A outra

Quando estiveres usando minhas toalhas, minhas louças, minhas roupas de cama e cobertas. Quando estiveres conversando com minha família, com meus amigos, olhando minhas fotos, quando colocares a cabeça nos meus travesseiros, tenho certeza que te sentirás feliz. Afinal conseguistes o que queria. Ou pensas que conseguistes.

Ele irá te levar a todos os nossos lugares. E em cada um lembrará de mim. Assim como pensa cada vez que faz amor contigo e sofre cada vez que lembra da escolha errada que fez.

Tu pode ficar com todos os restos. Porque os inteiros  sempre serão meus. Pode usar as minhas coisas, estar com ele e tentar ser eu. Mas tu nunca serás. Nunca terás o que eu tive. Nem as histórias, nem as lembranças, nem a vida, nem a família. Eu sempre vou ser o fantasma da tua história e a única que realmente importará para ele.

Em tudo que vocês fizerem eu estarei lá. Como a melhor lembrança dele. A parte que sempre fará falta. A mulher que ele amará por toda a vida. E tu? Sempre serás a mesma coisa. Alguém incapaz de construir a sua própria história, incapaz de gerar frutos, de colher flores. Alguém que passará a vida nas sombras de histórias que nunca serão tuas. Alguém infeliz.

Menino bonito do sorriso fácil

Ah se teu sorriso entendesse tudo que ele causa em minha pele quando se abre. Se tua boca soubesse o arrepio que me causa quando sinto teu gosto. Se tua risada fosse capaz de perceber o quanto me tonteia…

Ah menino bonito do sorriso fácil… esse teu sorriso que me cativa, me torna refém das coisas simples, me deixa com as pernas bambas cada vez que aparece.

Dizem que devemos fazer o outro sorrir para que se apaixonem por nós, mas cada vez que você sorri eu que me apaixono.

Quero fazer morada em teu sorriso, em teu abraço, na tua pele e no calor dos teus braços. Quero me alimentar da tua boca, do teu corpo e da tua alma. Me contagiar pela alegria da tua risada, pelo timbre da tua voz que sempre diz mais do que qualquer palavra.

Sei bem que estou apaixonada. Não mais de quatro, como dizem, mas sim estirada no asfalto. Teu sorriso me tombou de uma maneira linda e mesmo que eu achasse que não estava pronta pra tamanha intensidade, aqui estou, pronta pra me jogar de cabeça mais uma vez.

Mergulho no teu cheiro, no teu toque, no teu calor. Me afogo e não me importo. Porque basta o teu sorriso iluminar o meu dia para eu saber que vai valer a pena.

Mesmo que depois eu tenha que juntar meus cacos novamente, ainda sim, teu sorriso vale cada centavo de cola que será usado.

Ah menino bonito do sorriso fácil… cuidado comigo. Pareço forte, mas sou frágil. Tenho tantos remendos na alma que parece ser impossível ainda estar de pé. Mas quando você sorri eu não resisto e perco meus medos. Tudo que quero é que teu sorriso seja por mim.

Deliciosa aventura

Primeiro me encantei no teu sorriso. Que sorriso que dizia que eras exatamente o que eu queria. Eu moraria nele. Faria da sua boca meu lar, dos lábios minha cama e do riso meu sonhar.

Depois tua voz que sussurrava no meu ouvido me deixando com a pele arrepiada, uma sensação gostosa de conforto, uma rouquidão que me levava ao êxtase e uma doçura que me torturava. Uma voz que seria minha canção preferida de ninar e despertar.

Então veio teu toque. Quente, seguro, sem pressa, medo ou rodeios. Me conduzindo por caminhos que eu nem ousava trilhar. Me levando a lugares mais próximos do céu em questão de segundos e me trazendo de volta à terra em segurança. Quem poderia imaginar que seriam teus braços a me acolher, a me fazer estremecer, a me deixar enlouquecer.

Então veio teu jeito moleque, maroto e maduro. Me ensinando que tudo poderia ser mais leve, que a vida brinca com a gente, que destino é algo que nada muda. Se eu não tivesse as marcas em meu corpo da tua existência, juraria que estava em um surto de delírio. Enlouquecendo e imaginando que tu existias.

É perfeito o encaixe das nossas mãos, do corpo, da boca, da vontade de ser um só. É perfeito o jeito que nos comunicamos, das palavras que não precisam ser ditas, dos olhares que se cruzam e se entendem. Da sensibilidade à flor da pele,  do sentimento latente, do desejo que se multiplica.

E se isso realmente for uma loucura que seja a mais deliciosa aventura porque foi contigo que descobri o que é ser amada.

