PS: O livro era “Ta todo mundo mal” da youtuber Jout Jout e eu super recomendo! Quem é fã do canal dela vai se deliciar lendo o livro e imaginando ela narrando as situações. Em algumas das crônicas, ou melhor das crises, eu juro que ouvia ela me contando a história. 

Para dormir melhor

Se tem uma coisa que eu aprendi, depois de muitas noites insones, amontadas de problemas que eu não conseguia resolver, mesmo ficando de olhos abertos é que dormir é a melhor forma de resolver qualquer coisa. 
O tempo também. Porque tudo que a gente não consegue resolver o tempo resolve. Qualquer dor, medo, problema, insegurança. Qualquer ferida, machucado, doença da alma. Só o tempo resolve.  E nenhuma das noites de choro, sem sono ou de alucinações consegue acelerar o processo. Só o tempo, dono de sua razão, de suas horas, dos segundos da sua vida. É só ele que vai te aliviar a angustia e as incertezas, que vai cicatrizar as feridas e apagar as memórias tristes. No final, ele transforma tudo num grande borrão, desbotado por ele mesmo e transformado em algo tão sutil, que a gente só consegue lembrar das coisas boas. 
E foi o tempo que me ensinou que nenhuma noite mal dormida,  nenhum dos dramas que eu levei para cama comigo, por tanto tempo, fazem alguma diferença. Eles só perturbam a minha noite, me deixam ansiosa e sugam as minhas energias. E quantas vezes eu dormi com eles e me revirei na cama, de um lado para o outro,  sem ter a menor ideia que quanto menos eu desse espaço no meu travesseiro mais rápido o tempo cuidaria deles. Que se eu não os confortasse, deixando os quentinhos nas minhas cobertas, eles sentiriam-se incomodados e iriam embora. Tantas vezes eu levei o inimigo para dormir comigo e tudo que eu não conseguia era dormir com ele ao meu lado. Ou eles. As vezes um, as vezes dois, em algumas noites eram tanto que vivia um bacanal de problemas numa única noite. 
Então o tempo me ensinou. Ele Senhor de tudo e dono de todos os segundos e sussurros dessa vida, um dia me confessou que enquanto eu dormia ele cuidava do resto. No inicio foi difícil deixar tantos amantes fora das minhas noites. Eu era intima demais dos meus problemas e me confortava a ideia de poder abraça-los quando me deitava.  Como seria tentar dormir sem eles? Sem suas complexas histórias e neuroses.  Mas era eu ou eles. Era eu tentando sobreviver ou eles me engolindo. Optei por mim. 
Toda noite, antes de dormir, eu agradeço ao universo as coisas boas. Mesmo que seja num dia ruim, algo de bom aconteceu, nem que seja você ter acordado e estar indo dormir. Então eu agradeço, agradeço e revivo aquele dia só focando nas coisas boas. Depois eu encho o pulmão de ar o máximo que ele suporta e solto pela boca. Inspiro, expiro, inspiro, expiro, inspiro, expiro até que o sono me embale e eu durma. Durma bem. Durma melhor do que qualquer outra noite. E se, mesmo assim, algum problema desavisado tentar invadir o meu espaço sagrado, eu abraço com força um travesseiro. Melhor isso que abraçar o problema e ter outra noite insone.
Para dormir melhor eu deixo os problemas fora da cama e durmo com a esperança de que ao acordar será uma nova chance de recomeçar, reconectar e consertar o necessário. Para dormir bem eu expulso os problemas da cama e convido a fé de que sempre pode ser melhor. 