Milagre de Carnaval

Sentada na esquina, depois de pular atrás do bloquinho de rua e beijar todas as bocas do caminho, ela esperava. Esperava por ele. Pelo calor dos braços conhecidos, pelo amor não mais correspondido, pelas noites quentes. Esperava pelo milagre do carnaval. Mesmo que fosse uma festa pagã e sensual. 

Quem disse que a magia só existe onde tem ritos, tradições e passagens. Poderia ser que toda a boa energia emanada, pelas milhares de pessoas felizes que circulavam pelas ruas, lhe trouxesse o que tanto queria. 

O cansaço, o álcool e a desilusão lhe tiravam as esperanças. Ainda assim acreditava. A qualquer momento ele podia cruzar seu caminho e quando os olhos se encontrassem o amor voltaria. 

Resolveu levantar, correr atrás do bloco novamente e acreditar que alguma coisa boa iria ressurgir.

Não demorou pra encontrar o ritmo das passadas e das bocas alheias. Era carnaval. Bocas e pulos faziam parte da tradição. Mesmo com os pés já doloridos, a maquiagem desmanchada e os cabelos suados, seguiu a cadência dos ritmos. A música contagiava, era fácil esquecer do que esperava. 

Mas a vida não esquece. O destino é implacável e como dizem os que creem, o que a gente pede o universo devolve. E foi assim que numa esquina os braços conhecidos a ampararam do tombo inevitável. Foi assim que no meio da multidão as bocas se encontraram sedentas pela falta que sentiam uma da outra.  Milagre de carnaval.

Orgulho Ferido

No dia em que seus olhos se cruzarem novamente e você ver que ali existe um pedido de socorro, uma suplica de perdão ou que eles expressam exatamente ao contrário do que a boca fala, por mais que possa parecer vitorioso você sentirá tristeza.

As coisas não precisavam ser assim. A carne é fraca, alguns dizem. Eu acredito que o ser humano é fraco. Não é a carne que comanda, é a mente. E se você não consegue conter seus impulsos o que o diferencia dos animais?

Parece que somos seres programados pra agir sem pensar. Pra tirar vantagem, proveito, pra pisar no próximo. Parece que na maioria dos casos, agimos como ovelhas, seguindo um rebanho que não sabemos para onde vai.

Mas os olhos, janelas da alma, ao contrário da boca, não mentem. Eles refletem teu sofrimento, refletem teu desespero. As lágrimas que tentas conter, me dizem o que não tens coragem de falar. Sim. O amor não morreu. Mesmo que renegues, mesmo que tentes afirmar, que estejas apostando todas as fichas numa nova história, eu sei. São teus olhos e teus gestos que me dizem que você não consegue esquecer.

O recalque na tua voz quando falas do meu novo amor, as lágrimas que deixam teus olhos vermelhos. A falta de argumentos diante do fato de que ela nunca será o que eu fui. De que ela não chega aos meus pés. De que ela é apenas a muleta que usas para não desabar.

Seria tudo mais simples se teu orgulho não estivesse ferido. Se tua vida não estivesse destruída, se tu realmente tivesse refletido. Agora repetes: eu errei, eu sei. Fiz tudo errado e não tem volta. E você tem razão. Não existe volta pra confiança quebrada, não existe retorno para um amor estilhaçado. Não existe no mundo cura pra um coração partido. Só o tempo. E ainda assim, talvez ele nunca faça a cicatriz desaparecer.

Resta apenas a tristeza de ver que uma história tão bonita se ruiu por alguém que nem te faz feliz. E que por mais que tente parecer que está tudo bem, teus olhos me suplicam por um perdão que não sou capaz de dar. Eu sempre serei aquela que você mais amou e que realmente te fez feliz. E ela apenas o que te restou depois do impulso e da ilusão. Ela nunca será eu.

O Desconhecido

Um dia eu abri a porta e quem eu encontrei sentado na sala vendo tv era um desconhecido. Na programação um filme de terror. Algo tipo A Hora do Pesadelo 3, com menos sangue e mais drama. 

O desconhecido me encarava como se não me enxergasse. Nos seus olhos faíscas de raiva brincavam e nas suas palavras doses de veneno eram liberadas homeopaticamente para ferir. 

Fisicamente ele ainda era o homem que vivi a última década, mas no seu olhar não havia mais vida. 

Eu não sei como os amores acabam. Mas sempre pensei que era algo que acontecia com o tempo, com a rotina, com sinais sutis no dia a dia. Não de uma hora pra outra. Não sem a gente conversar ou falar. Não sem pelo menos se tentar. 

Mas foi assim. Assim o desconhecido se instalou na minha casa. Da noite pro dia e sem ao menos colocar na balança o que significava tudo isso. O desconhecido e sua repulsa. O desconhecido e nossa vida destruída. O desconhecido e o medo. O desconhecido e uma vida inteira jogada fora e outra para ser desbravada. 

No final o desconhecido me fez um favor. Me mostrou que eu ainda vivo, pulso e sou capaz de recomeçar. De uma forma totalmente nova e sendo quem quero ser. Vivendo novas vidas e possibilidades, vivendo novas histórias e, principalmente vivendo a minha vida. 

Um furacão com nome de mulher

Quando eu percebi nossa história toda havia sido apagada. Das redes sociais, da vida, das memórias. Nada parecia fazer sentido. Da tarde pra noite o mundo desmoronou na minha cabeça, tudo virou pó e restou a dor intensa de quem não entende da onde o tiro veio.

Eu fiquei em pedaços. Devastada por um furacão com nome de mulher. Mas mais ainda pela fragilidade do abrigo que sempre considerei seguro.

Não foi a tormenta. Não foi a traição. Não foi o furacão. Foram as palavras duras. A necessidade urgente de cortar completamente cada elo de ligação. Como se uma década não fosse nada. Como se tudo tivesse sempre sido uma mentira constante.

E dói acreditar. Dói entender. Dói aceitar que tudo que existia se esvaziou assim. Porque não é da noite pro dia. Porque não foi falado, conversado. Porque simplesmente parece que nunca existiu.

Estamos sorrindo e fazendo planos em um dia e no outro chorando como se houvesse um velório. O enterro de uma família, de muitos planos e sonhos. O velório da cumplicidade. O enterro dramático do amor.

E agora a distância é exigida. Exigida por quem te abandona. Mesmo que você precise de apoio. Parece que existe raiva, que existe rancor, da parte que não deveria. Quer dizer que passamos a ser dois desconhecidos? Ou que a pessoa que foi a vítima é a culpada. A culpa de não ser avisada ou seria a culpa pela culpa que o outro sente e não admite?

Agora toda a culpa é minha. Você não fez isso, você não fez aquilo, você vive num mundo dos sonhos, você isso. E você? E quando foi que essa pessoa covarde surgiu e meteu os pés pela mão? E quando foi que você desistiu. Porque eu me lembro. Me lembro de cada minuto, de cada segundo e de quantas vezes foi você a fugir.

Mas ninguém aponta o dedo e pergunta  e você por que não falou? E você por que não investiu? E você por que não incentivou?

Talvez eu tenha culpas, mas de todas as que me atribui não carrego nenhuma. A minha culpa foi acreditar, confiar e me entregar, em todas as formas e sentidos pra uma pessoa que nunca soube valorizar os sacrifícios que eu fiz e que foram sua culpa. A minha culpa foi ter sempre colocado em primeiro lugar o amor, a cumplicidade, o outro, não a mim. A minha culpa foi amar. Foi acreditar que isso bastaria. A minha culpa foi confiar, foi abrir a minha casa, a minha vida. A minha culpa foi deixar que o furacão entrasse pela porta da frente.

Mas em um mundo onde ser de verdade, do bem e confiar no outro é sinônimo de ser trouxa, em uma realidade onde jogar sujo parece ser recompensado, eu ainda escolho acreditar no amor. Porque meu sorriso ninguém me tira. E um dia, eu ainda serei eu. E você será o resto do que um dia foi.

Meu par

Eu te escolhi para ser meu par. Não foi ao acaso, por sorte ou por coincidência. Foi uma escolha. Você poderia não aceitar, fugir, correr, sumir, mas resolveu ficar então viramos nós.

Nós que somos, que amamos, que vivemos lado a lado, dividindo as alegrias e tristezas, as conquistas e fracassos ou dilemas. Dividimos as contas, a casa, a cama, as refeições. Até aquele último pedaço de torta de bolacha. Dividimos tudo, ou quase tudo, porque algumas coisas multiplicamos.

Os sorrisos, o amor, a cumplicidade. O carinho e o abraço apertado. Nessa conta, nada é dividido, tudo multiplicado. E a cada novo dia, parece que potencializa essa operação, que nunca teve uma fórmula perfeita, mas que é fácil de entender.

Eu não tenho duvidas que fiz a melhor escolha que poderia ter feito. E quando penso no passado, no antes e em tudo que ficou para trás, sinto saudades. Mas não vontade de voltar lá. Porque o presente é deliciosamente mais imperfeito com todas as coisas do dia a dia, a rotina. Mesmo quando quinta não é dia de pizza.

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 Enquanto vive as últimas 24 horas de sua vida, Maria Rita passei por seu passado e ao buscar o nada ela encontrou tudo.  AVISO DE GATILHO: Violência contra a mulher.