Dar um tempo

– A gente precisa dar um tempo…

Foi tudo que eu consegui escutar e fiquei pensando que merda aquilo poderia significar. O que ela estava tentando dizer? Ela queria um tempo exatamente do que? Porque eu não entendia como alguém pudesse querer um tempo da gente, da nossa química, dos inesgotáveis momentos de êxtase que estávamos vivendo.
Puta que pariu! Enquanto ela falava sobre um tempo e como seria bom pros dois eu só pensava nela, deitada nua na minha cama, com os olhos arregalados, vibrando cada vez que eu deslizava a mão entre suas pernas e sentia o calor do seu ventre. Eu tentava me concentrar naquela parte da conversa, mas tudo que eu lembrava era do seu quadril arqueando, suas pernas me encaixando e me puxando para dentro dela.  Será que só para mim a gente era algo tão incrível assim?
E quanto mais ela falava que precisava de um tempo, de focar na sua vida, de ter tempo para os amigos, mais eu pensava em como convenceria ela a deixar de lado aquela ideia boba. 
Quando a gente se conheceu foi muito diferente do que qualquer outra garota que já havia passado pela minha vida. Não era só tesão. Era uma conexão. Sabe quando algo se encaixa tão perfeitamente que nada mais pode desgrudar aquelas duas peças? Foi assim com a gente. No momento que os nossos olhos se cruzarem eu soube que a gente seria perfeito em todos os sentidos. Mas ela estava tirando o sentido agora e insistia em desencaixar as peças ajustadas. 
-Eu não acredito em dar um tempo. Já usei essa desculpa mil vezes quando queria me livrar de alguém. Pelo menos tenha piedade de mim e me dê uma despedida condizente com toda esse sinergia que temos.
Eu joguei baixo, sujo, eu sei. Mas eu precisava mostrar pra ela que um tempo jamais nos faria bem. Ela refutou a ideia é continuava dizendo que eu não entendia, não percebia, não queria enxergar como a gente estava se fazendo mal. Agora virou pecado ter tanta sintonia com alguém? Ela tentou sair da sala, mas eu não podia deixar. 
Quando eu segurei o seu braço, num gesto desesperado como quem pede socorro, a eletricidade entre nós entrou em curto. Então ela virou, nossos olhares se encontraram e eu a puxei pro meu perto. E como queimou, ardeu sentir seu rosto enfiado em meu peito. Ela não queria me abraçar, tentou relatar, se livrar de mim, como se eu pudesse lhe fazer mal, mas por fim não resistiu. E eu a envolvi com mais força, segurei sua nuca e beijei sua boca como se eu pudesse me afogar sem o seu fôlego. Se fosse para terminar que pelo menos fosse com uma despedida.
Eu sentia que ela relutava, contra ela mesma, contra seus medo e anseios. Sentia que ela queria mais aquilo do que ir embora, que ela, assim como eu, sabia, que a gente era perfeito um para o outro. E de repente, como num sussurro,  nossas almas se misturaram. E foram tantas palavras de amor e paixão, tantos pedidos para que durasse a eternidade aquele momento, tantas orações para que nunca acabasse, que somente quando vi seu rosto se retorcendo de prazer é que entendi que de nada aquele momento adiantaria pois ela estava obcecada por me afastar. E assim ela fez, me deixando para fora de sua vida, me excluindo de seus pensamentos, me matando um pouco a cada dia. E da nossa perfeição só resistiram as lembranças na minha alma. 

Desculpa se eu não sou o que você esperava

Desculpa se eu não sou exatamente o que você imaginava. A questão é que entre o que você imaginava e a minha essência existe um enorme abismo carregado de suas interpretações e visões de mundo e de minhas vivências e experiências. Eu até queria ser o que você esperava, mas decidi, há um tempo, que ser o que eu não sou não faz bem para mim e não faria bem para você também.
 
Se entre tantas qualidades você enxerga apenas os defeitos o problema não são eles que fazem parte de mim. O problema são seus olhos, seus ouvidos e seu tato. O problema é o que você realmente da valor na vida e onde gasta sua energia.

Eu me esforcei para que você percebesse que que a gente poderia ser mais que isso. Até me dediquei mais do que me dedicaria em qualquer outro relacionamento.  Só porque era você. Mas um relacionamento é feito a dois e uma andorinha sozinha não faz verão.
Juro que tentei, que quis ser a pessoa que você sonhava, que pensei que poderia mudar para lhe agradar. Demorei a perceber que não era eu que precisava agir e sim você que tinha que baixar suas expectativas. Porque quando a gente entra num relacionamento ele tem muito mais a ver com estar junto do que com a pessoa perfeita. Idealizar alguém ou tenta-la encaixar nos seus padrões não é gostar. É apenas querer que alguém preencha um espaço que não tem brechas pra autenticidade.
E não existem pessoas perfeitas. Existem pessoas, com seus mundos perfeitamente imperfeitos e organizados numa bagunça devastadora, que colidem com o seu universo e se fundem em um. Como eu queria ter fundindo meu mundo com o seu. Mas era o meu que precisava sair totalmente da órbita para girar em torno de você, como se você fosse um astro rei e eu apenas um planeta sedento por calor.
E foi assim que eu descobri que não. Que o fim da linha chegou cedo demais para nós, antes mesmo do trem engrenar a segunda marcha. E foi assim que eu entendi que ser quem eu sou é mais importante do que você. E outros amores talvez irão descobrir o que você não se permitiu e é muito melhor estar caminhando em busca disso do que ao seu lado esperando que você faça parte dessa história.
Desculpa se eu não sou o que você esperava. Eu sou muito melhor, só que você não enxergou isso a tempo e agora quem não tem mais tempo para perder com você sou eu.