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Meu outro Eu

Parece assim que a solução seria formatar o vídeo game chamado humanidade e começar a programar tudo de novo, porque assim está difícil viver. Mas e se a gente descobrisse a empatia? Entendendo ela como a complexa arte de se colocar no lugar o outro, quando eu tento pensar o por quê o outro tomou tal atitude baseado nos preceitos e crenças que ele tem. Quando a nossa mãe diz: não faz com o outro aquilo que tu não queiras que façam contigo.

Eu estava na praia, com chapéu modelo beverly hills, blusa térmica para a proteção solar e um par de óculos digno de alguma celebridade, além das calças especiais. Óbvio! É estranho num dia semi nublado, uma figura vestida assim, mas eu entendo que existe um motivo para isso. Tem uma razão para tudo. Eu tenho um lobo dentro de mim, que quando está forte ele me apaga e quando ele está fraco, eu fico acesa.

Ao meu lado, tem um outro Eu. Um outro ser que tinha seus pés na areia, cabelos ao vento, a pele parecia salgada. Eu quase podia sentir o calor do sol batendo direto na sua pele, daquele jeito que esquenta a alma e a brisa faz um cafuné no rosto como a mão de alguém amado, que segura sua cabeça e passa o polegar na sua bochecha. Esse outro Eu tem um coco nas mãos com aquela água que parecia doce e gelada como deve ser. Esse indivíduo me olha e me rejeita, repudia-se o diferente ainda que seja diferente.

Meu lobo transformou minha vida, meu guarda roupa, minha profissão, meu rosto, meu corpo, meu eu. Todos os dias eu converso com ele e descubro qual é o seu estado e digo a ele ,por mais que muitas vezes nem eu acredite, que apesar dele morar em mim, quem manda nele sou eu. Mas ele em alguns momentos vence e eu me aquieto. E percebo que se a vida é uma guerra, ele ganhou uma batalha e eu terei outras vitórias.

O outro Eu me olha de lado, não sei se por acreditar que é superior ou simplesmente por pena. Olho o outro ser e penso em qual seria a sua rotina? Oito horas diárias do trabalho, metas a serem cumpridas, horas extras necessárias, casa para sustentar, arrumar e limpar. O desejo de um refogado de mãe quando tudo que se tem é um sanduíche pedido no delivery da esquina. Porque até ele chegar ganha-se mais horas no computador. Penso que os diferentes agrupam-se em seus iguais e assim vivemos nos segmentando em grupos. Que compreender a rotina do outro não é tão fácil e que todos temos as nossas miserabilidades, todavia condenamos outros em miseráveis com apenas um olhar. Olho novamente para o outro Eu e sorrio.

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Este lindo post foi escrito pela Renata Moreira, uma escritora nata, que está começando a carreia escrevendo um romance que promete arrancar risadas, lágrimas e boas reflexões.

Meu sol

Eu tuas mãos me fiz calmaria. Sem teu abraço me torno furacão. Não sei qual a relação da tua presença e das condições climáticas da minha alma, mas a verdade é que já não sei mais ficar calma sem teu cheiro. É um conjunto de ações, que tal e qual, as mudanças no tempo, elevam ou dissipam a tempestade que me torno.

Se os ventos da tua respiração sopram em minha direção as nuvens se dissipam, não condesam. Se desfazem. Se não sinto a brisa do teu hálito, acumula-se tamanha umidade, que escapam em forma de lágrimas, com direito a gritos, raios, trovões e dias cinzas.

Eu sei, não deveria depender tanto de algo que vai além de mim pra determinar meu humor. Mas não é assim o clima, que não controlamos e que é determinado pelos fatores da natureza? Sei que a chuva é necessária, mas poderia ser intercalada com longos dias de sol?

Só peço que não deixe virar tormenta. Que me embale com seu calor e permita que meus dias sejam primavera, mesmo no inverno. Que quando tudo estiver gelado, trépido e nublado, você sorria, ilumine o dia e deixa a chuva dos meus olhos também te molhar. Ela faz parte da vida. Se temos o tudo e o nada… Se temos o amor e alegria. Temos também o sol e a chuva.

Eu me fiz calmaria em tuas mãos. Me refresquei em tua brisa e me aqueci em teu sol. Não quero mais me sentir fria sem teu sorriso e nem triste sem teu amor. Quero apenas os dias de sol, mesmo que a tempestade venha, as nuvens te escondam. Quero teu sol.

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Valeu, Universo! será lançado no dia 03 de setembro ás 17h, no stand da Editorial Hope na Bienal do Livro do Rio de Janeiro! Espero vocês lá! E quem quiser garantir o seu exemplar pode comprar pelo site da editora!