Ausências

De repente você voltou como se nunca tivesse ido. Chegou me abraçando e beijando minha testa com carinho. Confesso que fiquei constrangida, diante dos olhares de amigos que não entenderam nada. Você enlaçou minha cintura com suas mãos e saímos caminhando. Meu corpo inteiro ardia ao toque do seu. Minha alma implorava por um rompante de paz e minha mente só se perguntava “como assim?”.
Você foi embora sem nenhuma explicação, sem motivo, sem demonstrar ou explicar absolutamente nada. Simplesmente foi. Levei tempo demais para aceitar que seria assim. Então você apenas volta e me segura como se nunca tivesse partido. Não fala nada, não demonstra nada, só me segura e me leva com você.

E eu continuo sem entender o que eu nunca decifrei. Sinto a pressão de sua mão na minha cintura, seu perfume tão próximo me embriagando e só quero perguntar porque. Mas as palavras estão presas na minha garganta, por mais que eu tente elas não se soltam. Como se ao liberta-las eu pudesse de alguma forma fazer você sumir novamente.
Mas não fazia sentido. Não tinha lógica você chegar ali como se tivéssemos marcado um encontro e me abraçar e me beijar como se tivéssemos acordado abraçados na noite anterior. As coisas ficaram confusas e chegamos a frente de casa e alguém telefonou para você. E como se eu não estivesse em seu braço você combinou que “logo estaria lá”. Como assim? Você iria me deixar novamente? Porque voltou agora que eu já estava acostumada a sua ausência? Por que não falava comigo e me explicava ou apenas dizia que me amava?
E você me puxou para mais perto do seu corpo, me envolveu em seus braços, segurou minha nuca e me beijou. Com tanta paixão, tanta saudades, tanto tesão, que meu corpo inteiro se arrepiou e eu só conseguia pensar que aquele era o momento perfeito para o mundo inteiro acabar, porque não importava mais nada na vida a não ser estar com você. E no meio de tantos sentimentos confusos e quentes o despertador tocou e eu acordei com a sensação de que você realmente tinha me visitado essa noite.

E viveram felizes para sempre ou só viveram

Eu adoro histórias de amor com final feliz, tipo viveram felizes pra sempre, sabe?! Acho mais linda ainda quando o casal se conhece na escola e são o primeiro amor… Nossa! É tão fofo, lindo e perfeito que chega a enjoar. Mas o fato é que a maioria esmagadora das histórias de amor da vida real não é assim. Algumas não acabam bem, outras não são perfeitas e algumas nem acabam.
A verdade é que a maioria das pessoas vive um monte de histórias até encontrar o seu final feliz ou simplesmente final. Não é péssimo. Essas histórias que acontecem na vida da gente, antes do príncipe encantado são, normalmente, de dois tipos: ou alguém que ferra com nossa vida ou a gente ferrando a vida de alguém. Claro, tem as exceções que acabam bem e todo mundo feliz com o término, mas são raras. Tão raras quanto os amores escolares a primeira vista. 

As que ferram a vida da gente são clichês: um cara e uma garota (ou dois caras ou duas garotas, tanto faz), se conhecem, se gostam, vivem intensamente mas ele é problemático demais, alguém ferrou a vida dele antes, ele tem mil problemas de auto estima e voilà! Ele te ferra completamente e você acha que nunca vai superar… Que o mundo vai acabar e que você nunca mais amará alguém igual a ele e que nada na vida tem sentido sem ele. De alguma forma você pensa que se tivesse uma chance seria capaz de perdoa-lo e consertar, seja lá o que está quebrado nele. Mas ele fez sua escolha e te deixou. E você fica completamente abandonada, carente, fodida e jura pra si mesmo que nunca, nunca mais vai se entregar assim para outra pessoa. E então você decide que agora você será a malvada dos relacionamentos. 
Aí vem o próximo, aquele que tem tudo pra ser o príncipe encantado. Mas sabe?! Ele é tão querido, meigo, atencioso e faz tudo por ti que você estranha e pá! Ferra a vida do cara deixando ele pra trás por algum outro canalha que vai te ferrar. E parabéns! Você acabou de transformar o príncipe no próximo canalha da vida de alguém. E você só faz isso porque aquele outro cara tinha te ferrado quando você foi boazinha, então para não deixar o mundo tão desigual você precisa fazer isso por outra pessoa. Quanta sabedoria a nossa, não é?!
Nenhum de nós nasce pra destruir a vida de outra pessoa, mas em algum momento da vida a história sempre se repete em ciclos. Eu me entrego de coração, o cara me ferra e então o próximo que se entrega de coração eu ferro com ele, porque né?! Se eu fui ferrada preciso ferrar alguém e assim, criamos cada vez mais pessoas no mundo complexadas  e com problemas de relacionamento. Bela forma de transformar o mundo num lugar melhor. E sério… Se você está lendo isso e pensando que você está a ponto de fuder com a vida e auto estima de alguém porque você foi massacrado por outra pessoa, pare! Procura um psicólogo, psiquiatra, meditação, yoga ou qualquer outra coisa, mas não, não ferra alguém porque você está magoada. Lembre-se sempre que todo o canalha um dia foi o príncipe encantado de uma menina má. 
Então um dia você já se machucou demais, já magoou demais outras pessoas e conhece um cara. Normal, com nenhuma característica de príncipe encantado, nada a ver com nenhum outro que já passou pela sua cama, opa, vida é que você considera que vai ser apenas mais um casinho de verão. E quando menos espera… Fudeu! Ele é o cara certo! Ou o errado, mas é o seu número! E aí vocês vivem felizes para sempre, ou apenas vivem porque felizes pra sempre é água com açúcar demais e a vida é uma grande montanha russa de altos e baixos. 
E as histórias de amor perfeitas? Elas continuam nos livros, nos filmes e na imaginação adolescente das meninas. Porque a vida real é hardcore e não teria a menor graça se não fosse assim. 

Eu quero ser o mundo de alguém

As vezes a gente insiste em andar na contramão da vida. Fazemos tudo que é possível para nadar contra a maré e tentar, depois, culpar a força do mar. Esquecemos que o vento influencia, mas que para nos salvar só precisamos nadar para o lado oposto e deixar ele nos empurrar. Eu não sou diferente de milhares de pessoas que fazem isso. Insistem em caminhos sem volta, simplesmente porque querem ser diferentes. Ou precisam ser diferentes para entender o que acontece no mundo. 
Só que de tanto a gente tentar ser diferente, uma hora se percebe que o diferente que queremos não é do mundo e sim daquilo que somos. E então, tentamos de todas as formas descobrir quem realmente somos e quem queremos ser apesar do diferente. Ser diferente é bom, mas ser especial é melhor ainda. E somos sempre especiais para alguém e normalmente não damos valor a isso. Queremos ser especiais para o mundo e esquecemos que podemos ser o mundo de alguém. 

Neste exato momento você é especial para mim, tornou-se o meu mundo, pois enquanto digito freneticamente essas palavras que saem das pontas dos meus dedos com agilidade e amor, estou pensando em você. Em você que está lendo esse texto e que, por algum motivo se identificou com ele. Estou pensando em você que encheu os olhos de lágrimas, quando lembrou da briga que teve com alguém que você ama e na hora, de cabeça quente, não falou o quanto ela era seu mundo. Estou pensando em você que se sente deslocada, diferente, humilhada ou até mesmo invisível e que nunca percebeu que você é sim o mundo de alguém. 
Passamos tanto tempo pensando, hoje em dia, no que queremos ter, no que precisamos comprar, pagar, vestir e comer que acabamos deixando de lado o que queremos ser. E não estou do falando do que você queria ser quando crescesse, estou falando do que você quer ser agora. O que queremos ser para quem é especial para nós. Eu quero ser o mundo de alguém. Ou de alguéns. Quero ser a diferença entre o olhar vazio e aquele que faz alguém brilhar. Quero poder ser todas as manhãs o motivo que faz alguém sorrir, alguém sentir, alguém querer acordar. 
Precisamos parar de querer fazer diferença para o mundo e entender que se formos a diferença no mundo de alguém, tudo já terá valido a pena. E sem muito esforço faremos a diferença no mundo.